Busquei a saída com a dedicação passional ao que cria. Chorei, orei, sorri, imaginei minha própria vida preenchida transcendentalmente por emoções que me faltavam naquele tempo. No entanto, não evitei o fracasso. Ele que usualmente me frustrava, continuava presente. Às vezes, repentino; outras, lamentavelmente esperado.

Busquei então a saída com a dedicação racional ao que cria. Exercitei minha mente, descobri capacidades próprias, sonhei com utopias desejáveis para o relacionamento humano. Agradei-me com o que aprendi, me vi mais conhecedor do que outros. Sabia, porém, que mesmo sabendo, ainda me faltava muito a aprender. Descobri minhas próprias limitações intelectuais, mesmo crendo que a jornada estava em curso. No entanto, não evitei o fracasso. Ele voltou, e parecia apreciar minha companhia.

Olhei para a vida, e vi um emaranhado de linhas formando e deformando. Vi ansiedades, pecados, ilusões. Mas vi também realizações, vitórias pequenas e singelas, vi pessoas virtuosas, cheias de graça e misericórdia. O que vi se entrelaçava em minha mente, e me mostrava quem sou. O que sou é uma fusão do que é existir. Entre o ideal e o real, caminho. Com perguntas, me faço agora. Com respostas, me satisfaço agora.

Meu esforço é válido sim. Não que seja válido para todos (alguns são indiferentes ao coração humano), mas a luta que travo pode formar as pedras do caminho de quem anda na mesma direção que eu.

Olho então para a Palavra do Pai, e me vejo pequeno, absurdamente pequeno diante do que ele espera de mim. Parece haver um grande hiato entre a vontade de Deus e a realidade humana. Talvez esse seja o segredo do mundo e, ao mesmo tempo, seu grande problema. Como olhar para Deus e nos ver? Como olhar para o ser humano e encontrar o Senhor?

As letras inspiradas mostram como somos e como deveríamos ser. Isso é o que temos, nada mais. Ou não?

Para a leitura moralista, temos uma ética a ser seguida, e ela está nas mãos somente de quem realmente a busca. Os existencialistas dizem que o relato bíblico é a prova de que a humanidade está, de fato, falida, sem saída. (Talvez assim eu me sinta muitas vezes). É assim? A vida é assim realmente? Essa é a resposta que Deus pode me dar? Esforço meramente humano ou cinismo realista?

Não. Minha fé repousa na existência de Deus na terra. Não apenas uma existência gerada pela certeza de humanos teimosamente religiosos. Não. O que creio – por mais que seja desprovido de sofisticadas elaborações filosóficas ou de confiança incondicional no sobrenatural invisível – está firmado na visita surpreendentemente pessoal do próprio Deus. É ele que empresta sentido à fé genuína. É ele que transforma o hiato incompreensível em um feixe de luz que brilha diretamente nos olhos de quem o busca. O Deus terreno converte o tempo em um único momento: não há passado, não há futuro, não há presente. Há o encontro entre a divindade e a humanidade. Este é o tempo, este é o sentido da moralidade, esta é a ponte entre o ideal e o real. Isto é que dá esperança aos que buscam o perdão e a salvação para suas próprias existências vis e medíocres.

A saída não está em mim, muito menos no que espero de outro. A saída está na Pessoa que toca a humanidade, antes mesmo que esta seja redimida. Antes mesmo que haja qualquer era de felicidade ou de plenitude. A miséria humana é o chão daquele que caminha pela história. Algo tão inexplicável quanto o sopro que agora experimento.

 

26 de julho de 2008, às 22h06. Caeté, MG