Sábado foi um dos dias mais chuvosos que já vivi em Maringá. Água, vento forte – tão forte que ouvíamos os “assovios” provocados pela tempestade no lado de fora da nossa casa. Deu trabalho: tivemos que enxugar o chão e, por conta da queda de energia elétrica, limpar a casa à luz de velas.

Domingo chegou e o dia foi totalmente diferente: amanheceu frio, mas algumas horas depois veio o sol, que perdurou até o fim do dia. Aliás, ele nos presentou com um céu maravilhoso no entardecer.

Começa a segunda-feira. Um dia especial. Aniversário do Miguel, 9 anos. Acordamos cantando. Ontem, já havíamos começado a celebrar com a visita do tio Ézer. Mas hoje é o dia e a hora. Ele nasceu às 8h03 de 25 de outubro de 2012, em Viçosa (MG). Dia de expectativa, dia de paixão. Como eu escrevi na época, “os primeiros dias do resto de nossas vidas”.

Hoje, 9 anos depois, me pergunto o que mudou em mim com a chegada de meu primeiro e único filho. Posso dizer que a principal mudança está no autoconhecimento. Eu me vejo nele, e, como ele se vê em mim, me sinto desconcertado com tamanha confiança em um ser tão imperfeito como eu. O peso da responsabilidade é grande e, por vezes, penso ouvir aquela voz “tire as sandálias, porque você está pisando em terra santa”. A santidade de ser pai é além da minha capacidade humana, é sublime demais para alguém como eu. Por outro lado, o Miguel é um “memorial da graça de Deus” em nós. É como se Deus tivesse reunido algumas pedras pelo caminho e levantado um altar na estrada e então dito: “veja, vou colocar essas pedras nesse lugar para que sempre que passar por aqui, se lembre que você só existe por causa da minha graça”. Olho para o Miguel e vejo a graça de Deus plena. A paternidade me faz olhar para Jesus e Jesus me faz olhar para a paternidade. Até em seus erros, o Miguel me ensina que a graça é uma realidade que só se compreende vivendo. Não há manuais para explicar a graça; há vida para vivê-la.

Após deixar o Miguel na escola, eu paro na lanchonete da universidade, peço um pão de queijo e um café sem açúcar. Me lembro do significado do nome do meu filho: “Quem é como o Senhor?”. Resolvo procurar algum salmo que fale sobre isso. Me sento, abro o app da Bíblia e procuro o Salmo 29. Leio-o com atenção. Releio. Esse é o “meu” salmo. Sou fã dele. Sempre que o leio, me sinto encorajado para enfrentar a vida, porque sei que a força de Deus é maior que a minha. Esse texto me faz imaginar várias cenas, como um dia de chuva forte, trovões, animais assustados, montes pegando fogo. E ao final, o poeta diz:

“O Senhor governa os dilúvios; como rei, o Senhor governa para sempre. O Senhor dá força ao seu povo, o Senhor abençoa o seu povo com paz”. (Salmos 29.10-11).

Deus é trovão em mim. Não há silêncios definitivos.

Deus é sinfonia de vozes que vão ecoando dia a dia, manhã, tarde, noite, madrugada. No sábado, no domingo e hoje. Na paternidade, na maternidade; no sol, na chuva; no silêncio, na algazarra; nos sonhos não-ditos e nas mãos trabalhando. No choro, no sorriso. No amor, no perdão ou na reconciliação.

O que se espera de Deus é subestimado pelo que ele, de fato, é.

“Quem é como o Senhor?”.

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