Eu estava lá. No palco do III Congresso Lausanne.

Tive a honra de ser convidado para ler o poema* “Sopro Santo”, de minha autoria, na noite dedicada ao continente latino-americano (quarta, dia 20). Experiência incrível. Coração batendo mais forte. Respiração ofegante. Os pensamentos eram muitos, mas uma questão me ajudou a enfrentar o desafio: “eu acredito de verdade no que vou ler, sei que o Espírito Santo é o sopro santo que está movendo a América Latina. Por isso, conseguirei cumprir meu papel”.

Momentos antes, eu me encontrava na sala de espera ao lado de Samuel Escobar, René Padilla, Tim Keller e outros. “O que estou fazendo aqui?”, eu me perguntava, enquanto esperava a minha vez de ir ao palco. Faltando 10 minutos, duas voluntárias (uma asiática e a brasileira Érica) me levaram até próximo do palco para que um técnico me ajudasse a pôr o microfone.

Poucos minutos me separavam do momento em que iria ler meu poema para mais de 4 mil pessoas. Minha torcida era que os organizadores mantivessem o púlpito, pois este seria meu melhor amigo na tentativa de manter uma postura de segurança. Faltando menos de um minuto, não é que eles tiraram o púlpito?! Tentei protestar, mas lembrei que eu não falava inglês o suficiente para resolver a questão. Não teve jeito. Lá vou eu enfrentar o maior público da minha vida, sozinho com minha folha de papel.

Em minha mente, eram estes os pensamentos de ordem: não gaguejar, não deixar o papel cair, não olhar para o cronômetro. Assim foi. Pela graça de Deus. No início da leitura, eu ainda estava apreensivo, mas logo fui sendo tomado pela força do poema e pelo ritmo das estrofes. Me senti à vontade, com a certeza de que ninguém melhor do que eu conhecia e sentia aquele texto.

Ler a última estrofe foi um alívio. O sentimento foi de gratidão a Deus pela extraordinária chance de participar diretamente do maior congresso evangélico de missões do mundo, e ler o único texto do evento em português. A nota triste é que o telão não conseguiu projetar as legendas em inglês, o que fez com que a maioria das pessoas não entendessem o conteúdo. Não faz mal. Valeu a pena mesmo assim.

*Sopro santo

Venham todos os povos!
Venham todos!

Pelas mais variadas ruas sopra o vento santo
Entre folhagens e asfaltos, sopra o Bem
Pelos rostos marcados, ilusão ou dor,
Vem o sopro, afagando, tornando alegria o que era só labor

Venham todos os povos!
Venham todos!

 

Pelas mais variadas danças sopra o vento santo
Entre passos e abraços, sopra a Beleza
Pelas faces pintadas, sintonia ou cor,
Vem o sopro, conduzindo, tornando puro o que se criou

Venham todos os povos!

Venham todos!

Pelas mais variadas gerações, sopra o vento santo
Entre novos e velhos, eles e elas, sopra a Vida
Pelas mãos separadas, aconchego ou suor,
Vem o sopro, unindo, tornando um em Cristo tudo o que for

Venham todos os povos!
Venham todos!

Pelas mais variadas vozes, sopra o vento santo
Entre gritos e susurros, sopra a Palavra
Pelas lutas contínuas, lágrimas ou fulgor
Vem o sopro, concertando, tornando justiça o que era só clamor

Venham todos os povos!
Venham todos!

Pelas mais variadas partilhas, sopra o vento santo
Entre fome e fartura, sopra a Compaixão
Pelos corpos magros, dádiva ou temor
Vem o sopro, suprindo, tornando casa de pão o que era só favor

Venham todos os povos!
Venham todos!

Pelas mais variadas terras da América Latina, sopra o vento santo
Entre línguas, etnias e gestos, sopra a fé
Pelos olhos fechados ou abertos, suspiro ou temor
Vem o sopro, dando sentido, expulsando o mal, tornando real Deus nosso Senhor.

Venham todos os povos!
Venham todos!

 

Assim seja agora e para todo sempre.
Assim seja, e seja o que for.

 

Lissânder Dias
Escrito em 09 de julho de 2010 e lido no terceiro dia (20.10) do III Congresso Lausanne na Cidade do Cabo.