O calor característico de Maringá torna o som do ventilador soberano aqui em casa. Eu e Miguel (meu filho de 9 anos de idade) estamos na cama, passeando pelo site da Ultimato. Nos deparamos com a cronologia da revista, publicada no blog Legado Elben César. Amparados pelo vento produzido, lemos datas marcantes de 1968 – ano de sua fundação. Enquanto leio, me vem a mente a seguinte pergunta: como nasce uma grande história? Antes de assim tentar responder, vale fazer outra pergunta: qual a grandeza de uma história?

São perguntas nada fáceis, já que suas respostas envolvem não somente dados objetivos, mas relações subjetivas. No caso da Ultimato, sou totalmente não isento. Por mais de quinze anos, trabalhei na editora, primeiramente com a Revista Mãos Dadas; depois, com o Portal Ultimato. Foram anos marcantes que Deus me proporcionou. Portanto, não consigo medir a história da Ultimato sem considerar a minha própria história; e mais importante: sem perceber a ação de Deus em nossas histórias.

Voltando à pergunta inicial, devo dizer que uma grande história nasce no instante em que há um encontro sagrado entre a vontade de Deus e a obediência humana. Assim como um estrondo imprevisível, tal encontro torna (quase) tudo possível. Ele revela propósitos nobres e fortalece as mãos dos que servem ao Senhor de todo o coração. Talvez por isso Moisés orou assim:

Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos. (Salmos 90:17)

Vale ressaltar, no entanto, que o fato não isenta-nos de uma jornada de lutas. Sou testemunha de que se há uma marca na trajetória da Ultimato é a luta. Ela, que começou como uma revista e depois expandiu seus esforços para a publicação de livros e conteúdo online, nunca deixou de desferir “socos ao ar” contra os mais diversos obstáculos, entre eles, os financeiros e espirituais. A luta aqui referida não é uma alusão à violência; longe disso, significa um esforço heróico em favor da reconciliação. Na utopia de concretizar o Evangelho nas relações mais cotidianas, Ultimato se vê na missão de enfrentar polarizações, discursos de ódio, legalismos, injustiças sociais e fragmentações ditas cristãs. Para isso, paga preços altos na arena da incompreensão. Se o início de sua história foi marcado por perseguições promovidas por padres católicos, ela sofreu bem mais tempo com oposições dos próprios evangélicos. De certa forma, nada incomum, considerando a lamentável desunião que nos caracteriza.

O outro lado dessa moeda é a constatação de que muitos evangélicos, igrejas e organizações foram encorajadas a expressar a concretude do Evangelho, engajando-se e encarnando a natureza das Boas Novas nos rincões do nosso país – e em povos não alcançados. Organizações como Rede Mãos Dadas, RENAS, Visão Mundial, AMTB, Interserve Brasil  e Aliança Evangélica são plataformas que evidenciam o importante papel da Ultimato. Esse mesmo Evangelho, que tem Cristo como a pedra angular, também revela a beleza da arte visual, da música, da literatura e relembra o valor da história e da memória cristã. Esse mesmo Evangelho que denuncia os caminhos egocêntricos e nos faz sensíveis à dor humana, considerando a Psicologia um esforço para nos auxiliar a compreender tudo isso.

Por meio das páginas da Ultimato, o pastor encontrou identificação em seus dilemas profundos e palavras “de pastor para pastor”.  Ele viu que poderia confiar na Ultimato, como um velho amigo que, com franqueza e amor, o aconselha a fim de não se perder em meio a um contexto, por vezes, ilusório.

A grandeza da história da Ultimato ainda será plenamente contada no futuro, quando, se Deus quiser, em outros tempos nos reunirmos para celebrar a graça de Deus na trajetória evangélica no Brasil. Suas páginas são únicas; seu fundador, o pastor Elben César, foi original. Mas ainda faltam olhares acadêmicos para descobrir a riqueza dessa trajetória. As próximas gerações poderão ter acesso a um exemplo de perserverança em favor dos ideais evangélicos, sem arrogância, e a despeito da escassez financeira e da superficialidade religiosa atual. Talvez a Ultimato seja a última grande instituição evangélica independente testemunhando que é possível crescer na fé cristã, com humildade e compaixão, amando Jesus, e sem perder a capacidade de olhar criticamente para dentro e para fora.

Meu filho Miguel, que já havia saído de perto de mim, volta e vê que continuo escrevendo. Ele me pergunta por que ainda não terminei o texto. “Está demorando muito, pai”. Pois aqui faço, mesmo tendo muito ainda a contar. Que o vento do Espírito – não do ventilador ou de qualquer outro aparelho eletrônico – alivie o calor da vida e conduza a Ultimato rumo à concretização do sublime propósito dado por Deus.

Por fim, oro ao Senhor que a história da Ultimato seja contada e recontada por muito mais pessoas no presente e no futuro. E que meu filho – e sua geração – queira conhecer cada vez mais a revista por meio da qual seu pai foi profundamente impactado por Jesus Cristo.

Vida longa, Ultimato!

Feliz 54 anos!

 

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