O maná de amanhã
Que beleza há num estilo de vida no qual não sobra espaço para depender de Deus?
Por Susan Chou
Recentemente estive pensando muito sobre a necessidade que temos de garantias. Todas as possibilidades de problemas futuros precisam estar cobertos pelo “eu” do presente para que eu, enfim, possa me sentir segura. É a sociedade do seguro saúde, seguro de vida, até o carro tem que estar seguro. Todas as brechas precisam estar tapadas por mim, em uma ilusão ansiogênica de controle total. E parece que sempre foi assim. Quando em Êxodo 16 Deus manda o maná, comida enviada dos céus para o povo no deserto, ele alerta para que o povo pegasse apenas o necessário para o dia, porque no dia seguinte, ele mandaria de novo. Obviamente, essa lógica de segurança fez com que alguns pegassem a mais, tentando garantir seu sustento do dia seguinte e, mostrando assim, confiança apenas neles mesmos, no seu trabalho e precaução. Quando leio esse trecho, fico bastante irritada, pela raiva que surge desse povo incrédulo… e pela profunda identificação que tenho com eles.
Parece que adquirimos um estilo de vida no qual não sobra espaço para depender de Deus. Garantimo-nos, fazemos nossos planos A, B e C, acumulamos um estoque de maná apodrecido na nossa despensa, colocando toda a nossa confiança nele e no esforço que fazemos para coletá-lo, sempre muito a mais do que precisamos por dia. E deixamos Deus num lugar controlado, limitado à esfera de atividades de final de semana.
Mas penso que a proposta de Deus para lidarmos com o futuro desconhecido é bem diferente disso, e está atrelada à nossa própria identidade: pequenos seres formados do pó, com uma grande alma feita à imagem do Deus criador. Talvez a proposta seja entender que, pela descendência do pó, podemos controlar muito pouco da nossa vida, e aceitar isso pode nos liberar de muita ansiedade. Ao mesmo tempo, pela descendência de Deus, podemos substituir a ansiedade pela paz, porque ele promete cuidar, sustentar e prover o melhor para os seus filhos – e no fim, é a única garantia que de fato temos.
Minha volta recente a esse pensamento aconteceu por causa de um pedido que fiz para que Deus me mostrasse algum ministério que eu deveria participar, algum lugar que eu pudesse servi-lo com o que tenho hoje. Deus respondeu e me mostrou um ministério que eu não me sentia nem um pouco capaz de ajudar, meu maná apodrecido não cobre essa possibilidade. Foi nesse momento que eu percebi que a cada dia vai ter mais maná para coletar; o Senhor provê não apenas o básico para sobrevivermos, mas também habilidades, inteligência, tempo, tudo isso de que precisamos para fazer a sua obra. Diante de tudo, tenho meditado nestas perguntas: e se eu tiver de parar de construir minhas despensas abarrotadas (de maná para daqui a alguns anos) para começar a construir hoje coisas eternas? Estou disposta a caminhar sem minha própria garantia do futuro? Estou disposta a me aventurar em estradas desconhecidas, com a sensação de impotência, de fraqueza, de incapacidade, confiando apenas naquele que prometeu o maná?
Existe uma beleza leve em vidas cheias de espaços disponíveis para serem preenchidos por Deus, que cobre as possibilidades, causa grandes reviravoltas e também pequenas transformações diárias. E eu quero começar a viver essa beleza.
- Susan Chou é descendente de taiwaneses e nasceu e cresceu em São Paulo. É formada em arquitetura e urbanismo pela USP e trabalha como freelancer em projetos de ilustração e design. Hoje mora em Taichung, em Taiwan, com seu marido Paulo.
Saiba mais:
» Confiança paciente, Por Pierre Teilhard de Chardin
» O Cultivo da Vida Cristã – meditações em 1 João, Robert Liang Koo
