É claro e óbvio que Jesus é o modelo de espiritualidade do cristão. No entanto, na prática, não é tão simples assim. Somos muito influenciados pelo contexto e pelas circunstâncias (sem falar na natureza do nosso próprio coração).

Vozes do púlpito, por vezes, ditam uma aparência de piedade que nos convencem a copiar. É difícil imaginar uma igreja que caminha, genuinamente, em direção ao estilo de vida de Cristo, considerando a diversidade e os contrapontos ao longo do processo.

Viver a humanidade é algo misterioso. Dentro de nós há uma guerra permanente que nos faz querer paz, mas que, na maioria das vezes, na verdade, nos leva à exaustão. Não à toa, Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28-30).

Não, a fala de Jesus não era sobre o contexto de trabalho e emprego. Seus ouvintes não estavam cansados simplesmente porque trabalhavam demais (embora isso possa ter sido um fato). As palavras de Cristo miram a alma, enxergam por trás dos panos e das máscaras de produtividade e autoridade e apontam contra uma religiosidade – além de hipócrita – cansativa e pesada, que exige de nós o que não somos.

Quando nos engajamos num processo irreal de espiritualidade, há muitos prejuízos – sendo o pior talvez não amadurecermos ao longo da caminhada.

A espiritualidade meramente religiosa mira na utopia e acerta na frustração.

 

A espiritualidade meramente religiosa mira na utopia e acerta na frustração.

 

Por outro lado, encontrar o verdadeiro descanso em Jesus nos capacita a vivermos e aprendermos com cada processo de amadurecimento que o Senhor nos oferece.

Um dia após o outro (Sl 19.2), prosseguindo para o alvo pelo prêmio da soberana vocação (Fp 3.14), carregando diariamente a cruz (Lc 9.23-25), de graça sobre graça (Jo 1.16), sendo transformados de glória em glória (2 Co 3.18), Cristo nos convida a caminhar – não a saltar, ignorando as pegadas.

Cada passo é importante. É nessa grandeza do pequeno que reside a força. Daí o conselho do salmista: “ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12). Sim, a sabedoria mora no dia a dia, não nos eventos espetaculares.

A espiritualidade de Jesus nos convida a valorizar cada aspecto da vida como um campo aberto para o amadurecimento e a transformação de pontos ainda obscuros em nossa alma. E temos que confessar: isso acontece muitas vezes debaixo de lágrimas, porque as vitórias, via de regra, não surgem em passes de mágica, como que fora do nosso mundo. É na “realidade do dia” que Deus conduz nossas vidas ordinárias. É quando lutamos que a graça brilha ainda mais.

 

A espiritualidade de Jesus nos convida a valorizar cada aspecto da vida como um campo aberto para o amadurecimento e a transformação de pontos ainda obscuros em nossa alma.

 

Portanto, sigamos o caminho de Jesus, olhando fixamente para o Autor e Consumador da nossa fé (Hb 12.2). Momento a momento. Dia após dia. Até à eternidade.

 

Perguntas para pensar:

  • Qual o modelo de espiritualidade que, de fato, acredito e sigo?
  • Há, afinal, um “modelo” acabado e definitivo?
  • Há uma base, um fundamento do qual todos os possíveis modelos nascem?
  • Pensando na igreja evangélica, que modelos de espiritualidade ela está gerando, alimentando e propagando?

 

Imagem do topo: Pixabay.

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