De todas as enchentes em que naufraguei,

é da força contrária à correnteza que me lembro.

 

De todas as pedras que me fizeram tropeçar,

é da harmonia retomada pelos passos que me lembro.

 

De todos os pecados que cometi,

é da jangada da graça que me lembro.

 

De todas as frustrações que senti,

é do gosto agridoce do amor que me lembro.

 

De todos os equívocos que causei,

é do novelo sendo desenrolado que me lembro.

 

De todas as traições que pratiquei,

é do suor na reconstrução que me lembro.

 

De todos os sonhos que não vivi,

é do arco-íris repentino que me lembro.

 

De todos as manhãs nubladas que me fizeram desacreditar,

é da ensolarada alvorada seguinte que lembro.

 

Não sou a queda no abismo.

Sou as mãos que me seguram.

 

A voz saía com dificuldade, sob o peso da velhice e das dores que o afetam constantemente. Mesmo assim os pensamentos eram claros e sucintos. Era a voz de um velho pastor.

João Rodrigues tem 85 anos. Caminha com muita dificuldade. Na verdade, na maior parte do tempo, ele está sentado.

Por muito tempo, morou em uma casa grande, intencionalmente escolhida para acolher pessoas. Hoje, vive em uma residência menor, com a esposa dona Carmen e filhos. Sente-se orgulhoso em contabilizar o número de visitas que já fez na vida.

Eu não conhecia o Pr. João. Fui lá entrevistá-lo para um vídeo. Era uma manhã ensolarada, com os raios entrando pela janela da sala. Começo fazendo uma pergunta específica, mas ele me dá outra resposta. Fala sobre sua vida pessoal. Emociona-se. Conta como Deus lhe é precioso; e conta de um jeito comovente, relevando como sua fé é viva e real.

Enquanto o pastor fala, uma das suas filhas faz gestos para mim, lá no fundo da sala. Ela está tensa com o fato do Pr. João não ter respondido minha pergunta. “Ele sempre faz isso”, diz a filha. Mas eu não estou preocupado. Quero ouvi-lo mais, quero aprender sobre uma vida de fé com o testemunho daquele velho homem frágil fisicamente, mas forte espiritualmente.

Pr. João diz que sem Deus não há prazer na vida. De forma simples, me trata como se eu fosse sua ovelha. É simpático. É pastoral.

Após alguns minutos, eu tive que seguir a pauta da entrevista e, por isso, não ouvi o final da história do Pr. João. Talvez não seja necessário. O que me falou já é suficiente para eu me lembrar que o final da vida é um exercício cotidiano de navegar em uma jangada, sem equipamentos, sem salva-vidas, sem “plano B”. É sobreviver apenas com o essencial, com o básico, com o que nos resta. O que restou àquele homem? Saúde? Recursos? Fama? Nada, exceto o amor que dedicou às pessoas e a intimidade com Deus cultivada ao longo de tantos anos.

Pr. João estava de “mãos vazias”, mas com o coração cheio de graça.

Talvez seja só hábito de pastor. Ou talvez não.

A velhice talvez seja voltar às origens. Assim como Deus sempre quis.

 

Deus e paixão são os ingredientes essenciais para a vida. (Eugene Peterson)

Um romance nasce de uma ideia, vira um roteiro, ganha uma linguagem e, em seguida, um trabalho braçal, todos os dias, durante um ano e meio.

Já a poesia é um estalo; um verso solto, uma imagem, uma ideia concentrada em palavras.

Não dá para levantar cedo, tomar café, ir à mesa do escritório e decidir: “vou escrever um poema”. Impossível. Mas, a prosa, para mim, é bem assim.

— Cristovão Tezza, romancista ao Jornal Metro (16/03/2018).

 

O ser humano tem um labirinto dentro de si: a própria mente. Achar a saída exige de cada um honestidade e vontade. Não basta a razão. É preciso discernimento que brota da devoção ao “Pai das luzes” (Tg 1.17).

A fé cristã é esta experiência com o Pai que afeta profundamente nossa mente. Não é que nos tornamos mais inteligentes quando nos tornamos cristãos, mas aprendemos – ou pelo menos deveríamos – a buscar a verdade nos lugares certos. Tudo o que defendemos ou atacamos, certezas ou dúvidas, nascem não de uma inteligência autônoma, meio que endeusada; são resultados da nossa devoção (não necessariamente religiosa, mas devoção como entrega apaixonada ao que amamos).

Todos somos devotos de alguma coisa ou alguém. E é exatamente nesse recôndito, onde mora a devoção, que encontramos o nascedouro para a capacidade de sermos quem somos e de pensarmos o que pensamos.

Obviamente que há muitos outros fatores que influenciam nossos pensamentos, mas para ser simples e claro, não levaremos nenhuma ideia até o fim se não nos apaixonarmos (ou sermos enfeitiçados) por ela.

Sendo um labirinto, a mente também é uma tentação. Escolhas erradas podem nos impedir de chegar ao destino. Ela, inclusive, pode se tornar refém ao longo do caminho e cativa de atalhos falsos como aquelas antigas arapucas que aprisionavam pássaros.

Por outro lado, a mente é uma dádiva. Tem um potencial incrível de nos levar a lugares fantásticos. Nossa mente nos faz superar limitações impostas pelo simples fato de que temos a capacidade de (re)pensar qualquer pressuposto. Não subestime o que é possível fazer quando você decide colocar seus pensamentos para funcionar, quando você é exigido além do que está acostumado. Verá que Deus o criou para viver acima da mediocridade que o mundo propõe.

Em tempos de hipercomunicação e estímulos informativos constantes, nossa mente é um tesouro que deve ser preservado e, ao mesmo tempo, expandido. Risco e oportunidade estão lado a lado.

Quando unimos harmoniosamente mente, devoção e esforço descobrimos que nada é tão óbvio que não precise de uma boa dose de reflexão. Por outro lado, nenhuma inteligência é autossuficiente ao ponto de ignorar uma fé humilde e esperançosa.