Quantas vezes não recusamos escutar quem toca em nossas feridas?

 

Por Timóteo Fassoni

Quando chamado para revelar o pecado de Davi, o profeta Natã tomou uma sábia decisão. Não começou com denúncia; antes, pela parábola do rico e do pobre, valeu-se do juízo do rei. Só então Natã apela à consciência de Davi: “este homem é você!”, gerando arrependimento.

O texto bíblico não nos deixa dúvida que a atitude de Davi e os seus meios para manter o pecado escondido foram desprezíveis. É de se imaginar que houve burburinho entre os súditos do palácio real, vendo a ignomínia do rei, que, desesperadamente, tenta escondê-la. Mas quando os homens se calam, a palavra de Deus se levanta para acusar.

Com o pecado revelado diante de Deus, Davi recobra a consciência. Sua vergonha havia levado à morte de Urias; e o seu adultério, à morte prematura da criança gerada. Se o pecado gerou a morte, o arrependimento trouxe um fruto de vida: Salomão, chamado Jedidias — isto é, amado de Iahweh.

Apesar da situação tão evidente, foi necessário um profeta se levantar para que o pecador caísse em si e tomasse consciência da falta e de suas consequências. Curioso é que Davi sabia o que fazia – doutra forma, não tentaria ocultar –, mas a sua consciência estava suspensa, como se não reconhecesse aquilo como pecado. Ao ouvir a parábola, é firme com o homem rico, mas permanece indulgente consigo; é somente quando Natã dá nome aos personagens que a consciência retorna ao seu lugar: sou eu, um pecador, réu de morte!

Em nossa vida, agimos como Davi. Somos duros com outros, mas autoindulgentes conosco; por vezes sabemos que incorremos em pecado, mas logo agimos para o encobrir, por outras vezes, praticamos maldades sem mesmo perceber. Que gracioso seria para nós se, ao agirmos mal, tivéssemos um Natã que apelasse à nossa consciência cristã e trouxesse arrependimento…

Mas, pensando melhor, é claro que temos profetas enviados em nossa vida. Quantas vezes não recusamos escutar quem toca em nossas feridas? Ainda mais quem nos diz: saia disto, largue aquilo, se afaste, recobre o juízo, levante-se. Vaidosos como Davi, somos severos com pecados de outros, mas nos tornamos os mais indulgentes com aqueles que parecem ter morada em nosso coração. Pode ser a lascívia, a indecência, a preguiça, a crítica desmedida, a insatisfação, a avareza, a gula, a soberba. Cercamos os pecados em nosso coração, protegendo-os, mas é quando os depuramos na luz de Cristo que encontramos vida; certamente, a todos eles, Deus concede cura, perdão e solução. Por mais doloroso que seja – Davi enfrentou a morte de um filho! –, é ouvindo nossos natãs que conservamos o dom da vida que Deus concede.

 

Imagem: Natã repreende Davi. Desenho de Rembrandt van Rijn, 1650–1655.

 

Leia mais:
>>A restauração de Davi, por Elben César
>> O Discípulo Radical – Estudos Bíblicos: Estudo Bíblicos Ultimato, John Stott com Reinaldo Percinoto Jr.
>>O Caminho do Coração – Meditações diárias, Ricardo Barbosa de Sousa
  1. Welinton pereira da silva

    Muito boa sua reflexão Timóteo! Natan foi corajoso ao confrontar o rei Davi, todo poderoso em sua época. Que Deus levante Natans para nos exortar hoje e que sejamos sensíveis pra ouvir . obrigado!

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