Ó Deus, tem misericórdia de mim, pois sou pecador e desalmado. Aumenta a minha capacidade de amar e melhora a qualidade de meu amor. Santifica o meu amor.

Revigora o meu amor por ti mesmo, por Jesus Cristo, pela Igreja (que é a noiva de Cristo), por minha esposa, por todos os membros de minha família, por meus irmãos na fé, por minhas ovelhas, por meus vizinhos, por meus companheiros de trabalho, por aqueles que te conhecem e por algum eventual inimigo, se é que ele realmente existe.

Ajuda-me a amar os que falam demais, os que se queixam de tudo, os que vivem se vangloriando, os que estão sempre prontos a falar mal dos outros, os que adoram este mundo e as coisas que nele há, os que têm pimenta na língua e só falam bobagens, os que só pensam em dinheiro, os que não podem ver uma mulher sem a desejar, os que me aborrecem e me incomodam muito.

Estou bem certo de que amar-te de todo o meu coração, de toda a minha alma e de todo o meu entendimento é o grande e primeiro mandamento. Que amar o meu próximo como a mim mesmo é o segundo mandamento. E destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.1

Não me deixes abrir mão do amor. Não me deixes relaxar na prática do amor. Não me deixes abandonar o meu primeiro amor, aquele amor inicial, intenso, dominante e apaixonado.2

Ajuda-me a fazer declarações de amor a ti, a quem não vejo, e a meu irmão, a quem vejo.3 Também à minha mulher e ao netinho recém-nascido. Ajuda-me a criar uma atmosfera de amor em casa, no trabalho e na igreja, em conexão com o espírito do evangelho, e para o bem de todos, inclusive para o meu próprio bem.

Livra-me de um amor barato, sem aproximação, sem ação, sem sacrifício, sem gestos e sem gastos, sem perda de tempo, sem suor e sem lágrimas. Que eu não me esqueça jamais do teu amor para comigo, sendo eu ainda pecador, estando eu ainda morto em meus delitos e pecados, andando eu ainda segundo o curso deste mundo e fazendo eu ainda a vontade da carne. Por causa deste teu grande amor, tu me ressuscitaste com Jesus e me fizeste assentar com ele nos lugares celestiais.4 É deste amor que eu preciso. É precisamente por este amor que eu te rogo. Amém.

Notas
1 – Mateus 22.34-40.
2 – Apocalipse 2.4.
3 – 1 João 4.20.
4 – Efésios 2.1-10.
Texto extraído do livro Súplicas de Um Necessitado. Editora Ultimato.

“Fizeram chegar a ele o grito do pobre, e ele ouviu o clamor do necessitado” (Jó 34.28) 

O grito do pobre é mais perigoso do que o equipamento de um soldado americano e do que o equipamento de um homem-bomba. Por uma única e simples razão: o grito do pobre costuma chegar até os ouvidos de Deus, o Senhor Todo-Poderoso! (Tg 5.4). 

Devemos ter medo do grito do pobre. Estamos muito atrasados na arte de levar a sério o grito do pobre. Ele tem gritado há muito tempo. E seus gritos têm entrado até os ouvidos de Deus, o Senhor Todo-Poderoso, há muito tempo. Talvez não haja mais tempo para se ouvir o grito do pobre. Talvez seja tarde demais para tentar ouvi-lo. 

Enquanto os poderosos têm portões de ferro ao redor de suas casas, seguranças do lado de dentro e do lado de fora, sistemas sofisticados de proteção eletrônica, coletes à prova de balas, carros blindados e helicópteros protegendo-os por cima — os pobres têm apenas o recurso do grito. Mas o grito do pobre — quando é dirigido ao céu, em direção ao alto e sublime trono onde se assenta o Todo-Poderoso — é muito perigoso.

Pode ser que o Todo-Poderoso deixe acumular os gritos do pobre e só se manifeste sobre eles no juízo final. Mas é muito mais provável que ele já esteja ouvindo esses gritos e tomando providências, sem que os verdadeiros opressores, os verdadeiros culpados, os verdadeiros responsáveis tenham acordado para o fato. 

A agitação, a insegurança e a insatisfação não seriam manifestações da justiça divina? A violência urbana, o narcotráfico e a corrupção generalizada não seriam manifestações da justiça divina? As duas grandes guerras mundiais da primeira metade do século 20 e as muitas outras guerras que se seguiram a elas não seriam manifestações da justiça de Deus? As revelações do que acontece sob a ditadura da direita (o nazismo na Alemanha) e a ditadura da esquerda (o comunismo na União Soviética) não seriam manifestações da justiça de Deus? O aumento e a sofisticação do poderio bélico e a proliferação dos arsenais nucleares não seria manifestação da justiça divina? A humilhação provocada pela derrubada das Torres Gêmeas e pelo fracasso da Guerra do Iraque não seriam manifestações da justiça divina? O índice de suicídio em países desenvolvidos não seria manifestação da justiça divina? As apreensões quanto ao sucesso e aos riscos da tecnologia avançada de nossos dias não seriam manifestações da justiça divina? Os danos quase irreversíveis da destruição ambiental e suas graves consequências não seriam manifestações da justiça divina?

Precisamos descobrir com urgência que nada é pior para a humanidade do que quando Deus retira o cabresto e o freio e deixa o ser humano ao léu de sua vontade (Rm 1.24-27). 

Talvez haja lugar para a riqueza isenta de fraude, de opressão, de aproveitamento das leis injustas e de subornos, uma riqueza limpa e altruísta. Nesse caso não haverá o grito do pobre. Ele não terá do que se queixar, pois não foi usado, não foi explorado. Ao contrário, o rico dividiu com ele alguns dos seus bens e não o deixou sem pão, sem roupa, sem teto e sem emprego.

Texto originalmente publicado na edição 363 de Ultimato. Novembro-Dezembro 2016.

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19 de abril – Dia do Índio

“Terra Brasilis” (Atlas Miller, 1519).

Chama-se de Janela 10/40 aquele retângulo onde vivem hoje os povos não-alcançados pelo evangelho, situado entre os paralelos 10 e 40 ao norte da linha do Equador, a partir da costa ocidental da África até a costa oriental da Ásia. Ali está o maior e o mais difícil campo missionário do mundo moderno, também denominado O Cinturão de Resistência.

Na época das grandes descobertas marítimas e da Reforma Religiosa do século XVI, o mundo inteiro, com exceção da Europa, era ainda um campo missionário, com uma igreja cristã aqui e outra acolá. Os cinturões de resistência ao evangelho eram enormes e estavam ao redor da Europa.

Um desses cinturões era o Brasil, recentemente “achado” por navegadores franceses, espanhóis e portugueses. Se, na época, houvesse missiólogos atentos e apaixonados, eles desenhariam uma espécie de Janela Brasileira, que, sem levar em consideração o Tratado de Tordesilhas, incluiria a região compreendida entre a linha do Equador e o paralelo 30 ao sul do Equador e entre os meridianos 30 e 70 a oeste de Greenwich.

Era um campo missionário absolutamente virgem e desafiador. Exceto os portugueses que eram ou se diziam cristãos, a população nativa nunca tinha ouvido falar de Jesus, sua concepção sobrenatural, seus ensinos, seus milagres, sua morte e ressurreição, sua ascensão e a promessa de sua volta.

Os primeiros missionários cristãos a virem para a Janela Brasileira eram católicos e membros da Companhia de Jesus, fundada na Europa, poucos anos antes, por Inácio de Loyola, que fora contemporâneo do reformador João Calvino na Universidade de Paris, na década de 1530. Sob a direção de Manoel da Nóbrega, os seis primeiros jesuítas desembarcaram na Bahia no dia 29 de março de 1549, quase meio século depois de Pedro Álvares Cabral. Os missionários protestantes só chegaram em 1855, três séculos e meio depois da “descoberta” e três séculos depois dos católicos. Para os católicos, houve um desperdício de 50 anos e, para os protestantes, um desperdício sete vezes maior.

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O planeta tem 5.892.480.000 habitantes. Destes, 1.995.026.000 são cristãos. E eu sou um deles. Com muita honra.

Nasci em lar cristão. O nome Jesus Cristo nunca me foi alheio. Devo dar muitas graças a Deus por essa herança cristã. Ao mesmo tempo, corri um perigo enorme. O perigo de me acostumar com o nome de Jesus e não lhe dar nenhuma atenção.

Mas não foi isso que aconteceu. A herança cristã foi enriquecida. A graça de Deus me alcançou e me beneficiou, no sentido de eu ter uma fé pessoal em Jesus. Uma fé que foi crescendo cada vez mais. E que, acredito, ainda cresce. Pela leitura das Escrituras, pela oração, pela obediência, pela fé, pela experiência e pela continuação da graça de Deus.

Jesus não me é um estranho. Não é um sonho. Não é alguém que nasceu, viveu e morreu há quase dois milênios. Não é uma imposição da cultura ocidental, não é uma imposição da história, não é uma imposição do berço, não é uma imposição de meu pai pastor e de minha mãe crente. Não é uma ilusão.

Houve um momento em que, em plena consciência, eu assumi a herança cristã, me coloquei ao lado de Jesus Cristo, entendi melhor a sua história, me deixei arrastar por Ele, me apropriei de suas palavras e de suas promessas, me comprometi com Jesus. Eu não faria isso por pessoa alguma. Só por Jesus. Porque Ele não é apenas homem. É também Deus. Deus feito homem. Ou, como explica o prólogo do Evangelho de João, “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

Aliás, tudo que João declara sobre Jesus eu assino embaixo: o Verbo já era no mais remoto princípio, o Verbo estava com Deus, o Verbo era Deus, todas as coisas foram feitas por meio dele, sem Ele nada do que foi feito se fez e o Verbo se fez carne, isto é, assumiu a forma humana e esteva conosco (Jo 1.1-14). Um Jesus tão grande, um Jesus tão antigo, um Jesus tão eterno, um Jesus tão criativo, um Jesus tão único, um Jesus tão divino, um Jesus tão condescendente a ponto de descer de seu pedestal e juntar-se ao homem, um Jesus tão cheio de graça – porventura não me atrairia de corpo e alma? É claro que sim.

Para conhecer bem a Jesus, subi vários degraus, um atrás do outro. Esta escadaria sagrada, eu ainda estou subindo. Cada degrau supera o degrau anterior. O próximo degrau vai superar o degrau em que hoje me encontro. Certamente terei outras surpresas nos próximos degraus. E, quando chegar lá em cima, no topo, terei mais surpresas ainda.

Um dos degraus que talvez mais tenha me emocionado, eu o subi na Semana Santa de 1951, quando cursava o primeiro ano do seminário, aos 21 anos. Aproveitei os feriados para fazer um estudo bíblico acurado sobre a morte e a ressurreição de Jesus, valendo-me dos Evangelhos e do apaixonante capítulo do Velho Testamento que mais fala de Jesus (Isaías 53). Tudo me pareceu cristalino. As profecias de setecentos anos cumprindo-se na sexta-feira da Paixão. O encaixe da profecia com a história. Os detalhes da profecia, especialmente aquele que diz: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a sua boca” (Is 53.7). Impressionei-me tremendamente com aquela explicação do profeta: “O castigo que nos traz a paz estava sobre Ele” (Is 53.5). Até hoje vibro com a revelação dos três Evangelhos Sinóticos de que o véu do templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo, no momento exato em que Jesus expirava e entregava a Deus o seu espírito (Mt 27.51, Mc 15.38 e Lc 23.45), anunciando que, depois do sacrifício expiatório de Jesus, o pecador, antes separado de Deus, agora pode entrar na presença do Altíssimo pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele mesmo inaugurou por meio de seu próprio corpo (Hb 10.19-22).

Sou cristão convicto, alegre, corajoso e entusiasta porque Deus me fez entender as profundezas do cristianismo. Ao chegar o “dia de Cristo” (Fp 1.6), quando Ele vier pela “segunda vez” (Hb 9.28), em “poder e muita glória” (Mt 24.30), em me ajoelharei a seus pés e lhe direi duas palavras apenas: “Muito obrigado”.

Texto originalmente publicado na edição 250 de Ultimato. Janeiro de 1998.

Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene! (Amós, 5.24, NVI)

As Escrituras Sagradas não nos deixam à vontade no que diz respeito à justiça social. Ao contrário, elas criam incômodos problemas de consciência, elas nos azucrinam, elas nos envergonham, elas nos condenam. De todos os nossos pecados e crimes, a falta de consciência social é o mais coletivo, o menos reconhecido e o causador das maiores tragédias, que vão desde a fome até as guerras. Em nenhum momento, o evangelho nos dispensa da obrigação de elaborar as leis da justiça social no papel e no modo de viver. O chamado à justiça social está no Decálogo, nas leis secundárias, nos Provérbios, nos profetas, no exemplo de Jesus, no segundo grande mandamento, na instituição do diaconato primitivo e na Epístola de Tiago, o servo do Senhor que não tinha papas na língua.

No Decálogo

Enquanto os quatro primeiros mandamentos tratam do nosso relacionamento com Deus, os seis restantes dizem respeito ao nosso relacionamento com os outros. O quinto mandamento diz que não devemos cometer injustiça alguma contra aqueles que nos trouxeram à vida. O sexto mandamento nos proíbe de tirar a vida de quem quer que seja. O sétimo mandamento nos proíbe de adulterar. O oitavo mandamento nos proíbe de diminuir o patrimônio alheio para aumentar o patrimônio próprio. O nono mandamento nos proíbe de prejudicar alguém por meio da mentira, do falso testemunho, da intriga, da calúnia. E o décimo mandamento nos proíbe de dar asas ao desejo incontido e imoral de possuir aquilo que pertence ao próximo. Para tornar esse mandamento mais preciso, poderíamos lê-lo assim: Não cobiçarás a propriedade alheia, o emprego alheio, o trono alheio, os mananciais alheios, as florestas alheias, o petróleo alheio, o mercado alheio, a glória alheia, a mão-de-obra alheia, o poder alheio, o sucesso alheio, a mulher alheia, o marido alheio, a vaga alheia e assim por diante (Êx 20.1-17; Dt 5. 1-21).

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