Por Daniela Piva

Há alguns dias acordei com o meu coração pesado e incomodado. Ao pegar meu devocionário naquela manhã, um texto tão básico apareceu, mas para mim foi como se eu o tivesse lido pela primeira vez…

Não sei se isso já aconteceu com você, mas muitas vezes leio passagens das Escrituras e, algumas vezes, é como se elas se tornassem brasas dentro do meu coração e da minha mente: elas queimam, incendeiam e até parece que jamais as tivesse conhecido até aquela hora, quando a presença da Palavra de Deus me assombra. Eu gosto de como N.T. Wright[1] escreveu que a leitura da Bíblia é um dos momentos em que o Reino do Céus e a Terra se sobrepõem, como quando você acessa essa Presença.

O texto daquela manhã foi, nada mais nada menos, que o maior mandamento da Torah que Jesus nos disse para seguir: Deuteronômio 6.5, que fala sobre amar o Senhor de todo o coração, de toda a alma e de toda a força. As lágrimas começaram a rolar enquanto eu pensava no que significava o amor recomendado neste mandamento. Amar dessa forma, com toda essa entrega, amar sem reservas. Um sussuro de Deus veio sobre mim: O que esse amor significava para mim naquele dia?

Depois de um ano e três meses morando só, apenas com a visita ocasional da minha família, uma missionária de uma organização em que eu sou voluntária precisava de um lugar para passar alguns dias em São Paulo, no mês de dezembro. Por mais que eu more em um estúdio que não tem divisão de paredes e quartos, aceitei recebê-la, lembrando-me que a Bíblia sempre recomenda a prática da hospitalidade. Mas a verdade é que foi estranho receber uma pessoa com quem eu não tinha intimidade e, em alguns momentos, me senti desconfortável. Ela é muito querida, um amor de pessoa, mas o problema estava em mim. Desde que moro só, eu me acostumei a viver do meu jeito – e como isso é contraditório, pois em vários momentos eu também me sinto sozinha demais e com saudades da companhia de alguém – mas quando essa companhia veio eu a estranhei.

No sussuro de Deus daquela manhã, eu me dei conta de que a gente não pratica o amor sozinho. A gente não ama numa relação ermitã, o amor a Deus se expressa no amor às pessoas, não foi esse o segundo maior mandamento que Jesus nos deu no Novo Testamento[2]?

Na experiência de receber uma pessoa, percebi que nesses tempos morando sozinha eu tive que amar muito pouco: não houve conflitos com ninguém, não houve brigas sobre de quem seria a louça, quem usaria a máquina de lavar, quem sujou, nem desajustes, convivência, questões que geram mais conflitos com quem a gente vive… A verdade é que nesse aspecto é muito fácil morar só. E desde o começo da história Deus fala que não era bom que o homem estivesse só. Agora parece que entendo a outra dimensão dessas palavras. Parece-me que o homem também não aprenderia nada sobre o amor de Deus se ele também não tivesse que praticá-lo.

Deus, a meu ver, já expressava essa relação de amor na comunhão da Trindade – Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito Santo –; nessa comunhão profunda de intimidade e amor, quanto amor! Amor que podemos ler, podemos orar e até cantar, mas acredito que nunca vamos compreender totalmente.

As lágrimas vieram ao eu perceber o quanto ainda preciso crescer em amar como Deus nos pede para amar, como Ele nos ensina a amar, como Ele nos amou entregando o seu Filho e como continua nos convidando a amar todos os dias. As lágrimas vieram em arrependimento ao me dar conta de meu coração egoísta e mesquinho. As lágrimas vieram ao reconhecer minha dependência absoluta em Cristo: porque o Pai me amou primeiro eu posso amar hoje.

As lágrimas vieram ao perceber o convite do Pai para expressar amor mais uma vez, apreender o que isso significa no meu dia a dia. É nas relações, nos relacionamentos íntimos, nas relações complicadas, na família, na igreja, no trabalho, nas reuniões de equipe, nos conflitos na organização onde, de fato, a gente mais aprende sobre esse amor, onde a gente pratica esse amor. É nessas situações que entendemos o chamado para amar que nosso Deus nos faz.

Quem Deus está nos chamando para amar? Hoje pode ser a missionária que está na minha casa, mas amanhã, quem será?

Fico refletindo como o Pai gosta de nos ensinar por meio das coisas pequenas e tão simples. Essa lição de amor fica encravada no meu coração hoje, mas amanhã quando estiver sozinha de novo, espero e peço para que eu não me esqueça dela. Eu não sei você, mas parece que eu tenho memória curta para lições de Deus…

Fico pensando se nesse momento de mais um final de ano ainda meio pandêmico Deus quer que eu ame as pessoas à minha volta, os meus amigos e chegados – com certeza amar esses é o mais fácil. Entretanto, como será que Ele quer que eu ame as pessoas que eu desconheço –  o morador de rua, o estrangeiro, os afegãos, os birmaneses que sofrem todos esses dias?

Somente lágrimas não serão o suficiente, que elas se transformem em orações, que gerem ações.

Como vamos colocar o amor em prática? Como vamos amar?

 

Simplesmente Cristão apresenta a essência do cristianismo, tanto para recomendá-lo aos de fora como para explicá-lo aos de dentro. É claro que ser cristão no mundo de hoje é qualquer coisa, menos simples. Mas se há um tempo em que é necessário dizer, do modo mais simples possível, o que cada coisa significa, é agora.

 

 

  • Daniela Piva, aprendiz de seguidora de Jesus

Notas:

[1] Simplesmente Cristão, N. T. Wright

[2] Mateus 22:39

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