Madonna
Wolfgang Lettl – 1975

A arte é uma das portas que nos levam a lugares mais amplos e belos. Mas ela também nos ajuda a olhar para a realidade de forma mais profunda, porque aponta dores e angústias. Deus nos deu a benção de produzir arte como expressão da nossa experiência com ele e com a vida que ele nos concedeu.

Gosto muito de museus. Mas como não moro em capitais, não tenho o hábito de ir. Mas eis que descobri nesta semana uma ferramenta muito legal: o Google Arts & Culture. Neste ambiente virtual, dá para apreciar muitas obras de arte e conhecer as informações e tendências de artistas. Dá para ver tudo isso em um App da Google.

A novidade mais recente é a parceria com o IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus. Cinco museus do IBRAM (entre eles, Museu Nacional de Belas Artes e o Museu Lasar Segall) estão nesta página especial, com exposições virtuais. Você também pode fazer um tour pelos próprios museus, suas salas e seus prédios.

Você ainda pode passear pelas obras usando o critério das cores.

Uma dica para os nossos leitores do Portal Ultimato: visite este filtro “arte sacra” (e aprenda a diferença entre arte sacra e arte religiosa).

Vai por mim. Tudo muito intuitivo e fácil de ver e ler.

 

 

A Bíblia me fascina nas suas mais variadas formas: nas surpresas da narrativa, na inteligência das reflexões, na reverência da revelação divina. Mas é a poesia bíblica – e as imagens que nascem dela – que mais me encoraja, me fortalece, me renova. A poesia bíblica é companheira da fé. Juntas – poesia e fé -, nos fazem enxergar além do presente. São como portas que se abrem para a esperança. Ao entrar, a esperança toma assento e conversa longamente comigo. E mesmo que a chuva caia do lado de fora, não deixo de crer que a vida será plena.

É uma pena que muitos dos nossos sábios evangélicos ignoram o poder da poética bíblica e reduzem a uma prosa seca e fria a beleza dos versos, das rimas e das metáforas.

A estética do texto não é um mero detalhe. Salmos (com seu paralelismo invertido) e Isaías (com suas imagens fortes e agudas), por exemplo, são dois livros que valorizam grandemente não somente o conteúdo, mas também a forma da Palavra:

Os passarinhos encontram espaço em tua casa;
os pardais e as andorinhas fazem ninhos nos beirais.
Eles botam ovos e criam seus filhotes,
cantando tuas canções no lugar em que adoramos.
Senhor dos Exércitos de Anjos! Rei! Deus!
Como são abençoados por viver e cantar ali!
(Salmos 84.3-4)

 

Os que cantam e os que dançam dão crédito a Sião:
“Todas as minhas fontes estão em você!”
(Salmos 87.7)

 

“Cante, mulher estéril, que nunca teve filho.
Encha o ar de canções você, que nunca deu à luz!
Você vai ter muito mais filhos que aquelas mulheres que têm marido”, diz o Eterno!
(Isaías 54.1)

 

“Assim como a chuva e a neve descem do céu
e não voltam sem antes ter irrigado a terra,
Cumprindo a tarefa de fazer que as coisas brotem e cresçam,
produzindo sementes para o agricultor e comida para os famintos,
As palavras que saem da minha boca
não voltarão vazias para mim.
Elas cumprirão a missão de que as incumbi
e cumprirão a tarefa que lhes dei”.
(Isaías 55.11)

 

Em tempos da espetacularização dos literatos, vale lembrar que mais importante que o autor é sua obra. E assim o é porque a literatura é universal e eterna, enquanto que nós somos finitos e limitados em nossa vã maneira de viver.

A Bíblia é literatura. E assim sendo nos fala de geração em geração o que o coração humano experimenta em sua relação com Deus, com o próximo e com sua própria cultura.

Mas a Bíblia também é revelação. E assim sendo nos torna leitores cheios de expectativas. Como ela nos surpreenderá desta vez? O que os meus olhos ainda não viram? O que meu raciocínio ainda não captou? Como meu coração será tocado? Como Deus me desafiará?

Quando o leitor reúne sensibilidade com expectativa, as páginas da Bíblia se tornam profundas experiências de Graça e Verdade (personificadas no próprio Cristo – Jo 1.17).

Suspeito que nós, cristãos, somos culpados por um grave desperdício. Jogamos fora a riqueza de um banquete único (a Palavra de Deus) e nos contentamos com migalhas místicas ou de autoajuda. A Bíblia já não é mais nossa companheira de fé e lágrimas. Já não perseveramos em sua leitura e já não nos dedicamos com disciplina a entendê-la. De leitores ávidos nos tornamos meros espectadores de um espetáculo religioso onde a voz do pregador é mais importante do que a voz do Autor.

Aventure-se a ler a Bíblia com prazer, com expectativas e com a sensibilidade poética. Entregue-se a esta experiência de fé, de graça e de verdade. Não se deixe levar pela preguiça ou pela falta de disciplina. Persevere. Deixa a Palavra de Deus encantá-lo mais uma vez. Permita que o Espírito Santo renove a chama do seu espírito. Que a poesia do Poeta-Mor encha de luz o seu coração — mesmo nos dias tristes.

A despeito dos trechos difíceis, das histórias trágicas e das palavras duras, as Escrituras nos testemunham ainda hoje que a redenção é mais forte que o pecado. Que Deus é mais poderoso que o Inimigo de nossas almas. E que na morada do futuro há, sim, um lugar preparado para os que caminham com Cristo hoje.

 

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Em tempos de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, eu gostaria de celebrar as Escrituras, assim como fez a revista Ultimato 366 (Julho/Agosto). Vale a pena ler ambas – a Bíblia e a Ultimato.

Nota: Textos bíblicos na versão A Mensagem.

Cheguei hoje ao Nepal para uma viagem de 10 dias. Vamos, de bicicleta, visitar casas ao longo da trilha e distribuir Bíblias. Dizem que foi aqui neste país que Buda nasceu (na fronteira com o Tibet). A verdade é que não difícil encontrar estátuas do líder religioso do Budismo. E aqui são é apenas  Buda que ganha espaço nas prateleiras das lojas ao ar livre. Há estátuas de deidades as mais diversas. Além disso, vagas e macacos ocupam espaços nas vias públicas sem serem incomodá-los, afinal, são considerados deuses.

Duas conversas
Duas conversas me ajudam a entender um pouco da alma religiosa do nepalês. A primeira é do missionário brasileiro que mora há 7 anos na capital. Ele disse, por ser a religião milenar, o Hinduísmo tem força grande na cultura. Então como o Cristianismo pode chegar até a alma do nativo? Primeiro, gastando tempo de qualidade no discipulado das pessoas. Muitos estão chegando a Cristo por meio de milagres, mas poucos são, de fato, acompanhados no crescimento da sua fé.

A segunda conversa foi meio que repentina. Estávamos comprando alguns produtos para a viagem de bicicleta em uma loja da cidade. Meu amigo fez amizade com o vendedor, tentando negociar o preço de um saco de dormir. De uma hora para a outra, a conversa tomou outro rumo.  Eles começaram  a falar sobre céu e inferno, sobre Bíblia, sobre Cristianismo. Meu amigo fez uma pergunta provocativa: “para onde você vai quando morrer?” O vendedor ficou irritado e a conversa foi se tornando um pequeno embate.

Não é fácil conversar sobre Cristo com quem tem uma visão de esperança, de inovação e informação bem diferentes de nós. Ao mesmo tempo, vi como nós, os brasileiros, somo queridos. Todo conhecem Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho.

Que Deus nos dê sabedoria para aplicarmos bem todos os recursos e ferramentas que ele nos deu!

 

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Os pés pesam cada vez mais. E não sabe quanto tempo ainda vai andar. Ele observa as fachadas das residências e lembra das fachadas das casas de sua infância. Bem diferentes.

As casas de antigamente sempre tinham varandas, e quase nunca muros. As de hoje abdicaram do espaço de convivência porque precisam proteger-se.

Tudo é bem calculado por estas bandas. Não há tanto espaço para improvisos. Ele consegue perceber a simetria enquanto caminha na desarmonia dos seus próprios passos.

O suor já impregnou sua pele. O cheiro não é bom, e o incomoda. Gostaria de tomar um gostoso banho. Mas a verdade é que não há perspectiva de que isso aconteça nas próximas horas.

Não falei, mas ele não está apenas caminhando. Carrega um carrinho vazio. O seu trabalho é conseguir papelão e vendê-lo. Assim é que ele sustenta a família.

O problema é que já está no fim do dia e pouca coisa conseguiu. É a última rua do bairro. Todas as casas fechadas.

Quase desistindo, pensa na vida. Por que tanta escassez? Como fez tanta escolha errada na vida? Por que a família não o ajuda? Por que continuar?

Ele também pensa em Deus.

Sabe pouco. Mas tem fé.

Lembra de sua pequena igreja próxima à sua casa. Lá ele canta, ora, chora e ouve as lições da Bíblia.

Uma das lições é não desistir. “Deus está contigo”.

Então levanta um pouco mais o carrinho, retoma o fôlego e acelera os passos.

Um veículo se aproxima. O motorista abre a janela e diz: “bom dia. Tenho uma coisa para você lá em minha casa”.

“Bom dia, doutor. É mesmo? Então vamos lá”.

Seguem. O carro o ultrapassa, mas não acelera tanto.

A casa não é longe. E ele já percebe a fachada próxima. Sim, tem muros também.

O motorista abre o portão automático e o chama para entrar.

Ele entra.

O motorista é um jovem de baixa estatura, barbudo e sem cabelos. Um sujeito simpático e amável.

Mas de todas as frases doces que ele poderia pronunciar, a melhor de todas foi:

“Acabamos de nos mudar para cá. Temos muitas caixas de papelão vazias no canto direito da garagem. Pode ir lá e pegar para você”.

A reação foi automática:

“Só pode ser de Deus mesmo!”

Foi uma mistura de oração com suspiro. De fé com cansaço. De surpresa com gratidão a Deus.

Ele lembrou-se de Pedro, que havia tentado pescar a noite toda, mas sem resultado. Jesus entrou no barco e o ordenou que jogasse a rede. E ele jogou!

Neste caso, era simplesmente papelão, mas valia muito para quem luta para sobreviver.

Claro, ele sabe que é apenas mais um dia. Que seria bem melhor se tivesse mais oportunidades além de catar papelão. Mas aqui e agora o que vale é o momento. Terminar o dia com o carrinho cheio é muito bom! É benção de Deus.

O dono da casa se surpreende com a reação dele e então repete, meio que pensando na sua própria vida ou até mesmo recebendo uma resposta divina:

“É, só pode ser de Deus mesmo”.