Por Luke Greenwood

Deus “amassou” o sonho dele de ser uma estrela do rock e o levou a servir café para prostitutas no centro de Curitiba. Hoje, ele viaja por vários lugares do mundo pregando o evangelho com uma banda de rock.

Com 15 anos, é claro que eu tinha uma banda. Meus pais missionários eram bem “mente aberta”, então meu cabelo era longo até a cintura, minhas roupas eram pretas e o meu quarto era uma sala de ensaio. Eu tinha grandes sonhos: seríamos “estrelas do rock” para Jesus. Seríamos muito famosos e, por meio da fama, iríamos falar de Jesus. E como morávamos no interior, e um tanto desconectados, acreditávamos que éramos a primeira banda de metal progressivo cristão do mundo! Desenvolvi uma técnica de tocar bateria e rodar o meu cabelo em círculos ao mesmo tempo.

Em 2001, fui estudar numa faculdade em Curitiba, e descobri que outras pessoas já haviam pensado no que eu sonhava. Juntei-me a um grupo de jovens que estavam plantando uma igreja para alcançar jovens alternativos na cidade. Na nossa igreja tinha mais bandas do que gente! Mas Deus havia colocado um sonho em meu coração, apesar das minhas próprias ideias humanas, e essa visão continuou a crescer forte. Eu queria ver meus amigos e muitos outros jovens, que nunca entrariam numa igreja, ver que Jesus é real. Eu queria encontrar novas maneiras de comunicar a verdade e a realidade de Jesus para a minha geração, de forma que poderiam entender, para que eles tivessem o mesmo privilégio que eu tinha de conhecer a Deus.

Aos 12 anos, eu havia sido batizado e perguntado a Deus o que ele queria que eu fizesse com minha vida. Naquele dia eu já havia a convicção de que eu deveria servir em missões. Como eu conhecia o mundo missionário através dos meus pais, comecei a pensar: “precisamos de uma organização missionária pra alcançar essa galera!”. Então minha mente ambiciosa começou a trabalhar num novo plano de vida: fundar a primeira organização missionária para alcançar a cultura jovem fora da igreja.

Comecei a orar, pedindo que Deus me levasse a conhecer outras pessoas e ministérios que compartilhassem dessa visão em outras partes do mundo. Na mesma semana que comecei a orar. Aí apareceram duas meninas da Alemanha na nossa igreja. Elas me contaram de uma banda de missionários de várias partes do mundo que estavam fazendo shows em São Paulo. “Eles são malucos e tem um show muito doido que fala sobre Jesus”. Não pensei duas vezes, peguei o primeiro ônibus para São Paulo com um endereço anotado num papel.

Nessa época, eu estava com 17 anos, e eu não conhecia nada em São Paulo. Eu achei que “Arujá” era um bairro! Chegando à caótica rodoviária do Tietê, saí perguntando como chegar no tal endereço. Logo fui informado que Arujá é outra cidade e que eu tinha que pegar outro ônibus. Acabei chegando no pequeno centro de Arujá já quase meia-noite, e ninguém na rua. Consegui pegar o último ônibus local com um motorista que me deixou numa estrada de terra, no meio do nada, dizendo que o lugar que eu queria chegar era descendo a estrada. Na escuridão completa, andando numa estrada de terra no meio do nada, as minhas orações ficaram mais fervorosas. “Deus, eu não quero dormir no mato!”. Eu não sabia exatamente o que estava fazendo, mas eu sabia no fundo do meu coração que Deus estava me guiando e que minha parte era simplesmente obedecer. Logo comecei a ouvir um som distante de guitarras distorcidas e andei em direção ao som. Cheguei num local que parecia uma chácara típica de retiro de igreja, mas as pessoas ali não pareciam ser de igreja. Todos de preto, muitas correntes e piercings, casacos estilo “matrix”, e um cara usava uma máscara de oxigênio, não por razões de saúde, mas por estilo. Mais tarde descobri que eu havia chegado num encontro especial para pessoas que se interessaram na mensagem pregada pela banda No Longer Music, que havia acabado de fazer uma turnê pelo circuito gótico de São Paulo, passando por casas de show como Madame Satã e Deja Vu.

Vi o show da No Longer Music pela primeira vez, com sua demonstração da crucificação e ressurreição de Jesus numa linguagem artística e contemporânea, e vi a reação de entrega das pessoas que ouviram a mensagem clara do evangelho. Eu sabia que estava no lugar certo e que Deus havia respondido minhas orações. No dia seguinte, me encontrei com David Pierce, o líder da banda. Eu contei para o David sobre meu plano ambicioso de iniciar uma missão para alcançar jovens e apoiar o tipo de trabalho que o No Longer Music fazia. O David ouviu pacientemente e disse: “Você já ouviu falar do Steiger?”. “Não”, eu respondi. “Basicamente é a organização que você está descrevendo.” Ele continuou: “Talvez Deus esteja te chamando para começar uma nova missão, ou talvez ele queira que você se junte a nós. Se quiser se juntar a nós, você deve ir ao nosso encontro que acontecerá no mês que vem”. Eu estava chocado e entendi de imediato que novamente o plano de Deus era maior e melhor que o meu. Então eu disse: “Claro, eu vou! Onde será?” “Na Polônia”, ele respondeu.

Eu senti como se tivesse numa montanha russa, onde eu deveria apenas curtir a viagem! O fato é que o chamado de Deus é incrivelmente poderoso e consumidor. Quando ele nos chama, é algo que vai além do nosso entendimento e forças. A nossa parte é simplesmente obedecer. Cheguei em casa depois daquele fim de semana e liguei para minha mãe. “Mãe, preciso ir para Polônia”.  “Porquê?”. “Estou me juntando a uma missão chamada Steiger.” “Ok, se cuide e não esqueça de ligar!”. Então vendi minhas coisas, comprei uma passagem e parti. Deus estava respondendo as minhas orações e eu estava disposto a fazer qualquer coisa necessária para fazer parte daquilo que ele estava fazendo!

Nos últimos 14 anos, temos visto literalmente milhares de jovens respondendo à  mensagem do evangelho pelo Brasil, América do Sul, Europa e o Oriente Médio, com turnês de bandas que pregam o evangelho abertamente. Fizemos parte da formação da Missão Steiger no Brasil, iniciamos uma casa comunitária e estudos bíblicos para o discipulado, enviamos dezenas de jovens para o treinamento missionário e envolvimento mais longo prazo na missão. Durante esse tempo também me casei e tivemos nosso primeiro filho. Então temos o privilégio de servir a Deus em missões como família. Tem sido um desafio enorme, muitas vezes uma luta intensa. Passamos por exaustão completa, medo, dificuldades e frustrações, mas tudo vale a pena quando vemos vidas salvas e o mundo e a história sendo impactada e mudada pelo poder do evangelho. O que nos mantém firmes é o chamado poderoso de Deus.

A geração urbana, conectada pelo consumismo, a mídia e a indústria do entretenimento forma a maior cultura global que já existiu. Presente desde a Europa até a América do Sul, da Ásia até o Oriente Médio, compartilhando os mesmos valores, ouvindo a mesma música, assistindo os mesmos filmes e postando as mesmas ideias nas redes sociais. Esta cultura global é influenciada por uma cosmovisão predominante, o humanismo secular, que diz que Deus está morto e o homem está no centro. Nesta cultura relativista, nós somos deus e o consumo é a nossa religião.

Esta é uma geração que não busca mais respostas na igreja, porque a consideram uma tradição vazia e morta. Ou Deus não existe ou, se Ele existe, Ele não interfere em nossas vidas. Mas Deus está numa missão, e seu coração está quebrado por esta geração. A mensagem do seu amor, o evangelho, é para todos, e não é justo que jovens hoje não possam ouvir porque não estamos tornando esta mensagem acessível a eles. Eles não virão até nós, então precisamos ir até eles. Como Igreja de Cristo, precisamos perceber esta mudança gigantesca de mentalidade e estilo de vida das últimas décadas e a necessidade de uma mudança de paradigma em missões. Este é o nosso manifesto. Desafiar o “status quo” da cosmovisão predominante humanista secular e desmascarar sua natureza opressiva. Levantar a Cruz fora da igreja e ver a mensagem de um Deus amoroso, revelado em Jesus, impregnada nesta cultura globalizada. Ver esta geração encontrar esperança e propósito novamente ao encontrar o seu Criador. E através disso radicalmente e eternamente mudar o mundo.

• Luke Greenwood trabalha com a missão Steiger desde 2002, no evangelismo e discipulado em algumas das cenas menos alcançadas da cultura jovem global. Trabalhou muitos anos no Brasil. Atualmente mora com sua família na Polônia, como diretor para a Europa o Steiger e diretor de treinamento. No tempo livre, gosta de pescar.

Texto originalmente publicado no e-book Vocação e Juventude.

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Foto: Gabriel Barletta/Unsplash.com.

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