Simão Cireneu Ajuda Jesus a Levar a Cruz, Passo V da Via Sacra, 1945. Cândido Portinari.

 

Com os braços marcados, ele a segurava. Madeira de lei, pesada, grande. Quem viu a cena dizia que não há coisa mais lamentável. O olhar do criminoso diz tudo sobre sua condição. Olhar triste de quem não deveria estar ali. Ah, mas todos os contraventores dizem o mesmo: “não sou culpado”.  

Eu o encontrei pelo caminho, enquanto voltava do campo e me dirigia até o mercado. Me lembro que estava com pressa, pois a lista de compras era grande e eu ainda precisava resolver alguns problemas. 

Não gosto de ver cenas como aquela, não combinam com nossa vida simples e comum, onde só queremos sobreviver em uma nação dominada por outra. Ver alguém sofrendo daquela forma me dói o coração. Mas não posso fazer nada. Sou apenas um trabalhador judeu estrangeiro.  

“Esse é o mesmo criminoso que se diz o messias?”, pergunto aos outros que também pararam para observar a situação. “Sim, é ele”, alguém responde. E fico pensando: “como alguém tem a coragem de enfrentar o império romano e o Sinédrio? Só pode ser louco!”.  

Quando decido ir embora, sinto uma mão forte por trás tocando meu ombro. “Ei, você!”. Eu me viro e vejo um guarda mal-encarado olhando para mim. “Sim, senhor”, respondo, com um misto de apreensão e medo.  “Você vai ajudar esse homem a carregar sua cruz”. 

O quê? Logo eu? Essas são perguntas que faço a mim mesmo, em pensamento. Não tenho coragem de questionar Roma. Jamais. Então, coloco a lista de compras no bolso, dou alguns passos à frente e me abaixo o suficiente para encaixar o pedaço de madeira em meu ombro direito. Tento levantar, mas não consigo. Cinco segundos depois, uso mais força e, enfim, ergo aquele objeto grande e pesado. O condenado está em minha frente quase desfalecendo, sem forças até mesmo para olhar para mim. Confesso que a minha energia cresceu por causa do sentimento de raiva que nutri por aquele cara. Ele erra e eu pago por seus erros? Não é possível! 

Damos os próximos passos, enquanto eu tento acompanhar a velocidade dele. No início, nos atrapalhamos, mas depois eu consegui seguir um ritmo sincronizado. Pela primeira vez, olhei ao redor e vi duas margens de gente, à direita e esquerda, observando atentamente o que se passava: homens, mulheres, jovens, crianças… todos com os olhos fixos em nós. Eu, que sou tímido e não gosto de multidões, me vi constrangido e até “invadido” por aqueles olhares.  

Após alguns minutos, meu corpo já estava encharcado de suor. A pele de minhas mãos se tornou frágil ao ponto de rasgar. As costas doíam muito e ficava cada vez mais difícil um senso de direção adequado. Quase caímos por duas vezes, mas felizmente seguimos em frente.  

Olhei mais longe, para o horizonte, e vi os limites da cidade de Jerusalém. Sim, eu sabia para onde estávamos indo: para o terrível gólgota. Não bastava carregar uma cruz de outra pessoa, e agora ainda tenho que ir a um lugar malcheiroso e que exala morte? A colina já começava a surgir em minha vista quando ouvi alguns gritos indignados: “Crucifica-o! Crucifica-lo!”. Aquele homem parecia tão inofensivo, rendido, que era difícil entender tanta revolta de alguns.  

Então aconteceu algo estranho. Não sei explicar muito bem, mas mesmo diante de todos aqueles sentimentos negativos, eu comecei a sentir uma certa coragem, uma força que parecia não vir de mim, uma postura resoluta diante do pior. Meus braços estavam feridos, mas não pensava mais em desistir. Quanto mais me aproximava do gólgota, mais eu tinha certeza de que precisava terminar a jornada, de que eu deveria ajudar aquele homem a chegar em seu destino trágico.  

Se no início, ele me irritava, com o passar do tempo, já não sentia nada negativo por ele. Foi nascendo em mim uma certa cumplicidade, como se já nos conhecêssemos há muitos anos. Aquela sincronia no andar, o respirar profundo trazido pelo cansaço, a energia gasta com um peso que se tornara comum a nós dois. Aquela cruz já não era apenas dele; também me pertencia. Era nossa. 

A postura inicial de um trabalhador justo (eu) contra um bandido (ele) já não cabia em meus pensamentos. Eu comecei a me lembrar de minha vida, desde a infância. Recordei das coisas erradas que eu fiz, de como magoei pessoas, meus pais, minha família; de como fui desonesto quando meu poder estava em risco; e da forma como fui passivo quando pessoas ao meu lado foram feridas por erros que não cometeram. Por vezes, eu fiquei calado diante do mal e por vezes me vi pequeno demais para assumir qualquer responsabilidade maior. Quando me casei, entendi que seria minha chance de redenção, mas com o passar dos anos, só me via como um homem aquém do papel de marido, pai e senhor de meu lar. Mas a lembrança mais assustadora veio quando pensei em Javé – o Deus de minha comunidade judaica, em torno do qual os nossos costumes giravam; desse Deus, na verdade, eu pouco conhecida. Havia estudado a Torá, claro, mas quando pensava nele só me vinha o medo de desagradá-lo. Com Javé, eu não me sentia à vontade, mesmo que cumprisse todos os rituais prescritos. De repente, me vi sujo, injusto e frágil. Indigno de merecer qualquer coisa. Veio a pior sensação já vivida: uma angústia profunda.  

Desnorteado, tanto pelo cansaço quanto pelos pensamentos desagradáveis, me vi sem saber para onde olhar. Lá no fim da estrada o gólgota me esperava, mas eu não queria ver nada. Fechei meus olhos e perguntei a Javé: “onde tu estás? O que farei de minha vida?”. Eu, que sempre orava repetindo palavras de outros, pela primeira vez elaborei as minhas próprias. Mais alguns segundos com os olhos fechados, e finalmente, eu os abri. Tamanha surpresa foi a minha, quando vi, enfim, os olhos do criminoso. Ele me fitava e parecia penetrar meu coração.  

Não, definitivamente ele não era um bandido qualquer. Algo diferente parecia conduzi-lo a um estado de paz incompatível com sua atual situação. Não havia uma gota de desespero. Não havia vitimismo, muito menos revolta. Resoluto, ele me olhava. No início, não entendi, mas logo depois, mesmo que sem palavras, eu percebi que aquele olhar era uma resposta à minha oração. Sim, uma resposta! 

Não é possível. Não quero acreditar que Deus estava falando por meio daquele homem! Não faz sentido! 

Uma voz silenciosa dizia ao meu coração que eu deveria confiar nele. Eu neguei a veracidade do que ouvia, mas não consegui sustentar tal postura por muito tempo. Uma conexão estava feita entre nós. E quanto mais eu nele confiava, mais necessitado de amor eu me sentia. A angústia pelos meus erros começou a dar lugar a uma leveza do perdão. Eu me sentia mais forte, mesmo diante do peso da cruz.  

Ao chegarmos ao gólgota, os soldados me afastaram da cruz e deixaram o homem ao lado dela. Ele estava bem mais cansado do que eu, mas com olhos fechados, parecia orar. Eu já não tinha nenhum sentimento, senão paz. A mesma paz que ele demonstrava ter.  

Ao livrar-me da cruz de madeira, eu entendi que ela também não era dele. O que estava acontecendo era injusto! Por um momento, pensei em protestar, mas quando aquele homem olhou novamente para mim, senti por um instante em meu corpo o peso exato da cruz – muito maior do que eu havia suportado até então. Não, a cruz não era dele; era minha! 

Eu me ajoelhei e chorei profundamente. Chorei por ele; chorei por mim. Minhas lágrimas eram de arrependimento e, ao mesmo tempo, de alegria. Eu já não sentia o peso do pecado em meu corpo, em meus sentimentos e em minha mente. Eu estava livre! 

O homem que foi obrigado a carregar a cruz de um criminoso já não existia. O criminoso, na verdade, realmente era quem ele dizia ser: o messias. E, mais do que nunca, eu sabia exatamente quem eu era: Simão, de Cirene, um judeu salvo pela graça de Deus. 

 

**  

Mais forte que a morte, o Messias ressuscitou no terceiro dia. O caminho do cordeiro pascal até à cruz, no entanto, era o meu caminho; seus passos eram os meus também. Não há razão para crer em outra pessoa senão em Jesus Cristo – o Deus totalmente confiável, Aquele que suportou a pior face do mundo por amor a mim – e a você.  

 

Imagem: Simão Cireneu Ajuda Jesus a Levar a Cruz, Passo V da Via Sacra, 1945. Cândido Portinari. Pintura a têmpera/madeira, 49×49 cm. Acervo: http://acervodigital.unesp.br/handle/unesp/378659

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