Entregar nossa cidade nas mãos de Deus é o mínimo que podemos fazer. Quem nos encoraja a fazer isto é o próprio Jesus. Ele amava as cidades por onde passava ao ponto de realmente se envolver com elas. É verdade que Jesus nunca foi vereador de Cafarnaum, por exemplo, mas nem por isso deixou de se preocupar e de olhar para as cidades com olhos de pastor.

Para Jesus, as cidades não eram simplesmente estatísticas ou pontos marcados em um mapa. Eram, antes de tudo, pessoas (no plural mesmo) que viviam juntas, trabalhavam juntas, criavam suas famílias juntas. Isso porque “a cidade é o ponto de encontro da vida pública com a vida privada”, como disse o editorial desta semana da revista Época. As cidades somos nós em uma dinâmica coletiva de construção de desejos e necessidades.

O relato de Mateus (9.35-28) nos informa que Jesus percorria as cidades e povoados anunciando e agindo em favor do reino de Deus. Enquanto fazia isso, ele revelava não somente o seu poder e a verdade do seu Evangelho, mas também a maneira como se relacionava com os ajuntamentos sociais. Destaco duas significativas posturas de Jesus diante das cidades:

1. Só um Deus presente e engajado consegue enxergar os aflitos, desamparados e as “ovelhas sem pastor” (v. 36). Assim Jesus viu as multidões em um realismo que combate a alienação e o egocentrismo. Só quem enxerga as dores dos outros consegue ter compaixão.

2. Só um Deus Senhor consegue ver o futuro com esperança. Para Jesus, as cidades eram lavouras frutíferas, que de tão frutíferas não teriam gente suficiente para colher os frutos (v. 37). É o que também diz, em outras palavras, o subsecretário-geral da ONU, Joan Clos: “A cidade é uma força vibrante e poderosa para o desenvolvimento”.

É verdade, as injustiças potencializadas nas cidades mega-urbanizadas não são prova definitiva de que devemos aposentá-las. Faz parte da trajetória humana a construção de seu contexto social, respondendo e reagindo à história. Para Jesus, as cidades não eram projetos falidos, mas sim lavouras frutíferas à espera de gente disposta a trabalhar em favor dela, com o poder do Espírito Santo.

CC BY-NC-ND 2.0 / Hervé Photos – Cantagalo, RJ. Uma das favelas que fazem parte do estudo “Sociabilidades Subterrâneas” (UNESCO).

Admirado com Jesus, penso nas lições que podemos aprender com isso:

– Devemos olhar para a nossa cidade com uma “compaixão engajada”. Não com compaixão falsa e demagógica. Devemos permitir com que nossos olhos enxerguem a realidade nua e crua. Mas atenção! Não basta ficar impressionado; é preciso permitir que esta realidade penetre o nosso coração ao ponto de gerar compaixão. Sim, isso também é um exercício espiritual, que vai além da espiritualidade individualista tão comum hoje em dia em nossas igrejas. Como olhamos para nossa cidade? Com desprezo e indiferença? Ou com amor?

– Devemos enxergar além dos nossos olhos, com esperança. Engajamento, compaixão, esperança. Tudo isso é o adubo para a oração que surge: a oração de que a igreja não seja apenas espectadora, mas sim trabalhadora por uma cidade que glorifique o nome de Deus. Uma cidade onde haja vida em abundância, saúde e a presença do reino de Deus. Uma cidade sem o reino de Deus é uma cidade desamparada, sem pastor.

Que nosso voto neste domingo seja influenciado pelo padrão espiritual de Jesus Cristo.

Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. Então disse aos seus discípulos: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Peçam, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita”. (Mt 9.35-38)

 

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