Opinião
- 04 de julho de 2016
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Nossas igrejas são parecidas?
Hoje, 4 de julho, é uma das datas mais importantes para os norte-americanos: dia da Independência do país. E o que isso tem a ver com o Brasil? No aspecto religioso, os EUA tiveram um papel importante na formação da igreja brasileira, porque nosso país recebeu (e ainda recebe) missionários norte-americanos e porque não é raro ver líderes brasileiros saírem para estudar lá.
Uma pergunta que pode ser feita é: Que semelhanças e diferenças há hoje entre o Cristianismo norte-americano e o brasileiro? Para iniciar a reflexão, ouvimos três pessoas: um missionário norte-americano que mora no Brasil há mais de 15 anos, uma missionária brasileira que trabalhou por quase 30 anos na América do Norte e outra missionária brasileira e jornalista, casada com um norte-americano. Confira.
***
Como dividimos as igrejas?
Por James Gilbert
Antes de tudo, eu gostaria de lembrar que tanto o Brasil (5º) quanto os EUA (3º) são países muito grandes, com muitas regiões diferentes, e até há "subculturas".
Uma das principais diferenças que vejo é na divisão das igrejas protestantes em cada país. Nos EUA, a separação da igreja em “liberal” e “fundamentalista” afetou todas as principais denominações, a maioria dos seminários e continua a ser um ponto de tensão e luta. Suspeitas, medos, estereótipos estão envolvidos em ambos os lados. Esta divisão também está presente aqui no Brasil, mas com menos força, pelo menos até agora. No Brasil, parece que a principal divisão tem sido entre as “igrejas pentecostais” e “igrejas históricas”. Esta divisão tem continuado com as “neopentecostais”. Acho que todas as grandes denominações sofreram alguma divisão aqui no Brasil, por causa de suspeitas, medos e os estereótipos. Nos EUA também houve alguma tensão e divisões, mas não era tão generalizado, não tão forte.
Outra diferença que tenho notado é que quando os brasileiros oram, mais do que os norte-americanos, eles pedem a Deus para abençoá-los. Acho que os norte-americanos, quando oram, pedem mais compreensão do que benção.
Uma diferença óbvia é a riqueza das igrejas protestantes em cada país. O que talvez torne isso interessante é que, atualmente, o Brasil está enviando mais missionários para o exterior do que os americanos. Os americanos podem enviar mais dinheiro na forma de doações no exterior, mas o Brasil está enviando mais cristãos. As igrejas protestantes brasileiras também estão crescendo em taxas muito altas, enquanto as principais igrejas protestantes norte-americanas, em geral, ou têm diminuído ou não crescem. Poucas crescem.
• James Gilbert é missionário norte-americano, casado com a brasileira Elsie Gilbert, com quem tem quatro filhos. É fotógrafo e trabalha com projetos de apoio a agentes cristãos que cuidam de crianças em vulnerabilidade social. Mora há 15 anos no Brasil.
**
A igreja norte-americana é mais madura
Por Neiva Garcia
Essa é uma pergunta bem ampla, possivelmente vai ter respostas diferentes dependendo da denominação, da região de cada um dos dois países, e ainda de outros fatores. Mas então aqui vai uma resposta breve.
À primeira vista, acho que as semelhanças podem ser:
1. Acho que o Cristianismo brasileiro está hoje, considerando seu ciclo institucional, onde o Cristianismo norte-americano esteve há uns 20 anos.
2. As igrejas dos EUA e do Brasil amam o Senhor Jesus e têm vários grupos sérios na sua busca por um Cristianismo real de compaixão verdadeira.
3. Parece que as duas igrejas se importam com o pobre e têm mostrado interesse em servir mais a comunidades carentes.
4. Ambos são alvos fortes de entrada de refugiados (ou diaspóricos em geral). São lugares para onde o estrangeiro pobre e sofredor pretende ir na esperança de ter uma vida melhor.
5. Ambos têm potenciais para a evangelização do mundo.
6. Ambos têm áreas rurais e urbanas de certa forma semelhantes na busca pelo evangelho contextualizado.
Quanto às diferenças:
1. A igreja norte-americana já está mais madura. Ela já passou da fase inicial de descobertas, de “oba-oba”. A igreja no Brasil parece ainda estar nessa fase adolescente.
2. O Brasil tem um medo exagerado de um ecumenismo, principalmente do Catolicismo. Os norte-americanos já superaram isso, beneficiando-se assim de algumas coisas boas nos relacionamentos saudáveis para propósitos específicos, principalmente para o desenvolvimento comunitário.
3. A igreja norte-americana investe muito mais em outros países, ela contribui mais com os seus missionários. O Brasil ainda está engatinhando no serviço às missões mundiais.
4. O Cristianismo norte-americano se compromete e investe bastante no trabalho com os diaspóricos e tem criado ideias para alcançá-los sem ferir a dignidade individual e coletiva de cada grupo. O Brasil ainda não tem ideia do que pode ser feito neste sentido.
5. A igreja norte-americana tem sido mais criativa e mais intencional na evangelização do mundo. O Brasil ainda está engatinhando nesse alvo.
6. A igreja norte-americana vê e usa diferenças como investimento para o Reino. O Brasil é bem mais crítico e tenta tirar proveito para si mesmo das diferenças encontradas, buscando mais o seu próprio interesse local.
• Neiva Garcia, missionária brasileira, morou por 29 anos na América do Norte, incluindo Estados Unidos e Canadá. Nos Estados Unidos, ela estudou no Fuller Theological Seminary e trabalhou como Diretora Executiva do Hollywood Urban Project e deu consultorias em vários países na área de Missão Urbana da Igreja Local e Desenvolvimento Comunitário. No Canadá, ela fez um mestrado do Prairie Graduate School, e depois foi professora de Missões e Teologia no Prairie Bible College. Atualmente, Neiva é deã e professora do CEM (Centro Evangélico de Missões), em Viçosa (MG).
**
A diferença é cultural, não teológica
Por Elsie Gilbert
Para mim a grande diferença, na verdade, é cultural e não teológica. Praticamente todos os movimentos do cristianismo contemporâneo encontram eco tanto nos Estados Unidos como no Brasil: movimento missionário, pentecostalismo, neopentecostalismo, mega-igrejas, teologia da prosperidade, etc. Para pensar em diferenças, teríamos então que comparar maçãs com maçãs, ou seja, uma mega igreja norte-americana com uma brasileira, igrejas históricas de lá com igrejas históricas daqui. E quando faço isto, não vejo muita diferença!
Eu ficaria então com duas características culturais que fazem diferença na forma de ser das igrejas lá e cá:
(1) O brasileiro é mais família e mais comunitário. É comum nas igrejas norte-americanas uma estratificação maior. Os programas lá precisam atender a necessidades específicas de uma faixa etária, um segmento, um grupo. Então, é possível estar numa mesma igreja com a sua família, mas não participar das mesmas atividades, por exemplo. Crianças para um lado, adolescentes para outro, pais para outro. Só se encontram no final, na saída.
(2) O outro lado da moeda é que os norte-americanos se mobilizam muito mais facilmente para atender a uma demanda específica porque acreditam que agir é algo fundamental, imperativo. Faz parte da obediência ao grande mandamento: amar ao próximo. É mais fácil encontrar nas igrejas norte-americanas um grupo que pensou e tem uma resposta prática para um problema específico (crianças com autismo, problemas com vícios e compulsões, atenção a pessoas que não podem se locomover...). O povo de lá pensa assim: se tem um problema, vamos achar uma solução. O nosso povo aqui pensa: se tem um problema, vamos conversar, abraçar, acolher.
• Elsie Gilbert é missionária brasileira, filha de missionários brasileiros. Formou-se em comunicação social e fez mestrado nos Estados Unidos. Casou-se com o norte-americano James Gilbert, com quem tem quatro filhos. É bem envolvida com iniciativas de apoio ao trabalho dos agentes cristãos que cuidam de crianças em vulnerabilidade social. É responsável pela comunicação da Rede Mãos Dadas.
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E você, o que acha? Responda também:
Que semelhanças e diferenças há hoje entre o Cristianismo norte-americano e o brasileiro?
Foto: George Bosela/Freeimages.com
Uma pergunta que pode ser feita é: Que semelhanças e diferenças há hoje entre o Cristianismo norte-americano e o brasileiro? Para iniciar a reflexão, ouvimos três pessoas: um missionário norte-americano que mora no Brasil há mais de 15 anos, uma missionária brasileira que trabalhou por quase 30 anos na América do Norte e outra missionária brasileira e jornalista, casada com um norte-americano. Confira.
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Como dividimos as igrejas?
Por James Gilbert
Antes de tudo, eu gostaria de lembrar que tanto o Brasil (5º) quanto os EUA (3º) são países muito grandes, com muitas regiões diferentes, e até há "subculturas".
Uma das principais diferenças que vejo é na divisão das igrejas protestantes em cada país. Nos EUA, a separação da igreja em “liberal” e “fundamentalista” afetou todas as principais denominações, a maioria dos seminários e continua a ser um ponto de tensão e luta. Suspeitas, medos, estereótipos estão envolvidos em ambos os lados. Esta divisão também está presente aqui no Brasil, mas com menos força, pelo menos até agora. No Brasil, parece que a principal divisão tem sido entre as “igrejas pentecostais” e “igrejas históricas”. Esta divisão tem continuado com as “neopentecostais”. Acho que todas as grandes denominações sofreram alguma divisão aqui no Brasil, por causa de suspeitas, medos e os estereótipos. Nos EUA também houve alguma tensão e divisões, mas não era tão generalizado, não tão forte.
Outra diferença que tenho notado é que quando os brasileiros oram, mais do que os norte-americanos, eles pedem a Deus para abençoá-los. Acho que os norte-americanos, quando oram, pedem mais compreensão do que benção.
Uma diferença óbvia é a riqueza das igrejas protestantes em cada país. O que talvez torne isso interessante é que, atualmente, o Brasil está enviando mais missionários para o exterior do que os americanos. Os americanos podem enviar mais dinheiro na forma de doações no exterior, mas o Brasil está enviando mais cristãos. As igrejas protestantes brasileiras também estão crescendo em taxas muito altas, enquanto as principais igrejas protestantes norte-americanas, em geral, ou têm diminuído ou não crescem. Poucas crescem.
• James Gilbert é missionário norte-americano, casado com a brasileira Elsie Gilbert, com quem tem quatro filhos. É fotógrafo e trabalha com projetos de apoio a agentes cristãos que cuidam de crianças em vulnerabilidade social. Mora há 15 anos no Brasil.
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A igreja norte-americana é mais madura
Por Neiva Garcia
Essa é uma pergunta bem ampla, possivelmente vai ter respostas diferentes dependendo da denominação, da região de cada um dos dois países, e ainda de outros fatores. Mas então aqui vai uma resposta breve.
À primeira vista, acho que as semelhanças podem ser:
1. Acho que o Cristianismo brasileiro está hoje, considerando seu ciclo institucional, onde o Cristianismo norte-americano esteve há uns 20 anos.
2. As igrejas dos EUA e do Brasil amam o Senhor Jesus e têm vários grupos sérios na sua busca por um Cristianismo real de compaixão verdadeira.
3. Parece que as duas igrejas se importam com o pobre e têm mostrado interesse em servir mais a comunidades carentes.
4. Ambos são alvos fortes de entrada de refugiados (ou diaspóricos em geral). São lugares para onde o estrangeiro pobre e sofredor pretende ir na esperança de ter uma vida melhor.
5. Ambos têm potenciais para a evangelização do mundo.
6. Ambos têm áreas rurais e urbanas de certa forma semelhantes na busca pelo evangelho contextualizado.
Quanto às diferenças:
1. A igreja norte-americana já está mais madura. Ela já passou da fase inicial de descobertas, de “oba-oba”. A igreja no Brasil parece ainda estar nessa fase adolescente.
2. O Brasil tem um medo exagerado de um ecumenismo, principalmente do Catolicismo. Os norte-americanos já superaram isso, beneficiando-se assim de algumas coisas boas nos relacionamentos saudáveis para propósitos específicos, principalmente para o desenvolvimento comunitário.
3. A igreja norte-americana investe muito mais em outros países, ela contribui mais com os seus missionários. O Brasil ainda está engatinhando no serviço às missões mundiais.
4. O Cristianismo norte-americano se compromete e investe bastante no trabalho com os diaspóricos e tem criado ideias para alcançá-los sem ferir a dignidade individual e coletiva de cada grupo. O Brasil ainda não tem ideia do que pode ser feito neste sentido.
5. A igreja norte-americana tem sido mais criativa e mais intencional na evangelização do mundo. O Brasil ainda está engatinhando nesse alvo.
6. A igreja norte-americana vê e usa diferenças como investimento para o Reino. O Brasil é bem mais crítico e tenta tirar proveito para si mesmo das diferenças encontradas, buscando mais o seu próprio interesse local.
• Neiva Garcia, missionária brasileira, morou por 29 anos na América do Norte, incluindo Estados Unidos e Canadá. Nos Estados Unidos, ela estudou no Fuller Theological Seminary e trabalhou como Diretora Executiva do Hollywood Urban Project e deu consultorias em vários países na área de Missão Urbana da Igreja Local e Desenvolvimento Comunitário. No Canadá, ela fez um mestrado do Prairie Graduate School, e depois foi professora de Missões e Teologia no Prairie Bible College. Atualmente, Neiva é deã e professora do CEM (Centro Evangélico de Missões), em Viçosa (MG).
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A diferença é cultural, não teológica
Por Elsie Gilbert
Para mim a grande diferença, na verdade, é cultural e não teológica. Praticamente todos os movimentos do cristianismo contemporâneo encontram eco tanto nos Estados Unidos como no Brasil: movimento missionário, pentecostalismo, neopentecostalismo, mega-igrejas, teologia da prosperidade, etc. Para pensar em diferenças, teríamos então que comparar maçãs com maçãs, ou seja, uma mega igreja norte-americana com uma brasileira, igrejas históricas de lá com igrejas históricas daqui. E quando faço isto, não vejo muita diferença!
Eu ficaria então com duas características culturais que fazem diferença na forma de ser das igrejas lá e cá:
(1) O brasileiro é mais família e mais comunitário. É comum nas igrejas norte-americanas uma estratificação maior. Os programas lá precisam atender a necessidades específicas de uma faixa etária, um segmento, um grupo. Então, é possível estar numa mesma igreja com a sua família, mas não participar das mesmas atividades, por exemplo. Crianças para um lado, adolescentes para outro, pais para outro. Só se encontram no final, na saída.
(2) O outro lado da moeda é que os norte-americanos se mobilizam muito mais facilmente para atender a uma demanda específica porque acreditam que agir é algo fundamental, imperativo. Faz parte da obediência ao grande mandamento: amar ao próximo. É mais fácil encontrar nas igrejas norte-americanas um grupo que pensou e tem uma resposta prática para um problema específico (crianças com autismo, problemas com vícios e compulsões, atenção a pessoas que não podem se locomover...). O povo de lá pensa assim: se tem um problema, vamos achar uma solução. O nosso povo aqui pensa: se tem um problema, vamos conversar, abraçar, acolher.
• Elsie Gilbert é missionária brasileira, filha de missionários brasileiros. Formou-se em comunicação social e fez mestrado nos Estados Unidos. Casou-se com o norte-americano James Gilbert, com quem tem quatro filhos. É bem envolvida com iniciativas de apoio ao trabalho dos agentes cristãos que cuidam de crianças em vulnerabilidade social. É responsável pela comunicação da Rede Mãos Dadas.
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E você, o que acha? Responda também:
Que semelhanças e diferenças há hoje entre o Cristianismo norte-americano e o brasileiro?
Foto: George Bosela/Freeimages.com
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