Por Sara Gusella

Todo ano quando chega a páscoa eu tenho a sensação de que poderia ter feito mais, me preparado melhor para essa data tão importante no calendário litúrgico da igreja e no coração da humanidade. De certa forma, a páscoa sempre me pegou desprevenida. Eu, tão ocupada e absorvida pelos meus compromissos e ansiedades, sou pega de surpresa por aquilo que deveria ser um tempo intencional de reflexão e maravilhamento, mas que se torna apenas um rápido sermão no domingo. Pronto, a páscoa passou. Cristo continua sentado à direita do Pai, ressuscitado e glorificado, mas meu coração perde tanto por não conhecê-lo mais. O mesmo coração pelo qual ele morreu para redimir, o conhece como vislumbres de uma verdade, talvez experimentada mais intensamente anos atrás, mas que ofuscada pelo tempo, que tornou o sobrenatural em comum.

A cruz, que deveria ser a principal protagonista, o farol que a tudo ilumina, se torna o pano de fundo em nossas vidas, presente, porém lá atrás, sob a encosta e se misturando ao pôr do Sol. 

Páscoa em hebraico significa ‘passagem’, ligada à travessia dos israelitas pelo mar vermelho. Celebrar a páscoa e crer na morte e ressurreição de cristo é abrir um caminho para que ele passe em nossas vidas. E por onde Cristo passa, nada permanece o mesmo. Não podemos passar o sangue do cordeiro em nossas portas, mas mantê-las fechadas. Querer apenas sua salvação e não sua transformação. Querermos nascer novamente sem passar pelo processo de morte. Aceitar a Cristo, não só no momento de nossa conversão, mas diariamente, é abrir a porta, todas as portas, de todos os cômodos de nosso coração, e deixar que seu espírito de justiça e verdade passe por cada uma delas, julgando a cada um de nossos ídolos e matando tudo aquilo que tem nos matado.

É aceitar que, com sua morte, morremos com ele, e juntamente conosco, tudo aquilo que nos afasta dele.

Se esta páscoa te pegou desprevenido, como uma querida, porém inesperada intrusa em sua agenda cheia e corrida, não se preocupe com os livros que não leu, nem com as preparações da liturgia que talvez não cumpriu, mas alinhe seu coração e se lembre que a morte de Cristo significa a sua e que nada nunca poderá ser mais importante do que aquele que, pelo seu sangue, te deu a vida.

“Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões,

foi esmagado por causa de nossas iniquidades;

o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” 

Isaías 53:5

  • Sara Gusella serviu como missionária na Inglaterra por dois anos e hoje mora em Belo Horizonte, onde congrega na Igreja etodista. Com 22 anos, ela é escritora e roteirista, ganhou seu primeiro festival de roteiro em 2020 e publicou seu primeiro romance em 2021, Uma fantasia cristã.

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