Quais os limites e possibilidades de as comunidades de fé evangélicas figurarem como espaços restaurativos em casos de violência doméstica?

Por Talita Raíssa

Você já pesquisou no Google termos como “violência doméstica” e “mulheres cristãs”? Ou já se deparou nas redes sociais com escândalos envolvendo pastores e outras lideranças evangélicas denunciadas por agredir suas esposas?

Provavelmente sim, e isso revela uma triste realidade do Brasil.

Dados apontam que 42,7% das mulheres que se identificam como evangélicas já sofreram violência por parte de parceiros ou ex-parceiros íntimos, índice superior à média nacional. Ainda assim, entre todas as mulheres entrevistadas, apenas 6% buscaram ajuda na igreja1. Esse contraste evidencia um descompasso preocupante.

Apesar de muitas mulheres frequentarem comunidades de fé, nem sempre enxergam a igreja como um espaço seguro de acolhimento e escuta. As razões são diversas: medo da exposição, dificuldade em se reconhecer como vítima, distanciamento da liderança – problema que identifico nas chamadas “mega churches” – ou até a crença de que devem permanecer em relações abusivas por entenderem que “é assim que Deus estabeleceu”.

Todos esses pontos deveriam nos preocupar como cristãos, mas o último “é assim que Deus estabeleceu”, revela uma distorção de quem ele é e de sua Palavra.

Quando se enfatiza Efésios 5.22–24 de forma isolada – “Esposas, sujeitem-se a seus maridos…” – e se ignoram os versículos seguintes, que ordenam aos maridos amarem suas esposas como Cristo amou a igreja, entregando-se por ela, corre-se o risco de transformarmos Deus em uma justificativa para as nossas maldades.

Não estou discutindo as interpretações quanto à ‘submissão’, mas estou questionando a aceitação de uma dinâmica doméstica (e evangélica) violenta que se justifica na pretensa ‘base bíblica’.

Questiono se os maridos realmente entenderam o seu papel de amar as suas esposas como Cristo amou a Igreja.

E mais do que isso, questiono se a Igreja entendeu seu chamado de amar o próximo. Se a Igreja entendeu que sua vida não se resume a reuniões dominicais em que todos se arrumam e sorriem como se não tivessem problemas.

Talvez tenham esquecido que a verdadeira religião, como diz em Tiago 1.27, é visitar os órfãos e viúvas nas suas aflições. É ir em direção aquele lar que está destruído e cuidar da mulher para que sua vida física e mental esteja segura. É perceber que quando um membro do corpo sofre, todos os demais sentem a dor (1Co 12. 26-27), mas parece que nos últimos tempos estamos anestesiados.

Até quando a igreja evangélica irá normalizar essa inércia diante de problemas sociais que, muitas vezes, são agravados e potencializados por interpretações distorcidas da fé?

Para aprofundarmos um pouco mais nossa conversa, convido o leitor a conhecer a minha nova obra Práticas restaurativas em contexto de fé publicada pela Editora Blimunda. Nela investigo possíveis limites e potencialidades das comunidades de fé evangélicas figurarem como espaços restaurativos em casos de violência doméstica.

Nota
  1. FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Relatório Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil. 5 ed. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/03/relatorio-visivel-e-invisivel-5ed-2025.pdf?v=13-03. Acesso dia 20 abril 2026.

 

  • Talita Raíssa, filha amada de Deus, filha do Rev. Luiz Fernando Dos Santos (in memoriam) e de Regina. Advogada e pesquisadora. Compartilha reflexões sobre a caminhada com Cristo no perfil Aquele que me vê, no Instagram. Autora de Práticas restaurativas em contexto de fé (Editora Blimunda).

 

Imagem: Unsplash.
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