A mulher que não se deu bem com médicos

E estava ali certa mulher que havia doze anos vinha sofrendo de uma hemorragia e gastara tudo o que tinha com os médicos; mas ninguém pudera curá-la. Ela chegou por trás dele, tocou na borda de seu manto, e imediatamente cessou sua hemorragia. (Lucas 8:43,44)

É costume chamarmos de incômodo o fluxo menstrual, que não dura mais de três ou quatro dias. Que nome se daria para o meu caso – uma menstruação quase sem intervalos, mês após mês, por longos doze anos?

Nasci sadia e cresci sadia. Tive minha menarca aos 13 anos. O fluxo de sangue vinha certinho, de vinte e oito em vinte e oito dias. Até que, aos 25 anos, comecei a ter problemas. A menstruação tornou-se prolongada e, mal acabava uma, vinha a outra. Eu já era casada e isso afetava muito o meu relacionamento com meu marido. Nunca me apresentava a ele em condições satisfatórias. Além disso, tínhamos por norma não nos envolvermos fisicamente durante a menstruação, de acordo com a lei de Moisés: “não te chegarás à mulher, para lhe descobrir a nudez, durante a sua menstruação”. Eu me considerava uma mulher imunda, constantemente imunda, à vista da mesma lei: “Também a mulher, quando mandar o fluxo do seu sangue, por muitos dias fora do tempo da sua menstruação, ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que o costumado, todos os dias do fluxo será imunda, como dos dias da sua menstruação”.

Além dos aspectos higiênicos e cerimoniais, minha saúde estava em frangalhos. Sentia uma fraqueza terrível. Fui emagrecendo, até chegar a menos de quarenta quilos. Jamais me olhava ao espelho, para não ver o rosto sem cor, sem sangue, assustadoramente pálido. Comecei a sofrer de uma anemia profunda. Fiquei desnutrida – meu organismo não dava conta de renovar o sangue perdido. Percebi a vizinhança da morte.

Nas mãos dos médicos

Eu não era displicente com o meu estado de saúde. Meu marido e eu gastamos tudo quanto possuíamos com médicos.

Lembro-me daquelas cinco juntas de bois que vendemos para um homem rico de Jerusalém. Com elas arávamos o campo que tínhamos à beira do caminho que desce de Jerusalém a Jericó, na altura do lugar onde dois ou três salteadores atacaram um conhecido nosso, deixando-o semimorto. Pouco tempo depois, vendemos a propriedade também, com o propósito de procurar um centro maior, onde talvez eu pudesse me curar da hemorragia, que já durava oito anos.

Estivemos em Atenas por quase um ano. Tratei-me com vários médicos. Espantaram-se de que eu ainda estivesse viva. Um deles releu todos os setenta tratados de medicina e pesquisa científica da lavra de Hipócrates, que há mais de quatrocentos anos exerceu a medicina em Atenas e outras cidades gregas. Disseram-me o óbvio: que o meu problema era hormonal, provocado, talvez, por um tumor no útero ou no ovário. A solução seria a extirpação desse tumor, o que “nós ainda não fazemos”, confessaram os médicos. Deram-me um pouco de ópio para combater a dor das cólicas menstruais, que frequentemente me assediavam, algumas ervas para tomar e uma dieta de fígado de boi para fazer frente à anemia.

Do desânimo ao milagre

A viagem de volta a Jerusalém foi muito difícil. Primeiro, devido ao meu estado de fraqueza e à canseira da viagem em si, parte a pé, parte no lombo de um animal e parte de navio. Segundo, por causa da frustração de ter perdido tempo, dinheiro e esperança em Atenas. Cheguei a Jerusalém quase morta. Gastamos tudo quanto possuíamos com os médicos e nada aproveitamos. Pelo contrário, fiquei pior. Só Deus sabe qual foi o meu desânimo e o meu estado de espírito naqueles dias. Eu não podia imaginar que estava bem perto da cura, do milagre, da bênção do Todo-Poderoso.

Em Jerusalém havia um homem estranho que se dizia tanto Filho de Deus, como filho do homem. Ele pregava, ensinava e realizava curas e milagres. Era bondoso, amável, compreensivo e, ao mesmo tempo, tremendamente franco e duro com as pessoas fingidas. O que se dizia a seu respeito cada vez mais se divulgava, e grandes multidões afluíam para ouvi-lo e serem curadas de suas enfermidades. O nome dele era Jesus.

Conversei com meu marido sobre essa nova e sólida esperança que despontava para mim. Então tomei a mais sábia e a mais feliz de todas as minhas decisões. Apesar de extremamente fraca, enfiei-me na multidão e fui me aproximando de Jesus. Ele estava indo para a casa do chefe da sinagoga, cuja filha, de 12 anos, estava à morte. Logo que ele passou, fui atrás e, dominada por uma fé sem reserva de que seria curada, toquei-lhe na orla da veste. Naquele exato momento, se me estancou a hemorragia, que tinha a mesma idade da filha de Jairo, o chefe da sinagoga.

Pensei que Jesus não me notaria. Aconteceu exatamente o contrário. Ele parou e perguntou solenemente: “Quem me tocou?” Ninguém respondeu. E Jesus insistiu: “Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder”. Não podendo mais me ocultar, me aproximei dele outra vez. Embora trêmula, prostrei-me diante dele e declarei, à vista de todo o povo, por que o havia tocado e como imediatamente o sangue deixou de escorrer. Então Jesus me disse: “Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz!”

Isso aconteceu há dez anos. Desde então, voltei a ter minhas menstruações regulares. Engordei, fiquei livre da anemia e deixei de ser uma mulher cerimonialmente imunda.

Texto originalmente publicado no livro Deixem Que Elas Mesmas Falem. Editora Ultimato.

Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mc 8.34)

Os seguidores de Jesus  

Seguidor é aquele que vai atrás de alguém ou de alguma ideia. O Apocalipse chama de “os seguidores do Cordeiro” a multidão de 144 mil pessoas “que tinham o nome dele e o nome do Pai dele escritos na testa delas” e que “seguem o Cordeiro aonde ele vai” (Ap 14.1-5, NTLH).

A vida cristã começa quando o pecador ouve o evangelho, sente algum interesse e se dispõe a seguir a Jesus. Porque o novo caminho é apertado e difícil e porque não é o caminho das multidões, nem todos os seguidores continuam. Nunca passou pela cabeça de Jesus facilitar a carreira cristã em benefício de um número maior de conversões. Ao contrário, certa ocasião ele virou-se para a multidão e os discípulos que estavam atrás dele e exclamou: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).

Em outra oportunidade, Jesus repetiu: “Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não merece ser meu seguidor” (Mt 10.37, NTLH).

A família de Jesus

A família de Jesus é enorme. Está espalhada no tempo e no espaço. Pode ser uma adolescente negra, um jovem germânico, uma mulher indígena, um idoso aborígene. Pode ser um ex-promíscuo, um ex-consumista, um ex-incrédulo, uma ex-prostituta, um ex-ladrão, um ex-pedófilo, um ex-corruptor de menores, um ex-traficante. Pode ser um sem-terra, um fazendeiro rico, alguém da classe mais alta, alguém da classe mais baixa, e assim por diante — contanto que cada um deles faça a vontade do Pai.

Foi o próprio Jesus quem definiu a questão. Mesmo estando na presença da mãe e dos meio-irmãos biológicos, ele apontou com as mãos para os discípulos e declarou em alto e bom som: “Eis minha mãe e meus irmãos”. E explicou por que: “Qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12.46-50).

Jesus não forçou nada ao fazer essa declaração surpreendente. Se a comida dele era fazer a vontade do Pai (Jo 4.34), todos que pensam e agem do mesmo modo são, pois, seus irmãos, irmãs e mães.

A igreja de Jesus  

A rigor, ninguém em lugar algum e em tempo algum pode usar o pronome possessivo minha para se referir à igreja. A igreja, em seu sentido místico, é de Jesus Cristo. As palavras ditas a Pedro devem ser sempre lembradas: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). É preciso diferenciar as igrejas locais (a igreja de Antioquia, a igreja de Cencreia, a igreja dos tessalonicenses, as igrejas na Galácia etc.) e as igrejas denominacionais (igreja católica, igreja reformada, igreja batista, igreja pentecostal etc.) da Igreja de Cristo ou Igreja de Deus (At 20.28; 1Co 15.9; 1Tm 3.15). Esta é a única que é o corpo místico de Cristo. Nela se congregam apenas pecadores arrependidos e perdoados, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Nas igrejas locais e denominacionais há uma mistura de joio e trigo, o que não acontece na Igreja de Cristo. Jesus é a pedra angular e o cabeça dessa Igreja, tanto da que reúne os vivos (igreja militante) como da que reúne os mortos (igreja triunfante).

Texto originalmente publicado na edição 324 de Ultimato.

Jesus não é apenas um homem bom que morreu há dois mil anos. Ele é um homem vivo, tão homem quanto você e ao mesmo tempo, tão Deus quanto era quando criou o mundo.

C. S. Lewis

© Marcelo PPanighel

Ou Jesus era e é o Filho de Deus, ou então um louco ou coisa pior. Você poderia prendê-lo num manicômio, cuspir na cara dele ou matá-lo como a um demônio; ou então, poderia cair a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus.

Jesus é o pioneiro da vida. Ele arrombou uma porta que esteve fechada desde a morte do primeiro ser humano. Ele encarou o rei da morte, lutou com ele e o derrotou. Tudo é diferente pelo fato de ele ter feito isso. Esse é o início da nova criação — um novo capítulo na história cósmica foi aberto.

Com Jesus, nós vamos passar das águas geladas e escuras para as águas azuis e quentes, e finalmente para fora, em direção à luz do sol e ao ar puro.

Jesus não é apenas um homem bom que morreu há dois mil anos. Ele é um homem vivo, tão homem quanto você e ao mesmo tempo, tão Deus quanto era quando criou o mundo.

Meu bem real está em outro mundo e meu único e verdadeiro tesouro é Cristo.

 

John Stott

Jesus é o Salvador sofredor e o Soberano majestoso. Nosso dever é nos colocarmos diante dele, com o rosto em terra.

Este é o encanto universal de Jesus — ele não se restringe a nenhuma etnia. Ele trouxe os pastores de seus campos e os magos do Oriente. Ele ainda age como um ímã. Atrai pessoas de todas as culturas. E isso é uma das mais convincentes evidências de que Jesus é o Salvador do mundo.

Os pecadores são as únicas pessoas que Jesus acolhe. Se não acolhesse, não haveria esperança para nós.

É maravilhoso pensar que Jesus, que é o nosso destino, é também o nosso predecessor, nosso acompanhante e a nossa senda.

Em Jesus, a cruz deixa de ser símbolo de uma forma de execução para ser símbolo do evangelho da salvação.

O símbolo do cristianismo poderia ser a manjedoura (para salientar a encarnação), a carpintaria (para salientar a dignidade do trabalho manual), ou a toalha (para salientar o serviço humilde). No entanto, esses símbolos foram ignorados em favor da cruz!

 

J. I. Packer

Na encarnação de Jesus, Deus se tornou homem. O Filho divino se tornou um judeu. O Todo-poderoso apareceu na terra como um bebê desamparado, incapaz de fazer mais do que ficar deitado, olhar em volta, mexer os braços e pernas e chorar; um bebê que precisava ser alimentado e trocado e aprender a falar como qualquer criança.

Pela vontade do Pai, Jesus Cristo se fez pobre e nasceu em um estábulo para, trinta anos depois, ser pendurado em uma cruz. Esta é a mensagem mais maravilhosa que o mundo já ouviu e ouvirá.

Jesus era o rabino que falava com autoridade, o profeta que era mais que um profeta, o mestre que despertava crescente temor e devoção em seus seguidores, que ele mesmo encontrou, chamou e comissionou.

 

N. T. Wright

Deus veio ao mundo através de Jesus justamente porque as coisas não andavam bem por aqui e precisavam ser endireitadas.

No Getsêmani, Jesus estava como em trabalho de parto, esperando unir o céu e a terra, como alguém tentando amarrar dois pedaços de corda com pessoas puxando-as de ambos os lados.

Pessoas de todas as raças, todos os contextos geográficos e culturais, todas as formas, tipos e tamanhos são chamadas e recebidas de braços abertos através da obra de Jesus. Precisamos da luz de Cristo para viver neste mundo tenebroso.

Texto originalmente publicado na edição 323 de Ultimato. Março-Abril 2010.

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» Seguir a Jesus – uma trilha guiada

 

Enquanto viveu aqui como Filho de Deus e como Filho do homem, Jesus nunca esteve sozinho, nem em seu nascimento, nem em seu ministério, tampouco na sua morte e ressurreição.

Ele estava cercado de anjos, desde o anúncio da concepção dado à Maria — “Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus” (Mt 1.23) — até o anúncio da ressurreição, dado às mulheres que foram ao túmulo para embalsamar o seu corpo — “Sei que vocês estão procurando Jesus que foi crucificado [mas] ele não está aqui; ressuscitou como havia dito” (Mt 28.5-6).

Ele estava cercado de pessoas prontas para servi-lo em qualquer circunstância: Maria emprestou-lhe o ventre, o colo e o seio; certo morador de um povoado próximo a Betfagé emprestou-lhe uma jumenta e o seu jumentinho para a entrada triunfal; outro proprietário emprestou-lhe uma grande sala mobiliada e arrumada em Jerusalém para ele comer a Páscoa com os discípulos; e mulheres da Galileia, curadas e perdoadas por ele, davam-lhe assistência com seus bens. Até as crianças o rodeavam e gritavam espontaneamente: “Viva o Filho de Davi!” (Mt 21.15, BV).

Jesus estava cercado de pecadores, considerados, na época, os piores de todos, como os publicanos e as prostitutas.

Pessoas de certo prestígio e de posses se aproximavam de Jesus e lhe prestavam algum benefício. Entre elas está Joana, mulher de Cuza, que era procurador de Herodes Antipas. Outros dois são Nicodemos e José de Arimateia, ambos ricos, conceituados e membros do Sinédrio. Inicialmente discípulos ocultos de Jesus, eles saíram corajosamente do armário quando solicitaram a Pilatos o corpo do Senhor e o desceram da cruz para embalsamá-lo e dar-lhe sepultura.

A natureza também esteve ao lado de Jesus. Na escuridão da noite em que ele nasceu, houve imensa claridade, porque a luz gloriosa do Senhor brilhou nos céus de Belém. Na claridade do dia em que ele morreu, houve densas trevas sobre a face da terra, porque “o sol parou de brilhar” do meio-dia às 3 horas da tarde. Para tornar aquela tarde ainda mais sinistra, a terra tremeu e as rochas se partiram.

É muito significativo que, depois de quase dois milênios, o nome de Jesus não caiu no esquecimento e suas palavras e milagres são continuamente lembrados em todo o mundo. Havia tanto assunto sobre Jesus que João temia que o mundo inteiro não seria suficiente para caber todos os livros a serem escritos (Jo 21.25). O fenômeno persiste até hoje: três dias antes do Natal de 2002, o “Jornal do Brasil” publicou um artigo de Deonísio da Silva, professor da Universidade de São Carlos, o qual mencionava que haviam sido publicados mais livros sobre Jesus entre o final do segundo milênio e o alvorecer do terceiro, do que em todos os séculos anteriores.

Porém, Jesus não é e nunca foi unanimidade. No correr do tempo, ele tem sido o centro da atenção de muitos e também o centro da repulsão para outros tantos. Todavia, quando se anuncia o evangelho com autoridade, coerência e convicção, muitos se convertem e fazem questão de se chamar “a turma de Jesus”!

Texto originalmente publicado na edição 324 de Ultimato.

Todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína.
(Mt 7.26, 27)

Três filhas e sete filhos de Jó estavam comendo e bebendo em casa do mais velho quando um forte vento do lado do deserto soprou nos quatro cantos da casa e a derrubou. Todas as dez pessoas morreram naquele dia (Jó 1.18, 19).

No tempo de Jesus, uma pequena torre, conhecida como a Torre de Siloé, desabou sobre dezoito pessoas e as matou (Lc 13.4, 5).

Das chamadas Sete Maravilhas do Mundo, quase todas ao redor do lado oriental do mar Mediterrâneo, apenas as Pirâmides do Egito continuam de pé. Os Jardins Suspensos da Babilônia, o Templo de Ártemis em Éfeso, a Estátua de Zeus em Olímpia, o Mausoléu de Hadicarnasso, o Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria já não existem. O Templo de Ártemis, que tinha 106 colunas de 12 metros de altura, foi incendiado e arrasado no ano 356 a.C., cerca de dois séculos depois de construído. O Farol de Alexandria, que foi concluído por Ptlomeu II (308-246 a.C.) e tinha 134 metros de altura, veio ao chão por causa de um terremoto. Igual sorte teve o Colosso de Rodes, uma estátua oca de bronze de 37 metros de altura, logo depois de terminado, no ano 224 a.C.

De todos os desabamentos, porém, o mais dramático certamente é o das torres do World Trade Center, em Nova York, ocorrido no dia 11 de setembro de 2001. As duas torres maiores eram quase 12 vezes mais altas que o Colosso de Rodes e tinham 110 andares cada uma. O desabamento provocou a morte de mais de 3.600 americanos e mais de 2.700 estrangeiros de pelo menos sessenta países. Deixou 1,2 milhão de toneladas de entulho e milhares de pedaços de corpos humanos.

Muito provavelmente, Jesus teria aproveitado a comoção provocada pela morte das dezoito pessoas soterradas pelos escombros da Torre de Siloé para falar sobre outro tipo de desabamento. No final do Sermão do Monte, Ele declarou: “Todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína” (Mt 7.26, 27).

Texto originalmente publicado na edição 273 de Ultimato.

1500 (22 de abril) — A armada portuguesa de dez naus e três caravelas, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, de 33 anos, chega ao Brasil.

1500 (26 de abril) — Dom Henrique Soares de Coimbra celebra a primeira cerimônia cristã em solo brasileiro. No dia seguinte, à noite, João Faras, o astrônomo da armada, chama de Cruzeiro do Sul a constelação cujas principais estrelas formam o desenho de uma cruz.

1500 (1º de maio) — Para comemorar a Paixão de Jesus Cristo, frei Henrique celebra a segunda missa, com a presença de mais de mil portugueses e cerca de 150 nativos.

1517 (31 de outubro) — Martinho Lutero, com a idade de 34 anos, dá início oficial à Reforma Religiosa do Século XVI, depois de dois séculos de continuada decadência da religião. A Europa pega fogo.

1538 — Começam a chegar ao Brasil os primeiros escravos africanos.

1540 — É iniciada a Contrarreforma, com a fundação da Companhia de Jesus, tendo à frente o basco Inácio de Loyola, então com 51 anos. As duas reformas alteram profundamente o clima religioso da Europa.

1549 (29 de março) — Desembarcam na Bahia os seis primeiros missionários jesuítas, na companhia de mais de mil pessoas, entre soldados, funcionários públicos, colonos, artesãos e cerca de 400 degredados. Com eles vêm o primeiro governador do Brasil (Tomé de Sousa) e o padre Manoel da Nóbrega.

1557 (10 de março) — Realiza-se na ilha de Serijipe, na Baía de Guanabara, o primeiro culto reformado abaixo da linha do Equador. O pastor calvinista Pierre Richier, de 50 anos, prega em francês sobre o verso 4 do Salmo 27: “Je demande à l’Eternel et une chose, que je désire ardenment: je vondrais habiter toute ma vie dans la maison de l’Eternel, pour contempler la magnificence de l’Eternel et pour admirer son temple”. Onze dias depois, é organizada a primeira igreja evangélica do Brasil e da América do Sul, e celebrada, pela primeira vez, a Santa Ceia.

1558 (9 de fevereiro) — Nicolau Durant de Villegaignon, de 48 anos, manda estrangular e lançar ao mar na Baía de Guanabara três signatários da primeira confissão de fé reformada da América, conhecida como Confissão Fluminense. Um dos dezessete artigos diz: “Cremos que Jesus Cristo é o nosso único Mediador, Intercessor e Advogado, pelo qual temos acesso ao Pai, e que, justificados no seu sangue, seremos livres da morte, e, por Ele já reconciliados, teremos plena vitória sobre a morte”.

1597 (9 de julho) — Morre, aos 63 anos, na cidade hoje denominada Anchieta, no Estado do Espírito Santo, o missionário jesuíta José de Anchieta, conhecido como “o apóstolo do Brasil”. Seu corpo foi carregado até Vitória por seus fiéis, quase todos indígenas. Anchieta viveu 44 anos no Brasil.

1630 (15 de fevereiro) — Tropas holandesas ocupam Pernambuco e criam no Nordeste brasileiro a Nova Holanda. São 67 navios, 3.700 tripulantes, 3.500 soldados e 1.170 canhões.

1645 (16 de junho) — Um ano depois da partida do governador João Maurício de Nassau para a Europa, soldados holandeses e índios potiguares matam o padre André de Soveral e outros setenta fiéis durante a celebração da missa dominical na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, no Rio Grande do Norte.

1654 (26 de janeiro) — Termina a invasão holandesa. Neste período de 24 anos foram organizadas 22 igrejas reformadas no Nordeste. Essas igrejas e demais ministérios paralelos foram servidos por 54 pastores, 120 presbíteros e igual número de diáconos e mais de 100 consoladores e mestres-escolas.

1804 (7 de março) — É organizada, em Londres, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, a primeira organização interdenominacional com o objetivo de distribuir a Bíblia no mundo inteiro.

1809 — A Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira começa a editar a Bíblia em português na versão de João Ferreira de Almeida, morto em 1691. É a primeira Bíblia em português e a 32ª versão integral das Escrituras nas línguas modernas. O público primeiramente visado são os refugiados portugueses que foram para a Inglaterra, quando Napoleão invadiu e ocupou Portugal, dois anos atrás.

1810 (19 de fevereiro) — Assina-se o Tratado de Comércio e Navegação entre Portugal e Inglaterra, segundo o qual o governo de Portugal se obriga a que “os vassalos de Sua Majestade Britânica residentes em seus territórios e domínios [inclusive o Brasil] não serão perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa da sua religião, mas antes terão perfeita liberdade de consciência e licença para assistirem e celebrarem o serviço divino em honra do Todo-Poderoso Deus, quer seja dentro de suas casas particulares, quer na suas particulares igrejas e capelas…” Todavia, essas igrejas e capelas têm de ser construídas de tal modo que externamente se assemelhem a casas de habitação, não podendo também ter sinos.

1822 (26 de maio) — Sob protestos do núncio papal Lourenço Coleppi, inaugura-se no Rio de Janeiro o primeiro templo protestante em solo brasileiro, sem aparência externa de templo, como reza o Tratado de Comércio e Navegação. Para impedir qualquer tumulto e por ordem de José Bonifácio de Andrade e Silva, Secretário de Estado dos Negócios do Reino e dos Negócios Estrangeiros, a polícia está de prontidão em volta da Capela Anglicana, na rua dos Barbonos (hoje Evaristo da Veiga).

1822 (7 de setembro) — Em viagem a São Paulo, o príncipe regente Dom Pedro, ao tomar conhecimento das pressões de Portugal, resolve proclamar ali mesmo a Independência do Brasil. Menos de dois meses depois, será aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Ele tem, então, 24 anos.

Artigo originalmente publicado na edição 264 de Ultimato.