Um dos poemas mais tocantes da I Guerra Mundial foi escrito pelo poeta maior da língua portuguesa: Fernando Pessoa.

 

O Menino de Sua Mãe

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No plano abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto e arrefece.
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Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
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Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
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Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
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De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
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Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
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Fernando Pessoa, in ‘Antologia Poética’

Inesquecível também é a interpretação de Paulo Autran:

Há 100 terminava a I Guerra Mundial. Com ela foram enterrados para sempre muitos dos sonhos da modernidade. Ela também inaugura um século novo de guerras diferentes, profundamente marcadas pelo uso da tecnologia — o avião para bombardeios, os gases venenosos, máscaras para proteção, granadas de mão, canhões de longo alcance, tanques velozes e pesados, metralhadoras e o rádio como ferramenta de comunicação. Toda uma geração se perdeu durante a I Guerra Mundial — engenheiros, médicos, professores, advogados, agricultores, artesãos artistas e poetas. Sim, poetas.

Muitos poetas foram enviados para os campos de batalha na Itália e na França e na Alemanha. Entre eles, Rupert Brooke (1887-1915), Siegfried Sassoon (1886-1967), Isaac Rosenberg (1890-1918) e Wilfred Owen (1893-1918). Eles escreveram sobre suas experiências nas trincheiras, o ruído das bombas, o frio e a chuva, as noites iluminas pelos holofotes e sinalizadores, a saudade da família, os amores impossíveis, as noivas distantes, as lágrimas das mães.  Entre eles, toca-me mais agudamente os poemas de Wilfred Owen. Aqui estão dois poemas inesquecíveis: “Hino a uma juventude condenada” e “Dulce et decorum est”, na tradução de João Moura Jr.

 

HINO A UMA JUVENTUDE CONDENADA

 

Que dobre de finados aos que morrem qual gado?
– Apenas a monstruosa cólera dos canhões.
Apenas a gagueira dos fuzis disparados
Pode tartamudear rápidas orações.
Basta de escarnecê-los; basta de prece e sinos;
Nenhuma voz de luto que não seja o uníssono
Dos obuses gementes, dementes, mofinos;
E os clarins a chamá-los de condados tristonhos.

 

Que velas cumprirão o dever de despachá-los?
Nos olhos dos meninos, não nas mãos, será vista
A sacra e bruxuleante chama das despedidas.
A palidez das jovens lhes servirá de pálio;
Será guirlanda o afeto das almas resignadas
E cada anoitecer um baixar de persianas.

 

DULCE ET DECORUM EST

Íamos arqueados, velhos mendigos sob um saco,
Pernas bambas, tossindo como harpias, blasfemantes
Na lama, até aos clarões nossas costas voltarmos
E arrastarmo-nos para nosso pouso distante.
Alguns seguiam dormindo. Outros sem seus coturnos.
Seguiam com os pés em sangue, cansados, manquitolas,
Cegos e mesmo surdos ao ruído dos soturnos
5.9 a explodir às suas costas.

 

Gás! GÁS! Rapazes, rápido! De imediato uma azáfama
E máscaras são às pressas colocadas, bem a tempo;
Mas entre nós alguém grita e logo desanda
A debater-se como se houvera visgo ou incêndio…
Pude vê-lo através da embaçada viseira
E da espessa luz verde como a afogar-se em mar.

 

Em todos os meus sonhos, ante minha impotência,
Vagarosamente ele submerge a sufocar.

 

Se em sonhos embaçados também fosses capaz
De seguir a carroça em que foi colocado
E ver a contorcer-se os olhos do rapaz,
Brancos, e o rosto caído, como o de um pobre diabo,
Se pudesses ouvir, a cada sacudida,
Vir dos podres pulmões o sangue borbulhante
E obsceno como um câncer, amargo qual ferida
Sem cura numa língua sem culpa, nesse instante
Não dirias, minha amiga, com tão ardente fé
A crianças que desejam sorver da glória o gole
A vetusta mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

 

Encontre mais poemas neste site: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/nas-trincheiras/

Esta canção surgiu de uma conversa com Carlinhos Veiga, quando ainda estávamos em Tatuí  (SP), onde fazíamos um show. A inspiração vem do texto bíblico de João 12:1-11, quando uma jovem chamada Maria, irmã de Lázaro, pega um frasco de caro perfume e derrama sobre os pés de Jesus. A casa estava cheia e logo se ouviram comentários de reprovação da boca de Judas Iscariotes. É quando Jesus dá um basta e diz: “Deixe-a em paz!”.

 

Deixem a mulher em paz

(Gladir Cabral & Carlinhos Veiga)

 

Dizem que é na cozinha

O castelo encantado de toda mulher,

Onde ela reina sozinha, de prato e colher.

E que é de cama e de mesa,

De batom e beleza sua profissão.

Não tem ideia, não pensa e só tem coração.

 

|: Mas que conversa fiada e mais sem noção,

Pois a mulher é senhora da sua razão.

Deixa de conversa mole

Recolhe o desprezo e me faz um favor:

Presta atenção no recado do nosso Senhor.

 

“Deixem a mulher em paz!”

Ela sabe que tem seu direito,

Faz tudo com jeito e não fica pra trás.

 

“Deixem a mulher em paz!”

E quem sabe aprendemos com ela

Que a vida é mais bela se amamos bem mais. 😐

 

Chega! Chega!

Para de se complicar, que assim não dá.

Isso não se faz!

 

[Essa apresentação do vídeo foi gravada em Florianópolis (SC) no dia 27 de outubro de 2018.]

 

O romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é hoje um clássico da literatura moderna brasileira. Vinculado ao regionalismo, o livro foi publicado em 1938 e traz a história de uma família de retirantes nordestinos fugindo da seca em busca de um lugar onde possam viver. Os principais personagens são: Fabiano, o pai; Sinhá Vitória, a mãe; o menino mais velho; o menino mais novo; o papagaio; e a cachorrinha Baleia. Em 2018 a obra completa 80 anos de publicação e este texto pretende ser uma singela celebração.

O livro mostra como a inclemência da seca, a aridez da Caatinga e o abandono do governo se juntam para conspirar contra a vida de uma pequena família do interior do Brasil.

Desde o começo do romance fica evidente o embrutecimento das pessoas pelo modo como se tratam, pela dinâmica das relações que estabelecem, pela dificuldade na articulação da linguagem, pela aspereza dos sentimentos. Fabiano, por exemplo, “[e]ra bruto, não fora ensinado. […] Um cabra […] Bruto, sim senhor […] não sabia ler (um bruto, sim senhor)” (1986, p. 93).

Fabiano tem momentos excruciantes de sofrimento na tentativa de organizar o pensamento e articular uma fala que seja. Ele “[p]endia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco” (1986, p. 20).

Todavia, ainda que haja uma força violenta de desumanização agindo na história, um peso de embrutecimento e animalização, há também um ímpeto de resistência do humano que se revela nas personagens, em sua vida interior e em suas relações. A esperança de encontrar um lugar melhor é uma potência irresistível que impulsiona os retirantes a seguir adiante. O exercício contínuo da memória e dos laços de família.

Ironicamente, o maior sinal de resistência do humano é protagonizado pela cachorra Baleia, cuja sensibilidade, solidariedade e afetividade contrastam com a desumanização circundante. Ela é figura lembrada através de toda narrativa ao confirmar a humanidade das personagens humanas. Ela guarda traços humanizados e, em seu comovente circular pela casa e interagir com família, inspira traços humanizantes.

Baleia, cujo nome também é sugestivo, pois chama atenção para a falta de água do seu ambiente de vida, é sempre alvo de violência, pontapés, xingamentos, mas perdoa sempre, salva a família da fome ao trazer um preá para o jantar, é paciente, espera seu momento, sua parte da refeição, isto é, os ossos. Baleia tem sonhos, sonhos de cão. Sua vida e morte são heroicas em proporção.

Em tempos atuais de tantas formas de embrutecimento, Vidas Secas segue sendo um chamamento à consciência humana, à consciência ambiental e ao respeito pelos animais não humanos.

 

Gladir Cabral

 

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 56. ed. São Paulo: Record, 1986.

 

 

“Era uma vez uma cidade no coração da América, onde a vida toda parecia viver em harmonia com o ambiente ao seu redor”. Assim Rachel Carson começa seu livro Primavera Silenciosa, descrevendo o lugar, cheios de campos de trigo e pomares nas colinas, verdes florestas e árvores frondosas. Até que “uma doença estranha se espalhou pela área e tudo começou a mudar. Como se um feitiço fosse atirado sobre aquela comunidade: estranhas enfermidades dizimaram os bandos de galinhas; o gado e as ovelhas adoeceram e morreram”. Até os pássaros sumiram. Tudo o que havia era um estranho silêncio. Parece um conto, mas não é.

Há livros que marcam mudanças de paradigma na história da humanidade. Primavera Silenciosa é um deles. Publicado em 1962, alterou completamente o modo como as pessoas percebiam e entendiam a natureza, a ciência, o avanço tecnológico, sobretudo o uso de produtos químicos na agricultura, que naquela época estavam em ampla expansão nos Estados Unidos, e no mundo.

Rachel Carson foi cientista, bióloga da vida marinha, pesquisadora e trouxe à luz a compreensão de que a vida é muito mais complexa e frágil do que os que trabalhavam na indústria dos agrotóxicos admitiam. Sua obra é profética no sentido pleno da palavra, ao denunciar a destruição ambiental que estava começando a se revelar em sua época e cujos dias futuros apenas vieram a confirmar.

Em seu livro, Carson vai mostrando o impacto dos pesticidas no meio ambiente, matando aves, plantas, destruindo florestas, pessoas, rios, enfim, a vida em seu intricado equilíbrio. Ela evidencia, por meio de exemplos contundentes e dados baseados em pesquisas, a relação entre o extermínio de espécies de aves e animais, as enfermidades crescentes nas populações urbanas e o uso indiscriminado de agrotóxicos.

Ao fazê-lo, Rachel Carson expõe corajosamente a vinculação que há entre ciência e indústria de produtos químicos. Ela prova como interesses econômicos e políticos podem colocar em risco a vida das populações e todo o equilíbrio biológico. “Vivemos numa era dominada pela indústria, em que o direito de fazer dinheiro a qualquer custo dificilmente é confrontado”. Segundo ela, é preciso que a população se manifeste, proteste, que não aceite mais o anúncio de meias verdades.

Ao fim do livro, Rachel Carson aponta para as alternativas ao uso do agrotóxico, todas cientificamente comprovadas, utilizando as armas da própria natureza para equilibrar as forças e vencer ameaças às plantações. É preciso entender o complexo sistema em que vivemos, o tecido da vida, com a ajuda de entomologistas, patologistas, geneticistas, bioquímicos, ecologistas – um esforço científico multidisciplinar.

A obra obrigou o governo americano a rever sua agenda em relação aos pesticidas, fundou movimentos de sensibilização ecológica, inspirou ambientalistas, artistas, escritores, poetas, reverberou na população, foi lida e compreendida por leigos em relação à ciência e trouxe uma nova consciência ambiental.

Precisamos ser mais humildes no que se refere aos animais, e ao meio ambiente, e admitir nossa proximidade com os demais seres da natureza. Animais não são recursos, são criaturas como nós, irmanados no destino do nosso planeta. “A vida é um milagre além de nossa compreensão, e deveríamos reverenciá-la, mesmo quando somos obrigados a lutar contra ela… A humildade é a palavra de ordem; não há desculpas para preconceito científico aqui”.

 

Gladir Cabral

 

Ouça a canção “Primavera Silenciosa”:

Gosto de orar o Pai Nosso todos os dias. Cada vez que oro, aprendo algo novo, descubro uma dimensão até então não percebida na minha relação com Deus e com as pessoas. Seguem adiante algumas lições que tenho aprendido com a oração que Jesus nos ensinou.

1. Essa é uma oração da graça e não do mérito. Quem ora com Jesus aprende logo que não é por méritos próprios que o milagre da vida acontece, mas por amor que vem dEle, por um gesto de ternura sua, imerecidamente, gratuitamente. O pão é algo que Deus dá, e não algo que arrancamos de Sua mão ou do ventre da Terra. “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem” (Salmo 127.2).

2. O pão nosso aponta para o essencial, para o básico em nossa vida, não para o supérfluo, o que granjeamos em excesso. É o pão de cada dia. Chico Buarque traduz muito bem a beleza poética do “debulhar o trigo, recolher cada bago de trigo, forjar no trigo o milagre do pão e se fartar de pão”. Nessa perspectiva, arar a terra é “afagar a terra”, é amá-la por sua simplicidade dura e afável, úmida e humilde.

3. O pão é nosso, é comunitário, é experiência coletiva, portanto totalmente contrário à experiência do individualismo tão corrente em nossos dias. O “cada um por si e Deus por todos”. Se oro, aprendo que o pão é dádiva que se ganha junto com outras pessoas, para ser partilhado com outras pessoas, ao lado de outras pessoas.

4. O fato de Jesus colocar o pedido por pão em nossa oração indica que a dimensão material da vida é importante. A Igreja precisa lembrar que as condições objetivas, concretas da vida são importantes. Por muito tempo, a Igreja deu testemunho inverso perante a sociedade, valorizando o imaterial e desprezando o corporal. Jesus coloca o corpo em nossa oração. Violeta Parra, em sua obra prima, “Gracias a la Vida”, celebra a seu modo a manifestação da graça e a concretude da vida com todas as suas contradições.

5. Quando oro pelo pão de cada dia, oro pelos trabalhadores, por todos aqueles que participam do plantio, da semeadura, da colheita, do beneficiamento da farinha, do trigo, do pão. A oração do Pai Nosso é a oração pelos trabalhadores. Dá-nos o pão nosso quer dizer, que haja trabalho para todos, que haja a bênção do pão nas mesas, que haja emprego, que a vida econômica de nosso país seja abençoada, que haja justiça a ponto de todos (inclusive nós) termos o pão de cada dia.

6. Os antigos escravos norte-americanos e seus descendentes oravam e oram assim: “Senhor, obrigado porque hoje acordei deste lado da eternidade”. Ou então: “Obrigado porque acordei com a mente em perfeito estado”. Ou simplesmente: “Obrigado, Senhor, porque tem geleia no armário”. Orações simples que celebram a vida, o trabalho, a saúde no cotidiano.

7. A oração do Pai Nosso deixa manifestos os conflitos de nossa sociedade, que vão desembocar na produção e partilha do pão. Trabalho pode ser bênção e opressão, realização ou castigo, experiência de amor ou violência. O mesmo trabalho pode ter reconhecimento diverso, desigual, se o trabalhador for for uma mulher, ou um negro, ou um branco, ou um imigrante.

8. Finalmente, quem ora o Pai Nosso sabe que ser gente é viver em família, que Deus é pai, que as pessoas são irmãs, que não habitamos um universo hostil e que o isolamento não é uma necessidade, uma obrigação. Vivamos a experiência de ser família de Deus neste mundo pão, migalha, pó e poeira.

[o quadro é de Van Gogh: O trabalhador cortando o seu pão]

 

“Vim para sofrer as influências do tempo / E para afirmar o princípio eterno de onde vim”: a ressignificação do sagrado em Murilo Mendes

Por Edson Munck Junior*

A obra poética Tempo e eternidade, publicada por Murilo Mendes em 1935, pode ser lida como promotora de diálogo entre o modernismo e a tradição bíblico-cristã. O livro, elaborado em parceria com o poeta Jorge de Lima, tinha, em sua primeira edição, a epígrafe “restauremos a Poesia em Cristo”. Assim, a publicação pretendia efetivar esforços da intelectualidade católica brasileira com vistas à reelaboração da experiência e da significação do sagrado na primeira metade do século XX no país. A partir das reflexões críticas de José Guilherme Merquior, Laís Corrêa de Araújo, Octávio Paz, Mircea Eliade e outros teóricos, verificou-se como se deram esses esforços de associação entre a linguagem poética modernista e a linguagem religiosa cristã, refletindo-se sobre os efeitos dessa aproximação. Nesse sentido, sugere-se um exercício de leitura dos poemas murilianos presentes em Tempo e eternidade, abarcando três movimentos do livro, a saber: o mundo caído, o mundo em Cristo e o mundo vindouro. Desse modo, propõe-se que, mediante esta chave de leitura, compreenda-se o percurso da restauração poética proposto no mote original.

A dinâmica do contato da literatura com o sagrado é perceptível na poética de Murilo Mendes. Em Tempo e eternidade, especificamente, livro publicado em 1935, os 36 poemas murilianos estão em diálogo intenso com o universo mítico-religioso cristão, tornando-o atual mediante a aproximação deste com a linguagem literária modernista. Para Mircea Eliade, o mito está vinculado à noção de sagrado, já que lida com o aspecto sobrenatural, sobre-humano. A empreitada de ativação dos mitos, mediante a reencenação ou vocalização dos mesmos, promove a reintegração dos homens com aquele “tempo fabuloso” (ELIADE, 2010, p. 21), permitindo-lhes ser “contemporâneos” dos deuses, dos heróis e dos eventos que estes promoveram in illo tempore (ELIADE, 2010, p. 21). Reviver os mitos permite ao sujeito a saída “do tempo profano, cronológico, ingressando num tempo qualitativamente diferente, um tempo “sagrado”, ao mesmo tempo primordial e indefinidamente recuperável” (ELIADE, 2010, p. 21). Assim, ao colocar em contato a tradição religiosa cristã e a dicção modernista de sua linguagem, Murilo Mendes, em seu tempo, ativa o mito e esboça criativamente a língua do eterno, fazendo-a presente mediante sua poiésis.

José Guilherme Merquior sumariza os exercícios de religiosidade que o modernista executou em sua obra e, sobretudo, em Tempo e eternidade. Segundo o crítico literário, a religiosidade muriliana é marcada por uma condição de ambivalência tal que permite notar um eu lírico no qual se entrevê a condição de um “cristão dialético”, de um “religioso moderno”, evidenciando “uma concepção de vida sob o signo marcante do devir” (MERQUIOR, 1965, p. 55). Esse sujeito marcado pela redefinição constante de sua condição e de sua existência coloca em jogo um perfil interessante na lírica de Murilo Mendes. O traço em devir da religiosidade manifesta nos textos do poeta faz lembrar o que, em O arco e a lira, Octavio Paz escreve acerca do sagrado, dizendo que o sagrado é redefinidor do tempo e do espaço, afirmando “aqui e lá”, tornando os corpos “ubíquos”, dissolvendo os “limites do nosso pensar” (PAZ, 2012, p. 133).

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