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Leo Celso / Freeimages.com

 

Amor não é só proximidade. É também distanciamento. É sentir o vazio, o buraco que ficou, a lembrança quando não há mais ninguém por perto.

A literatura deve muito ao distanciamento. Não fosse, como explicar tantos livros sobre memórias da infância? Ora, só valorizamos o que fomos porque infelizmente não somos mais aquele menino. Só descrevemos os lugares por onde passamos e vivemos porque não moramos mais lá. Quem nunca saiu de casa não a vê com tanto amor.

Com isso, aqui estou pensando: do que ainda preciso sentir falta? Se não sinto saudades de nada, será que, de fato, vivi algo de forma profunda?

Embrutecimento
Uma das maiores tragédias existenciais é nos embrutecermos, é perder a sensibilidade para o verdadeiro, belo e santo. Podemos ficar ricos, ter poder ou conseguir planejar a vida de forma muito certinha. No entanto, se perdermos a chama que nos movia antes, que tipo de ser humano nos tornamos?

Só dá para ouvir a voz de Deus se pararmos de endurecer o coração (Hb 3. 7,8).  A redenção de Deus tem a ver com ele nos dar um coração novo e um espírito novo. “Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 36.26). A natureza da Nova Aliança é ser superior à Lei, fria e morta. Na Nova Aliança o Espírito Santo “põe as leis de Deus em nosso coração e as escreve em nossa mente” (Hb 10.16). Não estamos falando de um Deus impassível, insensível. Estamos falando de Jesus Cristo, o Supremo Sumo Sacerdote que sabe o que é sofrer, que nos amou até o fim e que derramou seu sangue em nosso favor para o perdão de nossos pecados (Mt 26.28). Nossa resposta deve ser: “aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé…” (Hb 10.22).

Seja na saudade humana, seja na saudade de Deus, amar é mais do que ter em mãos o objeto/sujeito deste amor. É aprender a ficar longe, a chorar pelo que perdemos, a resgatar a pérola.

Talvez muitos, como eu, vivam neste momento da vida uma certa tristeza pelo que não somos mais (ou não somos ainda). Parece que a vida não tem a beleza de antes. Isso não deve gerar em nós indiferença. Não deve nos fazer desistir. Vale lembrar que a vida é tanto a proximidade quanto o distanciamento. E que não há esperança sem a incompletude.

A precariedade é o terreno fértil para o novo.

 

EM TEMPO:

Ouça a linda canção de Jorge Camargo “Amolece meu coração”:

 

 

  1. Lissânder, por certo, não faz a menor ideia do que seja divórcio na vida de uma pessoa.

    Por exclusão, casou amor com lembranças da infância, mas aí o imaginário está mais para a figura de “Caçadas de Pedrinho” ou “Meu Pé de Laranja Lima”.

    A precariedade, meu caro, é terreno fértil para a dor. E ninguém tira do precário forças para coisa alguma, senão a dor que dilacera.

    A virtude tem as suas virtudes, não o precário o novo.

    • Eduardo,
      Respeito plenamente sua conclusão, se foi sincera sua experiência com a dor:
      “A precariedade, meu caro, é terreno fértil para a dor. E ninguém tira do precário forças para coisa alguma, senão a dor que dilacera.”
      No entanto, no meu texto sugiro implicitamente que a precariedade nos desarma de nossas próprias fortalezas e nos dá a possibilidade (talvez até a contragosto) de enxergar além de nós mesmos. Este seria o “novo”. Mas não é regra; é possibilidade.
      Não experimentei o divórcio, mas não me sinto superior por isso. Sei dos tantos “divórcios” que estão em meu coração.
      Quanto à dor, tenho medo dela. Não quero encontrá-la, mas talvez seja inevitável, né?
      Quanto ao amor relacionado com as lembranças, na verdade, o que queria dizer mesmo é que a lembrança é irmã do distanciamento, e que de alguma forma o distanciamento deu a ela uma aura de saudade. Claro que não me refiro a lembranças dolorosas e traumáticas. Este foi só um exemplo da ideia que eu queria passar sobre distanciamento.
      Um abraço,

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