Igreja em ação

Por Daniela Piva

Atendi uma moça há algumas semanas e ficamos nos debruçando sobre essa pergunta – “Você tem para onde voltar?”

Todos nós precisamos ter segurança na vida, a segurança de saber que eu tenho uma casa, que não seria a casa física necessariamente, mas aqueles que são casa para mim. No entanto, essa não é a realidade que milhares e milhares se deparam.

Escutei mais uma história de uma mulher árabe que veio para o Brasil buscando refúgio, mas que hoje nem mais no Brasil está. Uma história cheia de sofrimentos, que faz parecer que o sofrimento dela nunca tem trégua. Toda vez que eu a escuto, sempre me faz pensar na mudança de perspectiva do que é sofrer.

O que é esse sofrimento? O que é perder tudo, construir de volta e perder de novo? A gente consegue medir essa dor?

O que é perder sua família e nunca mais ter para onde voltar? O que é viver em crise?  O que é não saber a língua, não ter recursos, não ter os mesmos “direitos”?

O que é deixar sua casa para sempre?

Queria poder dizer que esse sofrimento é só dela. Entretanto o escuto em várias narrativas, de outras mulheres, mulheres latinas, mulheres africanas, mulheres árabes…

Me lembro da fala de uma mulher síria, que me privilegiou com sua reflexão: “O que é ter saudades de sentir o cheiro do pão, da padaria no domingo, e ver seus vizinhos na fila, e saber que não existe mais essa padaria, nem esses pães e menos ainda seus vizinhos?”

Será que um dia ainda a gente vai entender isso na pele?

De verdade eu espero que não, eu espero que ninguém tenha que viver isso, mas infelizmente essa é a realidade de milhares de pessoas. Dos Rohingyas vivendo em condições precárias e excluídos nos campos de refugiados em Bangladesh aos milhares de venezuelanos, talvez morando apenas há alguns quilômetros de nossas casas hoje, aqui no Brasil, do nosso lado.

O coração corta e só de pensar as lágrimas chegam; pelo menos aqui, elas sempre chegam.
Mas só as lágrimas não são suficientes – elas talvez sejam o começo, mas só as lágrimas não mudam a vida de ninguém.

Por isso que aqueles inconformados, aqueles mobilizados com essa realidade, fazendo um questionamento maior, não ficam só no discurso, mas vão para a ação.

Ação que poderia ser de todos nós, todos nós expressando o amor de Jesus na Terra, não é?

Mas é justamente assim que ações tão importantes, e tão transformadoras como as da ONG Compassiva, fazem tanto sentido.  Se a pandemia trouxe muitas dificuldades, em uma coisa ela ajudou: foi a expandir esse alcance, com o mundo on-line de 2020 e 2021, todos os refugiados no Brasil – e não só os habitantes de São Paulo – poderiam ter acesso a aulas de português on-line, à revalidação de diploma, aos recursos emergenciais que foram disponibilizados na pandemia.

São os inconformados com a situação de pessoas refugiadas e migrantes, em nosso contexto brasileiro, que fazem pessoas se envolverem.

Foi assim também que surgiu a plataforma @withus.migrants, em que um grupo de jovens se juntou para ajudar na integração de imigrantes e refugiados de forma on-line, desde ajudando e acolhendo com informações básicas, e fornecendo atendimentos de saúde mental, até fazendo estudos bíblicos em inglês, espanhol e português.

Precisamos nos lembrar que nos primórdios do povo de Israel, eles já eram orientados por Deus a cuidar dos estrangeiros na sua terra; e sabemos que hoje ainda o cuidado com o próximo continua sendo um mandamento tão importante, mas em tantos momentos, tão negligenciado por nossa cultura e, de fato, por todos nós…

Contudo podemos mudar isso, tem pessoas que já estão mudando.

E eu e você podemos nos juntar a elas, ou até começar nossos movimentos de cuidar do estrangeiro, do migrante e do refugiado que encontramos em nossos caminhos, igrejas, trabalhos etc…

Talvez com a dinâmica on-line você se pergunte: “mas como eu posso me envolver?”

Há muitos jeitos, muitas formas, começando pelas lágrimas; que elas se transformem em compaixão, que virem orações, que se tornem ação. Ação de doar. Doar o que você tiver, doar o que você puder, doar o seu tempo, doar a sua voz, doar o seu amor.  E se envolver em discussões políticas, em questionar, em falar sobre isso, para mobilizar pessoas.

A verdade é que se compartilhássemos mais dos nossos recursos, sejam eles financeiros ou não, poderíamos ajudar muitos estrangeiros que aqui estão.

Vamos nos unir a essa causa? Vamos nos tornar o lugar onde essas pessoas tenham para onde voltar?

Que elas vejam Jesus em nós e assim o escolham como casa também.

Você pode doar seus recursos, móveis, brinquedos, tempo, entre outras coisas entrando em contato com o pessoal da Compassiva.

Você pode se tornar um voluntário, um mobilizador ou parte da equipe da @withus.migrants mandando um direct no instagram da organização. With Us é uma organização de serviço e evangelização para imigrantes e refugiados. Ela faz parte do Ministérios DMM Imigrantes que tem a visão de ver um movimento de discípulos de Jesus entre os imigrantes do Brasil.

 

  • Daniela Piva, psicóloga já atendeu e hoje ainda atende pessoas permeadas pelo contexto de migração e refúgio.

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