Rompendo com aquilo que me rompeu de mim mesma, do meu próximo, e de Deus

Por Julia Gomes

O perdão, como todo assunto sempre presente, cai no perigo de ser tratado de forma leviana. Entretanto, esta temática é recheada de nuances, como o mistério da graça, a alegria da comunhão, e se encontra no âmago do cristianismo. A verdade é que muito é dito sobre o fardo do perdão, mas pouco sobre o júbilo e a finalidade do mesmo.

Destrinchando o assunto, Dietrich Bonhoeffer em seu livro Vida em Comunhão leva a encarnação de Cristo por meio de sua Igreja num limiar interessante, digno de atenção. O fato de podermos perdoar nossos devedores, ouvirmos a confissão de pecados arrependidos, nos confere o privilégio de participarmos de seu perdão.1 É a possibilidade de fazer parte da obra reconciliadora de Cristo (2Co 5.18-19).

De modo que o pecado quer ficar a sós com a pessoa, tornando o secreto um sacrilégio. Mas a confissão e o perdão vêm transformando-se em acesso à comunhão, tornam o secreto sagrado. Para tanto, o pecado precisa sair das trevas para a luz.

Assim, se pecado é ruptura, numa comunidade de pecadores o perdão se mostra o ato, a ponte necessária para a reaproximação. Estou rompendo com aquilo que me rompeu de mim mesma, do meu próximo, e de Deus. Eu me regozijo em meus pecados perdoados! Não é à toa que em João 17 Jesus chama a união de glória.

Mas é preciso atentar-se às nuances. Noutra obra magistral, Discipulado, Bonhoeffer disserta sobre o que ele chamou de graça barata e graça preciosa, tecendo fios que remendam tramas entre perdão e graça. Para ele a graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento do pecador, graça sem discipulado, sem cruz, e sem Jesus Cristo vivo e encarnado.2

A graça barata justifica o pecado e não o pecador, ao passo que a graça preciosa, embora de graça para nós, tem preço de vida, de sangue. Essa é a graça que leva ao arrependimento, à confissão, à cruz, ao Cristo. Justifica e perdoa o pecador.3 Rompe com o pecado e abre caminho para a comunhão. A graça preciosa é precisamente aquela que joga o velho eu no chão a fim de levantar o novo.

Dessa maneira, na Santa Ceia jaz o seio do cristianismo, é a encenação da graça preciosa, perdão dos pecados por meio do sangue de Jesus na cruz, e a gloriosa comunhão restaurada, a alegria da salvação sendo experimentada pelo Corpo de Cristo. O perdão separa do pecado o pecador, perfumado, lavado, costurado em graça. Portanto, perdão e graça caminham de mãos dadas – ouso dizer a cruz é o beijo entre o perdão e a graça, que abre caminho para reaproximação e o júbilo de pertencer.

Diante disso, me pergunto o quanto estamos de fato nos alegrando com o perdão dos nossos pecados e da salvação, onde tenho sido constrangida por ter esses prazeres ofuscados por preocupações e estresses que se mostram banais perante a graça.

A salvação, então, deve encher nossos corações de alegria, e se não enche, devemos pedir como orou Davi após arrepender-se: “Devolve-me a alegria da tua salvação” (Sl 51.12). E a salvação só é possível pela graça que perdoou pecadores arrependidos. Alegremo-nos, assim, na obra redentora de Cristo, e façamos parte de seu ministério como reconciliadores.

Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoandose mutuamente, como Deus os perdoou em Cristo. Efésios 4:32

 

Notas:
1. BONHOEFFER, Dietrich. Vida em comunhão. Mundo Cristão. 2022. p. 116.
2.              . Discipulado. Mundo Cristão. 2016.
3. Ibidem.
Imagem: Unsplash.

 

  • Julia Gomes é bióloga pela UFSCar. Ama literatura, café e a criação. @prosasprosaicas.

 

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