Andava disciplinadamente, em seu exercício diário, pela pista de corrida no canteiro central da Avenida Gastão Vidigal. Mas o seu corpo era torto. A coluna parecia desgastada. Talvez tivera uma vida desleixada ou sofrida. O treino físico ajuda a mantê-la com energia e vitalidade. Deve ter entre 60 e 70 anos. Mas sinceramente não sei. Só a vi de costas, andando a uns 30 metros em minha frente. Entre nós, havia um senhor mais velho que ela, porém retilíneo. Ao ultrapassar o homem, me dei conta de que não mais a via. Não sei para que lado foi nem que rumo tomou.

Por alguma razão, essa cena básica do cotidiano me tocou. Me fez pensar em mim e na vida. Tenho 42. Serei eu assim, daqui a alguns anos, andando com a coluna torta? Minha esposa já diz que tenho falhas na configuração das costas. Serei eu um homem que tenta caminhar, mas que não consegue manter-se em equilíbrio? O caminho que tenho seguido ao longo da vida me tornou uma pessoa melhor?

Naquele breve instante de reflexão existencial, olhei ao redor e vi mais pessoas caminhando ou correndo na pista. Os mais velhos, andam. Os mais jovens, correm. Alguns pais levavam bebês nos carrinhos; as crianças um pouco mais crescidas iam nas cadeirinhas de bicicleta. É interessante perceber tantas gerações diferentes cruzando o caminho uma da outra. Ninguém se conhece, e as máscaras atrapalham ainda mais qualquer chance de reconhecimento de faces. Mas a realidade é que todos estão tão próximos em uma convergência de momentos, mas tão distantes em um real encontro de destinos.

Ontem conheci a história de um casal de Maringá que há três anos decidiu largar tudo e percorrer o mundo. Viajaram por 42 países, como andarilhos, com pouco dinheiro, mas muita vontade de aprender como a vida é em outros lugares. Admiro a coragem deles, e confesso que brotou uma inveja dentro de mim. Ao mesmo tempo, meus olhos se movem e me mostram que há uma vida impressionante bem diante de mim. A verdade é que eu desperdiço todos os dias minha atenção em coisas fúteis e não percebo a profundidade de cada momento que eu experimento, sem precisar viajar pelo mundo. É o espírito de curiosidade daqueles aventureiros que devemos cultivar.

Gosto do exercício filosófico da observação, como um flâneur dos tempos antigos. Gosto de caçar metáforas, mas não deixá-las presas. Elas têm vida própria, mas são generosas em emprestar um pouco de seu poço de significados para pobres escritores como eu.

Em busca de sentido onde talvez não exista, encontro mais significados momentâneos para a permanência da existência. Encontro-me enquanto me vejo no rosto dos outros. Me vejo talvez em projeções infindáveis de quem sou e deveria ser. Sou esse mesmo, inquieto, mas pouco afeito a mudanças radicais. Busco o silêncio em cada som, e o som oculto em cada silêncio. Fujo das superficialidades, mas não menosprezo o simples, o rotineiro, o real em preto e branco.

É… eu deveria fazer mais exercícios físicos. Poderia ser mais disciplinado, focar mais na melhoria do corpo; a saúde é importante. Uma simples caminhada pode revelar mais do que se espera sobre os outros e sobre você mesmo.

Após uma hora, volto para casa. Suado, mas satisfeito. A vida é mesmo essa descoberta contínua de obviedades.

 

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