Ontem assisti um dos muitos vídeos com o temaMas Poxa Vida“. O autor é um jovem que tem feito muito sucesso na internet, porque faz comentários aleatórios aparentemente inteligentes sobre quase tudo. No vídeo que assisti, ele critica duramente a religião. Entre os adjetivos usados, nos chama de hipócritas, intolerantes e cerceadores da liberdade de pensamento. No meio evangélico, tenho acompanhado reflexões e vídeos de irmãos ou irmãs que também criticam duramente a religião. No nosso caso, eles preferem usar a expressão “igreja institucionalizada”. Uma igreja, segundo eles, pouco relevante e que mais parece uma piada.

Concordo com muitas destas críticas (apesar de achar que esse tal Mas Poxa Vida usa as mesmas palavras e categorias do discurso religioso para fundamentar o seu). Concordo com alguns irmãos e irmãs, reconhecendo que a “igreja institucionalizada” já abandonou muitos princípios essenciais da fé cristã, como o cristocentrismo, o arrependimento e a busca sincera e humilde pela santidade.

No entanto, me incomoda pensar que “tudo aí está errado”. Parece uma simplificação da crítica. Ao mesmo tempo, dá a impressão de que o ilustre crítico tem um conhecimento profundo do cenário evangélico e de suas nuances sociológicas e bíblicas. Soa ainda meio arrogante pensar que é possível criticar duramente a igreja, só que do lado de fora dela, sem se sentir obrigado a amá-la ou a caminhar com pessoas desta mesma igreja.

A leitura de Hebreus (especialmente do capítulo 3 ao 10) me surpreendeu. Jesus é descrito aqui como o Sumo-sacerdote que traz uma renovação para a religião judaica. Ele veste as roupas da religião, outrora duramente criticada por ele próprio, e revela o seu sentido transcendental. Ele assume uma figura religiosa e institucional. No entanto, ao fazer isso, Jesus redime a religião. De uma velha aliança surge uma nova (Hb 8). De uma vida reduzida a mandamentos e leis surge uma religião fundamentada em uma pacto do coração (Hb 9), que não abandona as leis, mas resgata seu sentido primeiro.

Jesus não joga fora as vestes da antiga religião. Pelo contrário, ele a concerta ao assumi-las e ao doar sua própria vida. Este Sumo-sacerdote é maior do que os nossos heróis religiosos (3.3), é eterno (7.24), é compassivo (4.15) e o único capaz de substituir as muletas efêmeras da religiosidade por uma transformação, de fato, definitiva, que liberta e salva (7.26-28).

Talvez tenhamos escolhido o caminho errado ao criticar a religião ou a igreja evangélica institucionalizada. Ao invés de jogá-la fora, o melhor seria concertá-la a partir do mesmo amor e zelo que Jesus teve. O pastor Eugene Peterson diz que a religião ou a igreja tem a mesma função que a casca de uma árvore. Por fora é feia. No entanto, seu papel de proteger o caule é muito importante. A religião redimida tem a função de proteger o que tem de mais precioso no caule. O que vemos (ritos, leis, arquitetura, etc) deve preservar e resgatar o que não vemos (histórias de fé, transformações de coração, amor compartilhado).

Igreja: concertar ou jogar fora? Minha resposta é: participar humilde e confiadamente da redenção da religião que Jesus Cristo já iniciou há muito tempo.

Notas:

1. Aqui uso o verbo concertar e não consertar. Isso porque quero propor a ação de “ajustar, reconciliar-se” e não de “repor uma situação ou um estado anterior” e “resolver uma situação e um problema”. (Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Esta observação foi inserida posteriormente.

2. Em vermelho alterações feitas no texto original.

  1. Concordo com sua proposição no final. Penso que a única maneira de resgatarmos a tal “igreja institucionalizada” é continuarmos participando dela, fazendo a diferença dentro dela. Para isso, precisamos de humildade e esperança, paciência e perseverança, confiados que “… Aquele que começou a boa obra há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”.

  2. (Leia meu comentário imaginando uma piada Stand Up) É claro que incomoda pensar que “tudo aí está errado”. Imagina um Pastor/Padre dizendo: “ó fiéis, nem tudo aqui na Bíblia está errado, é por isso que a gente usa ela”. Hahahaha.

    A religião trabalha com a verdade, e é aí que está o motivo das críticas. A questão não é dizer que tudo na religião está errado, mas sim que nem tudo nela está certo. Mas isso é incompatível com a religião. Um cristão pode duvidar que Deus exista, sem achar que está lhe faltando fé?

    • Meu caro,
      Me diga: quem não trabalha com a verdade? Qual a bandeira da ciência, por exemplo? E se você não trabalha com a verdade, o que te sustenta em pé? E se você não está em pé, você está dormindo ou está morto?
      Uma coisa é defender a verdade e acreditar que ela existe; outra é sentir-se dono dela. Não adianta misturar as coisas para ter argumentos.
      Aliás, o Cristianismo não prega que possuímos a verdade, mas que ela nos possui. A verdade é Jesus Cristo.
      Grande abraço!

  3. Todos nós queremos uma igreja santa e pura, comprometida com a mensagem do Senhor Jesus. Mas, como ter uma igreja assim, se ela é formada por homens e mulheres pecadores? Uma coisa é o que a igreja deve ser, outra coisa é o que ela realmente é. Logicamente não devemos nos conformar com o que ela está sendo, e sim, procurar fazer com que ela seja a igreja santa e pura que faça diferença no mundo. Por outro lado, o que mais causa estranheza, é que os maiores críticos da igreja, conhecendo as suas falhas, pouco ou quase nada estão contribuindo para que ela cumpra a sua missão com integridade.

    • Caro Adauto,
      Há muitos líderes fazendo muita coisa boa pela igreja. Conheço vários deles, e me orgulho pelo privilégio de ouvir suas exortações.
      Mas infelizmente há muita gente tentando justificar seu papel de crítico. Ainda outros tentam encontrar boas razões para continuar em cima do muro (sendo crente, mas sem igreja). Claro, é mais fácil.
      A igreja está em construção, porque nós estamos em construção.
      Abraço!

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