Um romance nasce de uma ideia, vira um roteiro, ganha uma linguagem e, em seguida, um trabalho braçal, todos os dias, durante um ano e meio.

Já a poesia é um estalo; um verso solto, uma imagem, uma ideia concentrada em palavras.

Não dá para levantar cedo, tomar café, ir à mesa do escritório e decidir: “vou escrever um poema”. Impossível. Mas, a prosa, para mim, é bem assim.

— Cristovão Tezza, romancista ao Jornal Metro (16/03/2018).

 

O ser humano tem um labirinto dentro de si: a própria mente. Achar a saída exige de cada um honestidade e vontade. Não basta a razão. É preciso discernimento que brota da devoção ao “Pai das luzes” (Tg 1.17).

A fé cristã é esta experiência com o Pai que afeta profundamente nossa mente. Não é que nos tornamos mais inteligentes quando nos tornamos cristãos, mas aprendemos – ou pelo menos deveríamos – a buscar a verdade nos lugares certos. Tudo o que defendemos ou atacamos, certezas ou dúvidas, nascem não de uma inteligência autônoma, meio que endeusada; são resultados da nossa devoção (não necessariamente religiosa, mas devoção como entrega apaixonada ao que amamos).

Todos somos devotos de alguma coisa ou alguém. E é exatamente nesse recôndito, onde mora a devoção, que encontramos o nascedouro para a capacidade de sermos quem somos e de pensarmos o que pensamos.

Obviamente que há muitos outros fatores que influenciam nossos pensamentos, mas para ser simples e claro, não levaremos nenhuma ideia até o fim se não nos apaixonarmos (ou sermos enfeitiçados) por ela.

Sendo um labirinto, a mente também é uma tentação. Escolhas erradas podem nos impedir de chegar ao destino. Ela, inclusive, pode se tornar refém ao longo do caminho e cativa de atalhos falsos como aquelas antigas arapucas que aprisionavam pássaros.

Por outro lado, a mente é uma dádiva. Tem um potencial incrível de nos levar a lugares fantásticos. Nossa mente nos faz superar limitações impostas pelo simples fato de que temos a capacidade de (re)pensar qualquer pressuposto. Não subestime o que é possível fazer quando você decide colocar seus pensamentos para funcionar, quando você é exigido além do que está acostumado. Verá que Deus o criou para viver acima da mediocridade que o mundo propõe.

Em tempos de hipercomunicação e estímulos informativos constantes, nossa mente é um tesouro que deve ser preservado e, ao mesmo tempo, expandido. Risco e oportunidade estão lado a lado.

Quando unimos harmoniosamente mente, devoção e esforço descobrimos que nada é tão óbvio que não precise de uma boa dose de reflexão. Por outro lado, nenhuma inteligência é autossuficiente ao ponto de ignorar uma fé humilde e esperançosa.

 

 

 

Antes da luz, a escuridão. “A terra era sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo”.

Antes do parto, a ausência de afeto. “Não é bom que o homem esteja só”.

Antes da Boa Nova, a Velha Mentira. “Certamente não morrerão!”.

Antes da manjedoura, a violência. “Sou eu responsável por meu irmão?”

Guerras, egoísmos, falta de caráter, desconfianças… A História é cruel. A vida é vazia. “Tudo é correr atrás do vento”.

Mas ele nasceu. Veio a luz. Aí está o Menino-Deus! “O que será deste menino?” “Uma lança transpassará tua alma”.

Mas nem todos o acolheram. “E os seus não o receberam”. Não há motivos para mascarar quem somos. Se dependesse de nós, não comemoraríamos o Natal.

No templo, ainda criança, dialogou, buscou o conhecimento, mesmo que por vezes incompreendido. E dialogou até com o Diabo. Venceu a manipulação, superou a tentação do poder.

No solo sujo do nosso coração, ele cresceu. Menino que virou homem. A expressão exata de Deus Pai.

Foi batizado. E a Trindade se encontrou! “Este é o meu Filho amado em quem tenho prazer”.

Ele andou, percorrendo todos os lugares, tocando todas as pessoas, curando-as, amando-as… até o fim.

Suas palavras eram vida. Seus milagres, libertação. Seu amor, salvação.

Teve sede. Teve fome. Quem deu a ele o que beber e o que comer? A gota do vinagre foi o símbolo do escárnio e da rejeição.

Ele morreu. As trevas voltaram. Terremotos mostraram que o mundo não é neutro. Não há ingenuidade. A guerra é real.

Mas eis que nasce o sol da justiça, e em suas asas, a ressurreição. Nada consegue aprisionar aquele que é liberdade, que é eternidade.

Natal: história de amor e fúria. No compasso da delicadeza do nascimento, o descompasso do horror da morte dos meninos. “Por quê?”, gritam as mães.

No suspiro de esperança pelo Messias que finalmente chega, a resiliência de quem ainda não consegue sair do quarto escuro da alma. Na alegria das canções natalinas, a dor da ausência de quem se foi cedo. Na mesa farta da família, a fome dos rejeitados.

Natal: ato surpreendente, quase que inacreditável. Ele veio! Fez-se gente, habitou entre nós. E vimos sua glória como a do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

Celebramos o segundo Gênesis, novo início, sem trevas, sem vazio, sem solidão. E a despeito da História que ainda testemunha contra nós, eis o broto que surgiu, resistente à morte do tronco.

E no mundo de hospedarias lotadas, eis que surge a luz. Sim, é hora de abrir a porta.

Macrat (pixabay.com)

Já é quase comum. Nem pensamos muito. Tudo virou mídia. Tudo é manchete. Tudo, mas principalmente eu mesmo. O que me faz pensar que o aspecto ordinário da minha vida é interessante? Por trás do que mostramos está uma necessidade gigantesca de sermos vistos.

“Obsessão pela própria aparência”. Esta é a definição para narcisismo dada por Vanessa Hill, psicóloga australiana e especialista em mídias sociais. Diz a história que Narciso era prisioneiro de si mesmo. Quem diria! Somos o “ídolo” que o Segundo Mandamento nos ordena a evitar:

 

Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra.
Êxodo 20:4

 

Somos uma geração marcada pelas grandes ilusões. Após as tragédias das Duas Guerras, já não confiamos em grandes coisas nem em deuses universais. Não mais cremos fielmente em verdades absolutas nem em esperanças eternas. Não estamos preocupados em deixar nenhum legado real para gerações futuras. Mas, ao mesmo tempo, queremos ser “adorados” como nunca. Realmente somos o tal Homo incurvatus in si – o homem curvado para si mesmo. Decidimos preencher o vazio de Deus com nossa própria imagem – maquiada, sorridente, bela.

As redes sociais são ferramentas ideais para o ritual idólatra. A idolatria de hoje não apresenta contornos tradicionais nem ícones religiosos. Ela se faz na adoração da humanidade, no hedonismo pelo mundo fabricado por nós mesmos. E é neste universo fake que nos contentamos com a mentira e nos afastamos da verdade.

Quando Deus nos alertou que não fizéssemos ídolos, ele o disse em um contexto cultural no qual as pessoas viam os deuses como sujeitos poderosos e, fundamentalmente, úteis. Úteis para dar a eles o que precisavam, como colheitas abundantes. No final das contas, o que o coração idólatra revelava é que o culto não era uma entrega ao Deus bondoso, mas uma troca de favores que obrigatoriamente deveria beneficiar a vida de quem prestava culto.

A idolatria do passado se relaciona com a de hoje em um aspecto fundamental: o “eu” é o centro. Mas não subestime o egocentrismo. Ele é criativo, cria maneiras de parecer o que não é, e de não parecer o que é. A mania do selfie é só uma expressão de quem somos e do que move os desejos do nosso coração. Obviamente que não é errado fazer selfies, assim como não é errado contar nossas próprias histórias em um livro ou assinar um “testemunho de conversão”. Mas a sabedoria cresce no solo da prudência. Os alertas de Deus não devem ser ignorados. O risco é real. Quanto mais nos colocamos no centro, mais nos afastamos de Deus.

Uma oração ideal para esta época da mentira e do autoengano é:

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações. Salmos 139:23
Taí um bom exercício: antes de mostrar-se aos outros, mostre-se a Deus. E se você ainda não tem coragem de fazer isso, ore. Peça que ele esquadrinhe seu interior ao ponto de livrá-lo dos desejos idólatras. Este é o caminho para a liberdade.