É verdade que Deus é Rei dos reis, Senhor dos senhores, Todo-poderoso, Altíssimo, três vezes Santo, sobremodo tremendo (Sl 111.9) e Deus zeloso que visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que o aborrecem (Êx 20.5).
Mas Ele é Pai também e deve ser tratado como tal.

Por que não consideramos Deus Pai? Por que não nos relacionamos com Ele como filhos? Por que não o buscamos como nosso Pai?

Talvez seja por falta de informação ou por informação equivocada – talvez nos tenham comunicado apenas a santidade de Deus, e não a sua misericórdia; talvez só a sua severidade, e não a sua bondade; talvez só o seu castigo, e não o seu perdão. Nesse caso, é necessário romper com a informação incompleta e abraçar novos conceitos, embora tão antigos quanto os primeiros conceitos. A reviravolta pode ser difícil, mas é a única saída.

Jesus fez um esforço constante para nos passar a ideia da paternidade de Deus. Muitas vezes, Ele se dirigia aos discípulos referindo-se sempre a Deus como “o vosso Pai” ou “o teu Pai”. Só no Sermão da Montanha, essa curta expressão aparece quinze vezes, especialmente no capítulo 6 de Mateus (versos 1, 4, 6, 8, 14, 15, 18, 26 e 32).

A palavra mais direta e encorajadora está no modelo de oração que Jesus oferece: “Portanto, orem assim: ‘Pai nosso, que estás no céu…’” (Mt 6.9, NTLH).

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Até então eu pensava no desafio missionário em termos de países e não em termos de povos ou etnias, o que é muito mais elástico. Até então eu não sabia que a grande comissão está também no Velho Testamento e não só nos Evangelhos e no livro de Atos.

Outro dia o Rev. Winrich Schefbuch, diretor executivo da Hilfe Für Brüder, me perguntou de onde vinha o meu interesse por missões. Três ou quatro anos antes, um pastor que valoriza o trabalho missionário, me telefonou e me disse surpreso: “Não sabia que você também tinha consciência missionária”.

Na verdade eu tenho uma consciência antiga e sólida, que tem crescido providencialmente através dos anos.

O processo todo começou no berço, quando eu ouvia falar da conversão do meu avô na cidade do Recife em 1876, em decorrência do trabalho do primeiro missionário estrangeiro a se fixar no Nordeste do Brasil, chamado John Rockwell Smith. Meu avô era um adolescente de 16 anos quando ouviu o evangelho pela primeira vez. Professou a fé no dia de seu 18° aniversário, juntamente com sua mãe, e tornou-se um dos três primeiros pastores brasileiros do Nordeste. Entre os seus descendentes há dezenas de pastores e leigos comprometidos com o Reino de Deus e uma multidão de crentes. Em 1975, cem anos depois da conversão de meu avô, tive o privilégio de visitar a neta de Smith em Charlotte, na Carolina do Norte, e de apresentar à família a nossa gratidão pelo ministério do notável missionário. Com este patrimônio histórico seria muito difícil eu não ter entusiasmo por missões. Continue lendo →

O Senhor advertiu a Israel e a Judá por intermédio de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: ‘Voltai-vos dos vossos maus caminhos e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, segundo toda a lei que prescrevi a vossos pais e que vos enviei por intermédio dos meus servos, os profetas. (2 Rs 17.13)

Apesar da existência de pregadores pobres de conteúdo e vazios de autoridade, há muitos pastores, conselheiros, evangelistas, avivalistas e teólogos que desempenham muito bem a missão de profetas de Deus. Eles falam da parte do Senhor, apoiados na autoridade das Escrituras e no poder do Espírito Santo. Eles podem falar atrás de um púlpito, atrás de um microfone, atrás de uma câmara, atrás de uma pena. São instrumentos de Deus tão confiáveis como o foram os profetas da história de Israel e da história da Igreja.

Pode faltar chuva, pode faltar pão, pode faltar dinheiro, mas Deus não deixa faltar advertência: “O Senhor advertiu a Israel e a Judá por intermédio de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: ‘Voltai-vos dos vossos maus caminhos e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, segundo toda a lei que prescrevi a vossos pais e que vos enviei por intermédio dos meus servos, os profetas’” (2 Rs 17.13).

Seu problema não é o provável silêncio de Deus. Ele tem falado ontem e hoje, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos profetas e também por seu próprio Filho (Hb 1.1-2). Você tem as Escrituras Sagradas, que reúnem todas as advertências necessárias para chegar a Deus e ter comunhão com Ele.

O que pode atrapalhá-lo é a rejeição da vontade revelada de Deus e de suas continuadas advertências. A grande queixa do Senhor é a mesma de sempre: “Ainda que Eu, começando de madrugada, os ensinava, eles não deram ouvidos, para receberem a advertência” (Jr 32.33).

Você precisa de advertência porque o erro é muito comum e o desvio é muito fácil. O clamor de Deus, dirigido primeiramente aos juízes da terra, serve também para você: “Deixai-vos advertir” (Sl 2.10). A advertência mostra o seu pecado, chama-o de volta e tem o poder de curá-lo.

Deus o abençoe!

Texto originalmente publicado na edição 260 de Ultimato.

 

Se Cristo não ressuscitou, não temos nada para anunciar nem vocês têm nada para crer (1 Co 15.14)

A morte está morta: Aleluia! 

Em toda a Bíblia ninguém escreveu tanto sobre a ressurreição do corpo como Paulo, aquele a quem o Senhor, depois de ressuscitado, apareceu por último. O texto mais longo, mais explícito, mais encorajador e mais entusiasta sobre a ressurreição de Cristo e dos mortos é da lavra de Paulo. Assim como o mais bonito texto sobre o amor é o capítulo 13 de 1 Coríntios e o mais bonito texto sobre a fé é o capítulo 11 da Epístola aos Hebreus, nada supera o que o apóstolo escreveu sobre a ressurreição do corpo no capítulo 15 de 1 Coríntios. Ele começa de mansinho e termina com um grito de enfrentamento com a morte: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” (1 Co 15.55). Por pouco o profeta Oséias não se levanta do túmulo para cobrar seus direitos autorais sobre a frase de vitória (Os 13.14) ou para fazer um dueto com o ex-torturador dos cristãos (At 26.11).

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Mui querido John Stott,

Hoje, 31 de dezembro de 2008, bem antes de o sol nascer, acabei de ler a última devocional de seu precioso livro A Bíblia Toda, O Ano Todo. Sem deixar de lado a costumeira leitura bíblica, não passei nem um dia sem ler, com grande proveito, suas meditações de Gênesis a Apocalipse.

Por uma questão pessoal, destaco e copio à mão as frases que mais me falam ao coração quando leio. No caso de A Bíblia Toda, O Ano Todo, preenchi 202 páginas de papel ofício. São ao todo 585 frases curtas e precisas. A primeira foi tirada da meditação da página 15: “De acordo com a narrativa da criação, percebe-se que Deus vai transformando a desordem em ordem, o caos em cosmos”. A última, tirei da leitura de hoje: “O supremo ministério do Espírito Santo é dar testemunho de Cristo e o supremo desejo da noiva [a igreja] é dar as boas-vindas ao Noivo [o Senhor Jesus Cristo]” (p. 432).

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Não há muita diferença entre Paulo e Agostinho: o primeiro diz “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23), e o outro diz “o castigo do pecado é o pecado”. Morte e pecado sempre foram irmãos gêmeos.

A dura sentença é de um africano convertido na Europa aos 33 anos, chamado Aurélio Agostinho, mais conhecido como Santo Agostinho (354–430).

De que maneira o pecado é o castigo do pecado? O castigo do pecado é o vício do pecado. Pecou-se tantas vezes, apesar de todas as advertências e dos lampejos de graça, que, agora não há como deixar o pecado. Caiu-se na gaiola e a chave se perdeu. Antes de Agostinho, disseram solenemente ao apóstolo João: “E quando chegar aquele tempo, todos os que praticam o mal praticarão cada vez mais; aquele que é imundo se tornará cada vez mais depravado […]” (Ap 22.11).
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A ressurreição preenche nossas expectativas de uma forma como nenhum outro evento remoto preenche ou poderia preencher. É a base da nossa certeza cristã em relação ao passado, ao presente e ao futuro. 

[A ressurreição de Jesus] aconteceu há cerca de dois mil anos. Como um evento tão antigo pode ter grande significado para nós hoje? Por que cargas d’água os cristãos compõem hinos e coreografias a partir desse acontecimento? Será que a ressurreição não é irrelevante? Entendo que […] ela é perfeita para a condição humana. Ela preenche nossas expectativas de uma forma como nenhum outro evento remoto preenche ou poderia preencher. É a base da nossa certeza cristã em relação ao passado, ao presente e ao futuro.

[Depois de sua ressurreição, Jesus] não era um defunto que voltou à vida normal, [nem um fantasma]. […] Na verdade, ele ressurgiu da morte e simultaneamente se vestiu de um novo ser para a sua personalidade. A ressurreição do nosso corpo será como a ressurreição de Jesus, a qual foi uma notável combinação de continuidade e descontinuidade. Por um lado, havia uma clara ligação entre os dois corpos. As cicatrizes ainda estavam nas mãos, nos pés, no lado. E Maria Madalena reconheceu a voz dele. Por outro lado, seu corpo atravessou as mortalhas, o sepulcro fechado e portas trancadas. Então evidentemente seu corpo tinha novos e inimagináveis poderes.

A esperança cristã diz respeito ao nosso futuro individual (a ressurreição do corpo), mas também ao nosso futuro cósmico (a renovação do universo). Esta promessa é muito relevante hoje, em vista do aquecimento global e da ameaça de desastre ambiental. Em geral, porém, nós cristãos tendemos a pensar e falar muito de um paraíso etéreo e a pensar e falar muito pouco sobre os novos céus e a nova terra. Mas toda a Escritura é entremeada por uma expectativa mais geral e mais física, [isto é, a renovação dos céus e da terra].

Nota
Trecho de A Bíblia Toda, o Ano Todo, de John Stott. Editora Ultimato, 2007.
Texto originalmente publicado na edição 304 da revista Ultimato.