A vida é um confronto entre quem somos e quem gostaríamos de ser. É a busca que cada passo faz, encantado pelo horizonte visível.  Há os que fingem que o confronto não existe, e assim se escondem na mediocridade da moralidade superficial. Outros são mentirosos mesmo, hipócritas, diante da realidade e manipulam suas incoerências em favor de seus interesses egoístas. Mas há os que são sinceros quanto à incompletude e imperfeição. Esses caminham, errando e acertando, mas caminham. Por vezes, confiam apenas em si mesmos e se decepcionam; por outras, terceirizam aos outros a responsabilidade e também se frustram; mas aí eles se encontram com a Fonte da existência e descobrem que toda a esperança de redenção e de aprimoramento está Naquele que nos chama para a vida e para a busca de sentido.

A espiritualidade não é uma fuga ou fingimento. É uma descoberta contínua de quem somos e de quem deveríamos ser. Ela nos ajuda a buscar – e encontrar – o que pode nos tornar quem sonharmos ser.

A religião cristã tem um papel fundamental, mesmo que não exclusivo, nesse processo. Ela pode nos levar a ambientes coletivos favoráveis, se comprometida e sedenta pela Revelação. Quando é bem conduzida, a igreja local torna-se um espaço físico, psicológico e social de fortalecimento da espiritualidade e da busca por uma identidade redimida. Isso envolve, inevitavelmente, erros e decepções. É inevitável pela razão óbvia de que toda igreja é formada por gente imperfeita. Todos devem então assumir suas responsabilidades específicas: a liderança, as famílias e cada indivíduo que participa da comunidade de fé. Quanto mais orgânica essa relação for, mais saudável será.

 

Universo particular

A despeito das faces religiosas vigentes, a jornada de cada um de nós é maior, mais complexa e mais rica do que podemos imaginar. Somos um “universo particular”, cheio de nuances, conexões mentais e fugas emocionais. A maior viagem é para dentro de nós mesmos. Ao mesmo tempo, nossa jornada interior precisa conectar-se com a realidade exterior, ou seja, com o que vemos, sentimos, ouvimos e experimentamos, com suas métricas objetivas e rostos reais, de carne e osso. É sempre um risco perder-se na subjetividade. A tristeza, por exemplo, pode tornar-se um poço sem fundo ou de areia movediça. Ela serviria muito bem para a criatividade poética, mas pode nos aprisionar em um mundo só nosso, que com o tempo transforma-se em um enconderijo dos covardes.

Viver é sair da caverna. É não se contentar com as sombras, mas aventurar-se no encontro real com pessoais reais, cheias de erros e frustrações. É também descobrir a alegria do sorriso do outro, a satisfação da solidariedade e a comunhão da amizade. Privar-se disso é reduzir-se.

 

Como conduzimos nossas vidas?

Como conduzimos nossas vidas? Como um peso, um carma, uma obrigação? Ou como uma dádiva, uma oportunidade, uma descoberta, encontros surpreendentes com Deus e com as pessoas?

Ainda nos falta muito, e isso provoca sentimentos negativos em nossos corações: medo, tristeza, frustração, raiva, indignação… Mas também já ganhamos muito: amizade, amor, aprendizado, perdão… Quem queremos ser no futuro depende da maneira como conduzimos nossa vida hoje.

Nossa decisão é só o primeiro passo. Não significa que teremos uma vida “sob controle”, mas, na medida do possível, pode ser uma vida mais leve, mais positiva, mais cheia de energia. Mesmo, que, em alguns momentos, descontrolada e em sofrimento.

Quero convidar você a viver a vida em sua plenitude. Não a vida idealizada, mas a vida real. Sem aprisionar-se pelas tentações da perfeição, do racionalismo, do egoísmo e do medo.

Entregue-se alegremente à confiança simples e profunda no Autor da Vida e (re)descubra a beleza da existência.

E lembre-se: o confronto entre quem somos e quem gostaríamos de ser é tão importante quanto o ar que respiramos.

 

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