Por Layla Fischer

Era nítido que qualquer um que passasse na frente percebesse o acúmulo. Muito excesso. Muita coisa.

Parecia bonito. Tanta riqueza de dons e virtudes. Canções e vitrais.

Mas que parecia enriquecer somente os que estavam ali.

Pois para além de seus portões estava a sociedade… pobre e raquítica.

Eu lembro, era uma quinta-feira. Sozinha no ônibus, um crente do lado. Ele ouvia música no fone de ouvido. Me viu ali, imersa em muitas lágrimas, mas talvez não cogitou que aquela sua mensagem, tão guardada e enraizada no coração, tinha a exata extensão do abraço que eu precisava.

Podia compartilhar, mas não quis.

Eu sei que muitos desses sequer conseguem olhar nos olhos do outro enquanto conversam. Sequer conseguem cuidar, se envolver, se importar.

E então percebi que eram cheios do pior tipo de alimento: ortodoxia processada, doutrinas baratas, liturgias ensimesmadas. Comida fácil de engolir.

E por isso tinham tanto.

É por isso que a mensagem – que em sua essência era uma mensagem nutritiva, pelo que sei – não conseguia sequer sair dali e continuar íntegra.

Era como se, durante o caminho da pronúncia, fosse inteiramente deturpada. Processada por diversos filtros teológicos e preferências pessoais.

Podia alimentar, mas só gerava acúmulo e futilidade. Não nutria, não gerava crescimento.

E, enquanto isso, era quase possível ouvir nas ruas os gritos de fome por “comida de verdade”.

Tão simples a mensagem. Mas virou isso aí.

Essa era a igreja dos obesos – os obesos espirituais.

Depois que eu soube que ainda existe alimento que sustenta, procuro um lugar que resistiu a essas tendências. Não quero caminhar com pessoas que não se alimentam do Pão da Vida.

Por favor me avise se achar um lugar assim. E compartilhe o endereço. Já faz tempo que estou com muita fome.

 

  • Layla Fischer, 24 anos, é assessora jurídica e pesquisadora. Congrega na Igreja Presbiteriana Central de Curitiba/PR, e estuda teologia junto ao Invisible College.

 

 


Saiba mais:
» A Igreja – Uma comunidade singular de pessoas, John Stott
» Dê Outra Chance à Igreja – Encontrando significado nas práticas cristãs, Todd Hunter

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