Por Jean Francesco

A cruz de Cristo se transformou num acessório de moda cristã. Ter uma cruz no peito não causa mais nenhum perigo. É uma simbologia lindíssima que foi esvaziada de seu poder. Isso está muito errado.

Desde o início, a cruz foi vista como uma ofensa, um escândalo, um verdadeiro escárnio público. Por causa disso, ela deveria mudar toda a nossa forma de ver a vida: como enxergamos o sofrimento, a vergonha, a hostilidade, a violência e a crueldade neste mundo. Mas, infelizmente, a cruz não nos escandaliza mais.

A banalização da cruz tem produzido o efeito oposto que ela mesma propõe: uma vida confortável. Nos tornamos uma igreja acostumada com a vida confortável. Perdemos de vista que seguir a Jesus é algo perigoso. Para os primeiros discípulos, ser cristão era nada mais nada menos que por em risco a própria vida.

A tragédia de Suzano me fez voltar para o Calvário e me perguntar: quais são as implicações de acreditarmos num Cristo crucificado? Quanto consolo encontrei tentando responder a essa pergunta! A cruz me fez relembrar que Deus assumiu a vergonha do mundo para si mesmo; que Deus assumiu a violência do mundo para si mesmo; que Deus assumiu a injustiça do mundo para si mesmo; que Deus levou em seus ombros os nossos pecados e a morte que os acompanhava de uma vez por todas. Mas a mensagem da cruz não para por aqui, e nem deveria.

Abraçar a cruz significa crer que os injustiçados, hostilizados, desprezados, desesperançados e pobres pecadores como eu podem encontrar um abraço divino enquanto olham para o dor de seu Salvador. Nela vemos um Deus-Homem moído e pisoteado de braços abertos para curar a nossa dor, pois ele mesmo já a suportou em nosso lugar. Ele também sabe o que é sofrer.

Neste momento de tanta dor e indignação devido ao jovem que decidiu por fim à vida de tantos outros colegas naquela escola em Suzano, meu único consolo é olhar para a cruz e colocar minha esperança nela; sim, ainda que pareça uma ilusão, eu creio na cruz de Jesus Cristo. Na paixão dele eu consigo enxergar o quanto Deus se importa com os que sofrem na medida em que Ele decide experimentá-la em carne e osso. Mas Deus não para por aqui.

Ao experimentar a nossa agonia, Cristo a vence. A cruz de Cristo não é apenas um exemplo, é vitória. Além de consolo, a cruz de Cristo é encorajamento, pois assim como a morte não foi a ultima palavra para Cristo, não será para nós. A narrativa da paixão me motiva a ter paciência de que o terceiro dia está para chegar. Aquilo que a princípio parecia uma derrota, se converteu na vitória de Cristo sobre o pecado, a morte e todos os poderes do mal.

Eu creio que a ressurreição é a última palavra. Se não tivesse a cruz, não conseguiria conviver com tamanha dor. E porque também tenho a ressurreição, recebo forças para seguir a diante, olhando para a cruz vazia, certo de que o último domingo está mais perto do que nunca.

  • Jean Francesco é pastor presbiteriano, autor do livro “O Significado do Namoro” e doutorando em Teologia pelo Calvin Theological Seminary.

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