Era sua primeira noite fora da barriga da mãe. Miguel começara a viver, efetivamente. Mas a verdade é que já era de madrugada, e meu filho não parava de chorar. Um choro doído. Seu intestino ainda está se acostumando, disseram as enfermeiras. Além disso, o som, o calor, o ritmo do sono… tudo isso é intenso e novo. Eu diria até violento (pela intensidade do impacto).

Coloco minha imaginação em curso e me vejo no lugar do Miguel. Por nove meses, seu “lar” foi um ambiente perfeito (a barriga), que funcionava inteiramente para ele. Mas agora não. A vida é muito mais complexa e cheia de fatores, movimentos e estímulos. Mesmo que a gente se esforce o máximo para diminuir o impacto para Miguel, não, o mundo não existe em função dele. Não são os sorrisos, os abraços ou aconchego da mãe. O que mais toca, de fato, o recém-nascido é a dor. Começar a viver é enfrentar a dor, uma dor persistente por diversos dias.

Apesar de nos angustiarmos quando os choros são mais intensos, ninguém acha que as circunstâncias são anormais ou injustas. Pelo contrário, somos repetidamente aconselhados a encará-las como parte da chegada do bebê.

Como conciliar esta realidade com a ideia de que viver bem é tão somente sentir prazer a qualquer custo?

Os choros do meu filho me ensinaram que não devo fugir da dor, quando ela é inevitável. A alegria é mais real quando a dor já passou, e não quando não temos coragem de enfrentá-la.

Dor e alegria fazem parte da vida que Jesus fez questão de nos ensinar a viver. Não é à toa que ele já disse: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33). Para quem ainda se lembra, foi uma vitória regada a sangue.

Se a vida começa com a dor, eu diria que é impossível continuar a viver sem a benção do consolo – consolar e ser consolado. Não é por acaso que um dos nomes de Deus é exatamente “Consolador” (Jo 14).

Que alegria saber que Ele nos concede o privilégio de, enquanto somos consolados, também consolar os sofredores do mundo. A experiência com o Miguel é, sem dúvida, uma grande oportunidade para nos envolvermos visceralmente nesta missão.

#DiáriodeMiguel

04 de novembro de 2012

 

  1. Que sensações difíceis de colocar em palavras. E vc ainda colocou e ainda as passou pra mim. Mtoo legal esses relatos q vc começou a escrever, espero acompanhar outros tbm. Deus abençoe sua família sempre, Lissânder! Bjos

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