Marie chegava toda manhã em minha sala para fazer a faxina do dia no escritório. Sempre sorridente, ela gosta de um café e de conversar com aquele sotaque arrastado de quem domina o português, mas ainda não abandonou sua língua de origem.

Marie é do Haiti e veio para o Brasil já há alguns anos com os filhos. O esposo está aqui há menos tempo, mas hoje a família está novamente junta.

Marie é pentecostal e gostava de compartilhar comigo alguns sonhos que tinha e as respectivas interpretações espirituais do seu pastor.

Marie é uma batalhadora. Vive com poucos recursos, mas muito determinada a seguir em frente para o bem da família.

Eu já não trabalho mais com a Marie e, na verdade, faz um tempo que não nos vemos. Mas um dos momentos mais emocionantes de nossos encontros matinais foi quando eu a presenteei com uma Bíblia em Crioulo – seu idioma. Vi seus olhos brilharem e ela pular de alegria. Até então não possuía uma Bíblia impressa em sua língua – só no celular. Agora tem.

Eu aprendi muito com a fé de Marie. Aprendi que o sofrimento, o abandono e o deslocamento geográfico não são capazes de apagar a chama do Espírito no coração humano.

A Marie me ensinou sobre oração como um hábito diário, naturalmente humano e divinamente surpreendente. Que sustenta nossas fragilidades e nos dá um senso de confiança e segurança em Deus.

Apesar de nova, Marie confessou que se sente cansada. Trabalha muito fora e dentro de casa. Ela pensa, inclusive, em deixar o emprego, mas ainda não faz porque tem um filho estudando com bolsa na universidade.

Sim, Marie pensa no futuro. Vir para o Brasil devolveu a ela este privilégio e direito: sonhar.

Ao recomeçar a vida, Marie olhou pra frente.

Acolhida pela igreja, Marie não perdeu sua humanidade.

Aceita por Deus, Marie se sente digna.

Isso é Evangelho.

 

Ilustração: magnific.com

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