“Entre os deuses, não há semelhante a ti, Senhor, nem há obras como as tuas.”  Salmo 86.8, ARA

Por Stela Portes Soares

Quando abrimos a Escritura, a imagem com a qual nos deparamos é a do grande Deus, criador dos céus e da terra. Por meio do discurso divino, tudo passa a existir, e ali a absoluta transcendência de Deus pode ser contemplada.1 Para J. I. Packer, “a existência dessa criação dependia da vontade do Criador, e, portanto, era distinta da essência divina”. No entanto, este mesmo Deus se relaciona com todas as demais criaturas.2

Na Bíblia, não encontramos um conceito subjetivo de Deus. Em vez disso, somos expostos ao Deus vivo, por meio de quem tudo se fez. Chamados a vislumbrar as obras de suas mãos, que tudo sustenta.3 Através de seus atributos comunicáveis, o todo poderoso se relaciona e habita o mundo criado.

 “A mesma Escritura que fala da maneira mais elevada acerca da incomparável grandeza e majestade de Deus, fala em figuras e imagens que pulsam com vida (…) tudo o que pode ser encontrado no mundo que seja um apoio, abrigo e auxílio é perfeita e originalmente encontrado em abundância em Deus”4

O próprio Deus se fez imanente para que pudéssemos conhecê-lo e adorá-lo. No entanto, é preciso manter em equilíbrio suas características transcendentes (incomunicáveis) e imanentes (comunicáveis). A valorização de uma, em detrimento da outra, pode incorrer em erros teológicos graves: Por um lado, a tendência ao panteísmo (onde tudo é Deus), de outro, ao deísmo (Deus sem revelação).5

“Ele não é apenas um Deus de longe, mas também é um Deus de perto. Ele não é apenas independente e imutável, eterno e onipresente, mas também sábio e poderoso, justo e santo, gracioso e misericordioso. Ele não apenas é Elohim, mas também Jeová.”6

O cristianismo é uma religião que tem como base a revelação. Se Deus não tivesse se dado a conhecer, seria impossível se relacionar e conhecê-lo verdadeiramente.7 Geerhardus Vos nos lembra “da necessidade de que Deus nos abra a porta ao mistério de sua natureza.”8 A revelação nos foi dada com o objetivo de nos proporcionar a certeza da fé. Os atributos incomunicáveis de Deus não seriam suficientes.

A doutrina de Deus e a doutrina da salvação se relacionam diretamente, pois quem conhece a Deus através do filho, tem a vida eterna.9 Esse conhecimento vai além do intelectual, atingindo o coração. Seu objetivo principal não é nos deixar mais eruditos, mas, sábios e alegres.10 Segundo Packer,  “O conhecimento da fé é o fruto da regeneração, a doação de um coração novo (Jr 24.7; 1 Jo 5.20) e da iluminação pelo Espírito Santo. O conhecimento-relacionamento é recíproco, implicando afeição pactual de ambos os lados: conhecemos a Deus como nosso porque ele nos conhece como seus (Jo 10.14).”11 Portanto, temos na Trindade o significado completo dos atributos de Deus. Somente nela, o ser de Deus poderá ser compreendido. Esta é a confissão central do cristianismo.12

Assim, fica claro o movimento deste grande Deus, em direção ao seu povo. Como nenhum outro deus, Ele compartilha de suas virtudes dando aos seres criados a oportunidade de participar do seu movimento na história. Como dito, nosso conhecimento não é completo, ele é limitado, apesar disso, suficiente para nossa salvação. Mas,  haverá um dia em que o veremos face a face e então o conheceremos por completo. E poderemos dizer como Jó: “Antes, eu só te conhecia de ouvir falar, mas agora eu te vi com os meus próprios olhos (Jó 42.5, NVI).


Notas:

1. BAVINCK, Herman. As Maravilhas de Deus: introdução na religião cristã de acordo com a confissão reformada. Trad. David Bruno Soares. São Paulo: Pilgrim Serviços e Aplicações; Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2021, 1ª ed., p. 178.
2. Ibid., p. 178.
3. Ibid., p. 178.
4. Ibid., p. 179.
5. Ibid., p. 179.
6. Ibid., p. 183.
7. PACKER, J. I. Teologia Concisa. Trad. Rubens Castilho. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 15.
8. VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Trad. Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2019, 2ª ed., p.14.
9. BAVINCK, op. cit., 175.
10. BAVINCK, op. cit., 175.
11. PACKER, op. cit., 175.
12. BAVINCK, op. cit., 191-193.

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