Crônica sobre um Luto

 

Professor Miguel: meu pai

Era um dia qualquer: rotina, trabalho, decisões, planejamentos e um bolo para a turma da firma comer após o almoço. Mas a verdade é que nenhum dia é “qualquer”. Eis que veio a mensagem: “aconteceu alguma coisa com seu pai”. Os 30 minutos seguintes foram de indagações, enquanto o medo ia crescendo. Informações vinham aos poucos, mas depois chegou a fatídica notícia: ele havia falecido.

O que aconteceu depois disso foi uma sucessão de decisões rápidas para que fosse então possível realizar um enterro rápido e sem aglomerações.

Foram sete dias intensos, difíceis, estranhos.

O infarto que fez o coração de meu pai parar veio repentina e definitivamente. Ele havia acordado feliz, cheio de planos. Tomou café com minha mãe e seguiu de bicicleta para o seu sítio a uns 10 quilômetros da cidade. Lá ele plantou árvores, colheu frutas e conversou com as pessoas. Papai e mamãe combinaram de almoçar juntos, quando ele voltasse. Ele voltou, mas não deu tempo de cumprir a promessa. Estava caído na parte externa da casa quando mamãe o encontrou, inerte.

Tudo foi interrompido em um segundo e, como que um vento forte, a vida nos convocou para participar daquele momento. Chegamos na madrugada do dia seguinte ao Pará, um tanto abismados, mas focamos em resolver tudo. Os quatro filhos estavam juntos para assumir as circunstâncias da morte.

Os dias passaram rapidamente, já que as tarefas tomavam nosso tempo. Quando nos sentávamos para as refeições, era possível compartilhar as lembranças sobre meu pai e também respeitar o silêncio da dor de cada um de nós.

Cinco dias após a morte, eu me dediquei, junto com outros dois irmãos, a separar papéis e objetos pessoais de papai. Mas eles tiveram que sair para resolver outras demandas e então eu fiquei sozinho diante daquela tarefa. Foi o meu momento com a presença-ausência do meu pai. Enquanto separava e descartava as coisas, meu coração falava com minha mente sobre quem foi o homem que acabara de morrer. Sua caligrafia me lembrava as tantas cartas que escreveu. Seus livros velhos me fizeram pensar em como o conhecimento – por mais precioso – pode simplesmente ser enterrado em um certo dia comum da vida. O conhecimento de meu pai se foi com sua mente morta.

Meu esforço principal não era separar os papéis, mas sim descobrir quem eu sou a partir do legado do meu pai. Descobri diplomas, cartas de terceiros, documentos, objetos sujos e muito velhos, mas também coisas novas, nunca utilizadas. Sou um pouco de tudo aquilo: desgastado e novo, ao mesmo tempo, memória e certificados, intensões e conquistas. Mas aquilo era apenas vestígio de quem meu pai realmente era. Sua identidade não estava contida naquele pequeno quarto velho, mas sim nas experiências com os outros.

Meu pai era um homem simples e, ao mesmo tempo, culto. Lia e estudava muito. Sua fluência no inglês era sofisticada e seu domínio do português era grande. Se quando mais jovem era fechado e de poucos amigos, quando foi envelhecendo tornou-se dócil e agradável. Tinha suas frases de efeito e brincava sempre. Parecia um otimista degenerado. “Para frente, Brasil!”, vociferava entusiasticamente ao despedir-se de cada pessoa que encontrava. Em seu funeral, encontramos feirantes, estudantes, professores, agricultores, missionários, funcionários públicos. Todos, de alguma forma, foram tocados por sua vida e por seus valores. Todos tinham alguma história para contar.

Momentos antes de seguirmos para o cemitério, um senhor que conhecia meu pai há 30 anos, pediu para cantar alguns hinos cristãos. O primeiro tinha a seguinte estrofe: “Porque Ele vive, posso crer no amanhã; porque Ele vive, temor não há”. Aquela voz já idosa, mas afinada, nos levou até a essência do meu pai: sua fé em Jesus Cristo. E foi uma fé sempre apaixonada, sempre cheia de palavras e lições, que tentava nos conduzir para um futuro brilhante, nunca para um passado escravizador. Meu pai era professor e missionário, que percorria quilômetros e quilômetros de bicicleta para compartilhar do amor de Deus às pessoas mais simples. Apesar de ele ter um grande conhecimento acadêmico, era mais amigo dos pobres do que dos poderosos. Alguns mais abastados o procuravam para traduzir coisas, mas, no geral, seus amigos eram agricultores e donas de casa. Um dos companheiros mais presentes se chama Rosivaldo, um homem simples, com pouco estudo formal, mas muito habilidoso na agricultura e na construção de casas. Um dos seus muitos filhos agora é estudante de Medicina em uma universidade pública. Ele expressou gratidão ao meu pai pelo incentivo e os ensinos de inglês.

Não passava um aniversário nosso sem que meu pai nos repassasse referências bíblicas que ele chamava de “brinde espiritual”. Ele gostava muito dos Salmos e do Novo Testamento, entre eles o Salmo 01 e Hebreus 12.2. São textos impregnados em nós que nunca mais serão esquecidos.

Quando criança, eu sentia falta do toque do meu pai. Ele sempre foi uma pessoa de pouco afeto físico, que se preocupava mais em nos ensinar do que em demonstrar amor. Cresci assim, sem a presença paterna na dimensão emocional. Certa vez escrevi uma crônica que tinha como protagonista os “braços do meu pai”. No texto, eu me lembrava quando ele me levava de bicicleta para a zona rural – eu na garupa da frente e ele dirigindo, com a respiração ofegante e os braços fortes me guiando. A imagem dos seus braços me conduzindo era o mais próximo do afeto físico que tive dele. Nos últimos meses de sua vida, tive que levá-lo algumas vezes ao banco para receber o seu salário mensal. Foi estranho ter que tocar em sua mão e conduzir seus dedos até o local da identificação biométrica no caixa eletrônico. Parecia que eu estava invadindo algum território de outra pessoa, mas, na verdade, eram simplesmente os dedos de meu pai que, naquele momento, eram guiados por mim.

São tantos os detalhes significativos destes últimos dias após o falecimento dele! Ainda estou processando o luto, e vez ou outra, me vem uma tristeza persistente que me arranca lágrimas.

Eu não trouxe quase nada do meu pai comigo, em minha bagagem, exceto algumas fotos, um livro e um par de sandálias escuras. Cada um desses objetos tem um valor simbólico imenso para mim, mas o par de sandálias trouxe mais impacto imediato. Ao calçá-las, meus pés se encaixaram perfeitamente, como se já fossem minhas. Os passos que passei a dar também foram dados por ele. Era uma metáfora de um legado – simples, desconhecido, mas profundo – de uma vida única de um homem único.

Sei que eu sou um pouco de quem meu pai foi. E me orgulho muito disso. Meu desafio agora é ressignificar o luto e me tornar uma pessoa melhor a partir de sua memória e de seus valores.

 

NOTA:
Meu pai Miguel Monteiro do Amaral faleceu em 04 de março de 2021, vítima de um infarto fulminante, em Igarapé-Açu (PA), aos 78 anos de idade. Deixa a esposa (Maria Helena), os filhos (Rowney, Lissânder, Milena e Ézer) e quatro netos (Bárbara, Beatriz, Miguel e Manuela).

  1. Não conheci seu pai meu amigo, mas vc tem sido para mim modelo de sabedoria e de equilíbrio. Sem dúvida grande parte disso é legado dele. Sinto contigo sua dor, choro contigo suas lágrimas, e compartilho contigo da sua gratidão por tê-lo tido em sua vida.

  2. Antonia Leonora van der Meer

    Emocionante esse relato do luto pela morte repentina do pai, pelo Lissânder. e mais do que o choque e a dor são as memórias que lhe invadiram, lembrando-se da pessoa do seu pai, de tantas coisas preciosas que passou para seus filhos, também de algumas carências. Prevaleceu a gratidão e a admiração pelo seu pai. Graças a Deus a famíia conseguiu se unir para a ocasião.

      • Emocionante seu relato amigo, gostava muito de conversar com seu pai, homem culto, palavras certas, brandas. Sempre que nos encontrávamos ele tinha a palavra certa ao se despedir, e tive o privilégio de conversar com ele dia anterior a sua morte, e sempre me perguntava como ia o meu empreendimento, e se despediu me desejando mais sucesso entre outras palavras motivadores, lembro que minha última palavra dirigida ao seu Miguel foi um “Amém”. Fica com Deus vc e toda sua família.

  3. Fui lendo e enxugando as lágrimas, pois muito do que viveu e está vivendo me remete a perda do meu pai.

    A vida é uma série de aprendizados. O conhecimento pode ser transferido para outros indivíduos e, ao meu ver, esse é o verdadeiro sentido de legado. É nítido o impacto positivo que seu pai gerou, principalmente na sua vida. Você aprimorou os ensinamentos recebidos e, com seu carisma e simpatia, transmite de forma contagiante todos que te cercam.

    Obrigado pelas palavras, elas acalentam nossos corações.

    Conte sempre comigo, meu amigo!

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