Por Lucas Gonçalves

Já estamos em janeiro e o Natal não é mais pauta das nossas leituras, conversas e debates, eu sei. As decorações já foram desmontadas e os restos infindáveis da Ceia encontraram seu fatídico fim. Porém, sem demora a Páscoa chegará, trazendo consigo o mesmo debate anual, do qual o Natal também é alvo e protagonista: a influência pagã em ambas as festas.

Visto que nos encontramos num período, por assim dizer, de entressafra das grandes comemorações cristãs, creio que seja um momento menos passional e, portanto, propício para pensarmos sobre o tema.

Para muitas pessoas, essa influência pagã é um grande problema e coloca em dúvida a credibilidade das comemorações cristãs. Ao meu ver, o que se dá é justamente o oposto. Saber que os nórdicos comemoravam o Yule em dezembro, por exemplo, ou que os germânicos celebravam festas à deusa Eostre por volta de março/abril, me traz ainda mais convicção em comemorar, respectivamente, o nascimento de Cristo ou o seu sacrifício.

Perceba, nessas duas referidas festas, que não são exemplos únicos, já que diversos outros povos antigos também as comemoravam, quais os pontos que estão em questão.

Muitos povos, principalmente os que se localizavam no hemisfério norte do planeta, passavam (e ainda passam, na verdade) longos períodos de escuridão durante o inverno. É claro que isso se desdobrava em muitas dificuldades e desafios. Porém, em um determinado momento, as trevas da noite eram vencidas pela luz do dia. Isto é, o solstício de inverno chegava, por volta do dia 25 de dezembro, e, com ele, o cumprimento da promessa de dias mais longos: a luz subjugara as trevas; a humanidade fora liberta da escuridão.

Continuando o exercício, agora se imagine experimentando um longo e violento inverno. Suas plantações estão mortas, assim como os seus animais, a água é escassa e sobreviver é realmente um grande desafio. Porém, por volta do final de março e começo de abril, a primavera surge, trazendo consigo a fertilidade, a possibilidade tangível de vida. As hortas renascem, frutas e flores surgem por todos os cantos e os animais se reproduzem: a abundância subjugando a escassez; a humanidade sendo liberta da morte.

C.S. Lewis e as sombras do cristianismo

J.R.R. Tolkien, um cristão fervoroso, via no cristianismo o mito real. No decorrer de “Sobre Contos de Fadas” lemos que enquanto as demais histórias, lendas e mitos seriam projeções da realidade, a fé cristã é o mito que aconteceu no tempo e no espaço. Segundo o professor:

Os Evangelhos contêm um conto de fadas, ou uma história de tipo maior que engloba toda a essência dos contos de fadas. Contêm muitas maravilhas – peculiarmente artísticas, belas e emocionantes, “míticas” no seu significado perfeito e encerrado em si mesmo; e entre as maravilhas está a maior e mais completa eucatástrofe concebível. Mas essa história entrou para a História e o mundo primário; o desejo e a aspiração da subcriação foram elevados ao cumprimento da Criação. […] A Lenda e a História encontraram-se e se fundiram. (2013, p. 69-70).

Em analogia, o cristianismo seria o objeto sólido que se projeta como sombra nas demais religiões e histórias. Foi, em partes, com esse argumento que Tolkien persuadiu o seu igualmente famoso amigo, C.S. Lewis, a abraçar o cristianismo.

Em “Surpreendido pela Alegria” vemos os efeitos desse argumento. Lewis, ao relatar o seu processo de conversão, conta como, dentre tantas religiões, escolheu seguir o cristianismo. Lewis escreveu:

A questão já não era encontrar a única religião simplesmente verdadeira entre mil religiões simplesmente falsas. Era, antes: “Onde a religião atingiu a verdadeira maturidade? Onde as sugestões de todo paganismo foram cumpridas, se é que foram?”. (2015, p. 209).

Basicamente, ele não buscou a crença “verdadeira”, como se as outras fossem falsas. Ele procurou por uma fé madura; uma fé que cumprisse plenamente as expectativas das demais.

Graça comum e a nossa natureza

A questão em que me prendo quando reflito sobre isso gira em torno de dois eixos principais: Salmo 19 e Romanos 1. A criação revela o seu Criador, e elementos das verdades divinas estão expostas diante de todos os olhos. Mesmo aqueles povos que não olharam diretamente para Cristo, mas viram apenas as sombras da verdade, possuem uma profunda noção de que há um mal no mundo e comemoram quando a luz vence as trevas.

E por que será que as trevas nos incomodam tanto a ponto de comemorarmos a sua derrota? Por que a viabilidade da vida deve ser tão festejada? Bom, Gênesis nos diz que fomos feitos seres viventes segundo a imagem de Deus; por sua vez, a primeira carta de João nos diz que Deus é Luz. Por lógica simples, podemos inferir que as trevas nos incomodam por que fomos feitos para viver a Luz de Deus, e não para as trevas da morte de nossa rebelião caprichosa, que nos afastou dele.

A dor, a tristeza, a doença e a morte nos são estranhas pois são contrárias à nossa natureza que, mesmo sendo corrompida pelo pecado, é derivada da divina. Não funcionamos nas trevas por que Deus é Luz. Não fomos feitos para morrermos na escuridão; fomos feitos para vivermos na luz de Deus. Quando a Luz vence as Trevas, portanto, comemoramos. Quando a vida se torna possível, festejamos.

Natal e Páscoa, enfim

O Natal, assim como a Páscoa, possuem elementos e influências pagãs em sua composição, porém isso não é de forma alguma demérito para as festas cristãs, visto que ambas são o cumprimento pleno da maior expectativa de toda a humanidade: o fim da escuridão, da dor, da tristeza e da morte.

Assim como os nórdicos e tantos outros povos comemoravam o fim das noites longas com a chegada do solstício de inverno, nós comemoramos o fim das nossas trevas com a chegada da Luz de Cristo. Igualmente, assim como os germânicos e tantos outros festejavam a fertilidade de Eostre, nós festejamos, na Páscoa, a possibilidade de vida eterna que o sacrifício perfeito de Cristo nos proporcionou.

Existem elementos pagãos nas comemorações cristãs? Sim, é claro que sim. Todavia, isso se deve ao fato de que o anseio que o cristianismo sacia é inerente ao ser humano, independentemente de sua época ou localização. O cristianismo é o mito que se tornou História para redimir todos os demais mitos humanos.

Jesus Cristo, o verdadeiro “deus-Sol”, o verdadeiro “deus da fertilidade”, encarnou e nasceu em um lugar específico no tempo e no espaço; ele, historicamente, viveu, morreu e ressuscitou em carne e osso. Por conta desses fatos, toda a criação também renasce e uma nova realidade se torna disponível a nós. De fato, a luz divina sobrepuja as nossas trevas, a vida plena subjuga a morte, e essas coisas, sem dúvida alguma, devem ser muito comemoradas.

  • Lucas Gonçalves, 29 anos. Seminarista na Igreja Presbiteriana Vinhedo. Formado em Publicidade e Propaganda e em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Se dedica ao estudo de cosmovisão cristã aplicada à literatura fantástica

REFERÊNCIAS:

LEWIS, C.S. Surpreendido pela Alegria. Viçosa, MG: Ultimato, 2015.

TOLKIEN, J.R.R. Árvore e Folha. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2013.

 

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