Por Maurício Avoletta Júnior 

Gosto muito de ler, desde pequeno, mas sempre tive dificuldades com poesia. Eu costumava acreditar que essa dificuldade era apenas por não gostar do gênero, porém, a real dificuldade – embora eu não admitisse – era por não saber como ler poesia corretamente.

Diferentemente do que a maioria das pessoas acredita, ler poesia não é tão simples. Na realidade, nenhuma leitura é simples. Há uma forma específica de se aproximar de cada texto, e isso deve ser respeitado. Demorei mais do que eu gostaria para aprender a ler poesia corretamente. Não simplesmente ler aquelas palavras usadas muitas vezes de um jeito completamente diferente do usual, mas ler, reler e treler o poema. Depois disso, ler em voz alta, ler andando, ler sentado e continuar a ler até que o poema comece a ler você. Muitas vezes você ficará semanas lendo um mesmo poema, como fiz – e ainda faço – com “Os Homens Ocos”, do T.S. Eliot, por exemplo. Toda leitura é uma nova leitura.

Embora hoje eu possa dizer que já aprendi a ler poesia, demorou um pouco para que o gosto por esse tipo de leitura tornasse um hábito. Pode parecer bobo e até mesmo clichê, mas só consegui dizer que realmente passei a ler poesia após o início do meu namoro. Assim como todas as pessoas – acredito eu –, passei a ficar mais poético quando comecei a namorar. Tendo a acreditar que a paixão desperta em nós esse olhar lírico para enxergar a realidade. Vemos poesia mesmo quando todos conseguem enxergar apenas caos.

As lentes da poesia nos permitem perceber novas cores e novos significados para velhas palavras. Curiosamente, quando passei a caminhar com a minha namorada e minha melhor amiga, eu me dei conta de que mulheres – alerta de clichê extremamente brega (!!!) – são como poesias. Elas não podem ser lidas com desatenção. Por serem poesias, necessitam de uma leitura atenta. Cada palavra revela algo diferente. Nunca o mesmo significado, nunca o convencional.

Cada uma delas apresenta nuances próprias. Cada mulher, uma lírica diferente. Eu não entendi minha namorada na primeira leitura e tenho plena consciência de que nem depois do casamento a entenderei completamente. Entender uma mulher e entender poesia é quase a mesma coisa. Embora ambas apresentem certa dificuldade para o entendimento, quando decifradas, evidenciam uma beleza, até então, oculta.

São Paulo, em sua carta à Igreja de Éfeso, diz que o homem deve ser para a mulher um reflexo do que Cristo é para a Igreja. Cristo deu sua vida por amor à Igreja e a Igreja partilha de seu sofrimento. Usando dessa mesma ideia, podemos dizer que a mulher é para o homem o que o poema é para o crítico literário.

Ainda que o crítico tenha lido todos os teóricos do mundo e tenha todo o conhecimento de teoria literária disponível no mundo, sem a poesia de nada vale seu trabalho. A poesia é bela sem necessitar de um crítico. E o crítico ainda é um erudito, mesmo que sem a poesia. Todavia, o crítico perde parte essencial de seu trabalho sem a poesia e a poesia deixa de evidenciar parte de sua beleza sem o crítico adequado.

Em sua “Suma Theológica”, ao falar da relação entre a mulher e o homem, Santo Tomás de Aquino, diz algo óbvio – e, de fato, esse é o papel dos verdadeiros gênios –: que o homem e a mulher não são um maior e outro menor, mas que possuem naturezas complementares. A mulher tem papéis que são dela e que não cabem ao homem, e o contrário é igualmente verdadeiro. Uma mulher sábia, têm a capacidade de trazer a tona o melhor de um homem, assim como a boa poesia.

Quando lemos boa poesia, temos a correta impressão de que, na verdade, é ela quem nos está lendo e tirando o melhor de nós. Ter uma mulher caminhando com você, seja como amiga, namorada, esposa, ou todas essas opções juntas é, constantemente, andar com poesia ao lado, te lendo e te moldando à sua melhor forma, aquela planejada por Deus. Quem tem o privilégio de caminhar com uma mulher, tem o privilégio de caminhar com uma escultora.

Há aquela frase famosa – também absurdamente clichê – que diz que Deus criou primeiro o homem porque, quando finalmente criou a mulher, ele havia aperfeiçoado a técnica. Desacredito dessa frase, não apenas pelas gotas de heresia, mas, principalmente, pelo péssimo gosto estético que ela apresenta. Deus criou o homem e depois a mulher porque primeiro veio aquele que sustenta e depois aquela que aperfeiçoa. O homem é a cabeça, a imagem de Cristo, e a mulher a Igreja, a imagem do corpo de Cristo.

Todo nós, enquanto Igreja nesse teodrama, estamos no papel de noiva eterna do Rei dos Reis e isso deveria levar-nos a uma posição de respeito um pouco maior diante das mulheres. Nós, a Igreja amada do Nosso Senhor, sofremos e ainda sofreremos as dores de uma esposa que cuida de muitos filhos; alguns fiéis, outros ingratos e muitos que nem são seus, mas que, por ordem de seu amado marido, cuida deles até que Ele venha nos buscar. As mulheres não só vivem essa dimensão universal, mas também uma dimensão particular da feminilidade. Sofrem enquanto membros da noiva de Cristo, enquanto companheiras ou enquanto celibatárias, em alguns casos.

O Cristianismo, desde sua origem no antigo judaísmo, na sua expansão na Igreja Primitiva e na Idade Média, até sua gloriosa consumação na Cidade de Deus, conforme descrita no livro da Revelação de São João, sempre atribuiu às mulheres os papéis mais significativos. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, assim como por uma mulher entrou o pecado no mundo, também por uma mulher esse pecado teve seu fim.

Graças a Deus fomos agraciados com Ester, Rute, Ana, a virgem Maria, Santa Mônica, Santa Tereza de Ávila, Santa Joana Darc, Flannery OConnor, Adélia Prado, Edith Stein e tantas outras que têm sido influentes onde muitos diziam que elas não seriam nada. Graças a Deus elas, assim como os grandes poemas, têm lido os problemas da humanidade e auxiliado nas soluções. Graças a Deus por vocês, mulheres!

  • Maurício Avoletta Junior, 23 anos. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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