Está para nascer uma pessoa tão ignorante quanto o Mineiro com Cara de Matuto. Numa recente viagem à região semiárida do Nordeste (maio de 2002), ele levou na bagagem um par de galochas, uma capa de chuva e um guarda-chuva. Só lá ficou sabendo que naquela enorme área, que abrange oito Estados brasileiros e o norte de Minas Gerais (18% do território nacional) e que abriga 18,5 milhões de habitantes, chove em média apenas 700 milímetros por ano.

De qualquer modo, a viagem foi um sucesso. O Mineiro voltou mais consciente dos problemas do Nordeste do que qualquer político por aí afora. Ele fez até uma lista daquilo que aprendeu:

1) Embora haja evidências de que o sertão nordestino tenha sido mar há milhões de anos (foram encontrados fósseis de peixes na fronteira entre Pernambuco e Ceará), certas áreas do semiárido já eram secas muito tempo antes dos portugueses aportarem aqui.

2) Ao longo do século passado, houve 28 anos de seca na região – em média, 1 ano de seca a cada 4 anos.

3) Lá a estação da chuva é chamada de inverno e é muito curta: dura de 4 a 7 meses. A estação seca é chamada de verão e dura de 5 a 8 meses.

4) A chuva é muito irregular. Numa única semana pode chover mais da metade de toda a chuva de um ano. É muito comum cair num só dia a chuva de um mês inteiro. Continue lendo →

Em tempos difíceis e sombrios, de generalizada corrupção, o paradigma precisa ser redescoberto, como aconteceu na época da Reforma

Na história do Antigo Testamento, de vez em quando aparecem certos verbos que dão a entender que alguma coisa estava perdida e foi achada. Por ocasião da reforma do templo de Jerusalém, na época de Josias, por exemplo, o sumo sacerdote Hilquias encontrou o livro da Lei (2 Rs 22.8).
Na época de Neemias, “descobriram na Lei que o Senhor tinha ordenado, por meio de Moisés, que os israelitas deveriam morar em tendas durante a festa do sétimo mês” (Ne 8.14). Pouco depois, achou-se também “que nenhum amonita ou moabita jamais poderia ser admitido no povo de Deus” (Ne 13.1). Eram fatos sérios perdidos ou esquecidos em épocas de crises. Daí a necessidade de se redescobrir certas coisas que ainda estão esquecidas ou relegadas a planos inferiores.

A descoberta do paradigma
O modelo de comportamento ordenado por Deus aos cristãos não é outro senão aquele que foi dado aos israelitas na travessia do deserto: “Consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44; 19.2; 20.7).
Jesus apresentou o mesmo padrão de conduta logo no início do sermão do monte: “Sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48).
Paulo bate na mesma tecla: “Deus nos escolheu nele [em Cristo] antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença” (Ef 1.4) e “Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade” (1Ts 4.7).
Pedro traz à tona o velho argumento de que a santidade de Deus nos obriga a ser santos: “Assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, porque eu sou santo” (1Pe 1.15-16).
Precisamos ter certeza absoluta de que a mentira, o suborno, a soberba, a profanação do santo nome de Deus, o egoísmo, a injustiça social, e o orgulho ainda são pecado, e de que o casamento ainda deve ser heterossexual e estável.

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“Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos para que entre o Rei da Glória” (Sl 24.7).

Há reis e o Rei.

Os reis são limitados pelo tempo e pelo espaço. Exercem governo temporal e parcial. O Rei é eterno e imortal. Exerce domínio sobre tudo e em todo o tempo.

Os reis e as demais autoridades procedem elementarmente de Deus e tem a sanção divina.

São ministros civis de Deus. Vieram ao poder em razão da hereditariedade ou força do voto ou por meio de manobras e golpes políticos. São responsáveis diante de Deus. Terão de prestar contas. O mau uso do poder pesará implacavelmente sobre eles. O Rei é, na verdade, o “”bendito e único Soberano, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade e habita em luz inacessível” (1Tm 6.15-16). Este não tem a quem prestar contas: é a autoridade última.

Entrada de Jesus em Jerusalém

Em favor dos reis e de todos que se acham investidos de autoridade se deve orar, para que vivamos vida tranquila e mansa (1Tm2.1-3). Ao Rei deve-se dar glórias, prestar culto, render graças, dobrar os joelhos.

O povo deve aos reis e aos que governam honra e sujeição (1Pe 2.13-17; Tt 3.1). Os reis devem ao Rei suas coroas, seu títulos, sua glória (Ap 4.9-11). (Um deles, Herodes, morreu por “não haver dado glória a Deus” – At 12.23).

 

 

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A confissão é de uma professora de filosofia política e teoria social. Está no livro “Islã, Latinidade e Transmodernidade” (Universidade Cândido Mendes, 2005). A frase completa de Susan Buck-Morss é: “Depois de uma longa gravidez de um futuro que o mundo agora deu à luz, estamos francamente decepcionados”.1

Todo mundo está decepcionado. Até parece que estamos fazendo uma leitura em uníssono de Eclesiastes, repetindo monotonamente a expressão-chave que emoldura o livro: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Ec 1.2; 12.8). Outras versões dizem “Tudo é ilusão” ou “Nada faz sentido”. 

É a triste confissão que mais se ouve hoje em dia. Tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. Tanto de pessoas cultas como de pessoas sem instrução. Tanto de religiosos como de agnósticos. Tanto de empresários como de donas-de-casa. Tanto de jovens como de idosos.

A decepção generalizada, ou globalizada, é com o que se lê, com o que se vê, com o que se ouve e com o que acontece. É causada por justas razões. Além de estarmos de mãos e pés amarrados quanto à solução de antigos e intrigantes problemas, eles se tornam maiores, mais amplos, mais ameaçadores e mais complexos.
O conflito árabe-israelense vem desde Ismael e Isaque, os dois filhos de Abraão. Já envolveram os gregos, os romanos, os otomanos, os ingleses, os franceses e, agora, os americanos.2

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Não é nada fácil. Mas não pode haver sobrevivência espiritual e ética se não houver vitória sobre o pecado que mora dentro de nós. Os instintos pecaminosos têm uma força enorme, que deve ser levada em consideração. Na análise do comportamento humano, Jesus deixou bem claro que o que torna o homem impuro não é o que entra, mas o que sai, “pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez” (Mc 7.20-23). Daí a condição sine qua non para se tornar cristão: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23).

Bem antes de Jesus, Salomão, o sábio que investigou profundamente a natureza humana, registrou: “O coração dos homens […] está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida” (Ec 9.3). Depois de Jesus, Paulo, outro analista do comportamento humano, demonstrou que há um abismo entre a vontade de acertar e a vontade de não acertar: “O que a nossa natureza humana quer é contra o que o Espírito quer”. O apóstolo conclui sem rodeios: “Os dois [a vontade humana e a vontade divina] são inimigos” (Gl 5.17, NTLH).

O drama da pecaminosidade latente é problema hereditário e sem solução, do nascimento à morte, enquanto não se concretiza a esperança de um corpo novo. A propensão pecaminosa é um fato universalmente aceito e confessado, por crentes e descrentes, por teólogos e pensadores, por escritores, jornalistas, artistas e pessoas comuns, desde os tempos mais remotos até hoje. É por isso que o moralista inglês Samuel Johnson, autor de A Vaidade dos Desejos Humanos, escreveu no século 18: “Cada qual sabe de si mesmo o que ele não ousa contar ao seu mais íntimo amigo”. É por isso também que o escritor francês Paul Valéry, 100 anos depois, escreveu que “os homens se diferem pelo que mostram e se assemelham pelo que são”. É por isso ainda que Gabriela Silva e Leite, coordenadora nacional da Rede Brasileira de Profissionais de Sexo, sentindo-se prejudicada por uma providência da Prefeitura do Rio de Janeiro em 2001, teve a coragem de escrever que “o senhor César Maia, acima de prefeito da cidade, é homem e, nessa condição, igual a todos os outros homens: frágil”.1

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Ao se referirem às pessoas de idade, as diferentes versões das Escrituras Sagradas usam um vocabulário enorme, desde o idoso, o ancião, “o bem velho”, “o muito velho”, o encanecido, o indivíduo de cabelos brancos e “os anciãos de venerandas cãs” (Jó 15.10, BJ) até as expressões mais generosas, como “o entrado em dias”, “o adiantado em anos” e “os avançados em idade”. A expressão moderna “terceira idade”, que já está sendo abandonada, não se usa nem uma vez.

 

A Bíblia alimenta e estimula o respeito pelos mais velhos. Basta considerar os seguintes textos:

1. Uma das leis dadas a Israel por intermédio de Moisés diz: “Fiquem de pé na presença das pessoas idosas e as tratem com todo o respeito” (Lv 19.32, BLH). Paulo, sem dúvida, tinha isso em mente quando instruiu a Timóteo: “Não repreendas asperamente ao homem idoso, mas exorta-o como se ele fosse seu pai” (1 Tm 5.1, NVI). Roboão não levou em consideração o conselho dos anciãos para diminuir a carga tributária e, então, provocou a divisão do reino de Israel, lá pelo ano 930 a.C. (1 Rs 12.1-15).

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