Os pés pesam cada vez mais. E não sabe quanto tempo ainda vai andar. Ele observa as fachadas das residências e lembra das fachadas das casas de sua infância. Bem diferentes.

As casas de antigamente sempre tinham varandas, e quase nunca muros. As de hoje abdicaram do espaço de convivência porque precisam proteger-se.

Tudo é bem calculado por estas bandas. Não há tanto espaço para improvisos. Ele consegue perceber a simetria enquanto caminha na desarmonia dos seus próprios passos.

O suor já impregnou sua pele. O cheiro não é bom, e o incomoda. Gostaria de tomar um gostoso banho. Mas a verdade é que não há perspectiva de que isso aconteça nas próximas horas.

Não falei, mas ele não está apenas caminhando. Carrega um carrinho vazio. O seu trabalho é conseguir papelão e vendê-lo. Assim é que ele sustenta a família.

O problema é que já está no fim do dia e pouca coisa conseguiu. É a última rua do bairro. Todas as casas fechadas.

Quase desistindo, pensa na vida. Por que tanta escassez? Como fez tanta escolha errada na vida? Por que a família não o ajuda? Por que continuar?

Ele também pensa em Deus.

Sabe pouco. Mas tem fé.

Lembra de sua pequena igreja próxima à sua casa. Lá ele canta, ora, chora e ouve as lições da Bíblia.

Uma das lições é não desistir. “Deus está contigo”.

Então levanta um pouco mais o carrinho, retoma o fôlego e acelera os passos.

Um veículo se aproxima. O motorista abre a janela e diz: “bom dia. Tenho uma coisa para você lá em minha casa”.

“Bom dia, doutor. É mesmo? Então vamos lá”.

Seguem. O carro o ultrapassa, mas não acelera tanto.

A casa não é longe. E ele já percebe a fachada próxima. Sim, tem muros também.

O motorista abre o portão automático e o chama para entrar.

Ele entra.

O motorista é um jovem de baixa estatura, barbudo e sem cabelos. Um sujeito simpático e amável.

Mas de todas as frases doces que ele poderia pronunciar, a melhor de todas foi:

“Acabamos de nos mudar para cá. Temos muitas caixas de papelão vazias no canto direito da garagem. Pode ir lá e pegar para você”.

A reação foi automática:

“Só pode ser de Deus mesmo!”

Foi uma mistura de oração com suspiro. De fé com cansaço. De surpresa com gratidão a Deus.

Ele lembrou-se de Pedro, que havia tentado pescar a noite toda, mas sem resultado. Jesus entrou no barco e o ordenou que jogasse a rede. E ele jogou!

Neste caso, era simplesmente papelão, mas valia muito para quem luta para sobreviver.

Claro, ele sabe que é apenas mais um dia. Que seria bem melhor se tivesse mais oportunidades além de catar papelão. Mas aqui e agora o que vale é o momento. Terminar o dia com o carrinho cheio é muito bom! É benção de Deus.

O dono da casa se surpreende com a reação dele e então repete, meio que pensando na sua própria vida ou até mesmo recebendo uma resposta divina:

“É, só pode ser de Deus mesmo”.