Confronto e afeto. Duas palavras que, à primeira vista, parecem irreconciliáveis, mas que, na verdade, se completam. O problema é que nós, seres humanos, tropeçamos quase sempre na necessidade de afeto e no temor do confronto. Assemelha-se então a um pêndulo em movimento que nunca se estabiliza.

O confronto é necessário para deixar o relacionamento mais límpido e honesto. Já o afeto é o vínculo que nos mantêm unidos. Precisamos de ambos, mas não sempre. O confronto pode facilmente tornar a relação dura, estúpida. Já o afeto tem o poder de nos tornar emocionalmente reféns do outro.

O grande desafio é, antes de tudo, saber discernir o lugar e o tempo ideal para cada um deles. Isso só é possível se entendermos o tamanho do desafio e se tivermos clareza da importância do relacionamento em questão.

Seus relacionamentos mais preciosos são tão verdadeiros quanto a importância que dá a eles? Se sim, não fuja do confronto e também não deixe de aprender a dar e a receber afeto.

Nesses dias de isolamento social, tenho aprendido a, quando necessário, confrontar com afeto e a dar afeto, sem me esquecer do compromisso com a franqueza. Quando isso acontece, no primeiro momento, a reação do outro pode ser de autodefesa ou de acusação, mas isso não deve fazer você recuar. Firme-se no vínculo que construiu e seja íntegro. Certamente, a relação ganhará maturidade.

Para terminar, quero dar um exemplo.

Às vésperas de sua morte, Jesus Cristo reuniu-se com seus doze discípulos para a última refeição, a ceia da Páscoa. Todos reunidos em uma mesa com pão e vinho. A cena foi imortalizada na belíssima pintura de parede “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci. Naquela conversa, Jesus anunciou que algum deles iria traí-lo. Uma conversa dura, mas com afeto. Jesus mostrou o pecado, mas não deixou de colocar-se à disposição para a redenção (oferecendo até o próprio corpo para isso). Um confronto, desconforto, mas ninguém saiu da mesa. As cenas seguintes a esse momento foram fortes. Jesus foi, de fato, traído por Judas. Foi chicoteado, foi torturado, foi morto. O mundo quis confrontá-lo do jeito errado, mas em troca recebeu o confronto correto, onde Cristo venceu a morte e anunciou a salvação por meio da ressurreição. Leia os Evangelhos e descubra que Cristo soube ser duro na hora certa, mas nunca deixou de ser amigo daqueles que o ouviam sem barreiras.

Tudo está em construção. Nada está pronto. Em uma construção, há tarefas que exigem força e outras que exigem apenas habilidade. O mesmo acontece conosco. O difícil é não cair no erro de desconsiderar a força e o efeito tanto do confronto quanto do afeto.

“A Última Ceia” é uma pintura sobre parede realizada por Leonardo da Vinci entre 1494 e 1497 no refeitório do Convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão, Itália.

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