As ruas largas e retilíneas facilitam a caminhada num calor extenuante do Norte do Brasil. Mas o menino gosta de driblar os obstáculos imaginários, criando cenas heroicas em sua mente. Pensa que o futuro será melhor. Talvez seja, mas por hora não.

Por hora, o cheiro não é de perfume, mas sim de esgoto. Um cheiro que não vai embora e com o qual já se acostumou. Não sente incômodo, nem reclama.

Anda ele de bermuda, sem cueca, sem camisa, cabelo cortado baixinho (na verdade, raspado pelo barbeiro mais barato da vizinhança). Quando vai à barbearia, lembra que o homem corta exatamente como o pai havia mandado: “como militar”.

Seguindo pela cidade, busca embalagens de cigarro. Faz coleção. Vale “ouro” no jogo de bola de gude (jogo de peteca, como se diz lá). Acha algumas, tipo Hollywood e Free. Mas as valiosas (Marlboro e Charm) são mais raras. O movimento é repetitivo. Anda olhando para baixo. Acha uma embalagem. Tira o papel interno prateado. Abre e depois dobra a “moeda” do jogo. Junta-o às outras que já achou.

O Brasil é dos anos 80, “a década perdida”. Inflação, desemprego, notícias ruins. Novo presidente. O que ele não consegue entender é porque é tão difícil ter uma casa própria. A dele é – e olha que sua família só come frango em dias especiais!

O sol começa a ir embora. O luz brilha, límpida. Ele chega em casa antes das 5. Chega tarde. Os amigos já estão brincando. Ele, que quase sempre perde, não verá grandes novidades. Mas não tem problema. É legal. O que não gosta é quando surge uma briga entre os amigos. Tal briga sempre atrapalha os próximos dias. Ele perdeu a hora porque sua mente o distraiu com sonhos e desejos. Imagina-se melhor e mais amado do que, de fato, é. Mas quando chega, acomoda seus sonhos, e começa a jogar. Perde. Até que a noite venha.

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