Paulo Humaitá tem 31 anos, é graduado em economia, cofundador e CEO da Bluefields, uma aceleradora de startups com foco em tecnologia e impacto social. Nessa organização há um diferencial: ela incentiva modelos de negócio que promovam o reino de Deus e os valores cristãos.

Aqui você lê a entrevista completa com Paulo, o convidado da seção Altos Papos da edição 375 da revista Ultimato, realizada pelo Conselho Editorial Jovem (CEJ). Você podem também encontrar a Bluefields no Facebook, no Instagram, no blog, e saber mais sobre o próximo programa para empreendedores da aceleradora, que acontece em fevereiro, o Sparks.

 

CEJ: Como surgiu a ideia de começar uma aceleradora de Startups?

Paulo: Tudo começou quando fui à Passion Conference nos EUA em 2014 e senti um claro direcionamento de Deus para fazer uma transição de carreira. Então comecei a mudar do mundo corporativo para o mundo das startups. Na época estava trabalhando no setor de biocombustíveis, tentando levantar o mercado de etanol celulósico na América Latina. Comecei a me reconectar com o ecossistema de inovação e conheci alguns empreendedores da igreja que precisavam de ajuda.

Nesse meio tempo muita coisa aconteceu: entrei no seminário à noite para estudar missiologia, participei do Vocare, fiz o curso Perspectivas e outras pessoas com o mesmo propósito começaram a se juntar. E daí meio que naturalmente no final de 2015, quando estava deixando meu emprego para ficar 100% no projeto, surgiu a ideia da aceleradora, que foi ficando mais clara com o tempo.

Qual é o papel de uma aceleradora?

Uma aceleradora existe para ajudar empreendedores no seu sonho de fazer acontecer, a sair do ponto A para o ponto B, e fazer essa jornada muito mais rápida do que se ele estivesse sozinho. A aceleração é como se fosse um laboratório de ciências, onde negócios são testados e aprimorados a partir de tentativa e erro dos experimentos.

No caso da Bluefields, temos três principais soluções: 1) BAM Sparks, que transforma ideias em negócios validados e com vendas em apenas algumas semanas; 2) The Big BAM!, que é o programa de aceleração de cinco meses para startups de tecnologia e impacto socioambiental em fase de crescimento; e o 3) Inova Corp, que colabora ajudando grandes empresas a se aproximarem do ecossistema de inovação e dialogar com as startups.

Por que colaborar com o desenvolvimento de outras empresas?

Para aumentar o impacto e ajudar na criação de um ecossistema de startups do Reino. Precisamos de mais iniciativas de empreendedores engajados na missão de Deus porque Ele também chama empreendedores, que muitas vezes não entendem esse chamado porque não parece ser algo espiritual como ser pastor ou missionário.

O chamado para empreender é algo desvalorizado na igreja, mas imagine se os empreendedores e investidores de Airbnb, Google, Facebook ou Uber fossem cristãos comprometidos com missões globais, qual o seria o impacto? E não somente de doações, mas de realmente usar essas plataformas como oportunidades para o avanço do Reino.

Percebemos que empreendedores não querem mais participar da missão de Deus assinando cheques somente, eles querem atuar em seus campos missionários também. Deus está tocando o coração de muitos e precisamos da ajuda de pastores e líderes nesse sentido. A igreja brasileira precisa pregar mais sobre vocação, precisamos redefinir o que missões significa para nossa realidade atual.

Vocês já tiveram alguma experiência marcante junto alguma startup?

Paulo com a equipe da Bluefields.

Sim, muitas. Temos casos de startups que conseguiram levantar investimento, expandir as operações e estão impactando a vida de muita gente, mesmo que em pequenas estruturas por enquanto. Também já tivemos empreendedores ateus e agnósticos no nosso programa de aceleração e foram experiências bem interessantes.

As pessoas estão buscando por propósito e nós somos claros nos nossos valores durante a aceleração, sempre com respeito e em reflexões colaborativas. E isso acaba sendo muito bem recebido de forma por todos os empreendedores.

Alguma experiência frustrante? Qual foi o aprendizado?

Sim, várias também. Dos primeiros 20 negócios que tentamos ajudar em 2016, 19 falharam. Aprendemos muita coisa no processo, principalmente no que tange a “o que não fazer”.

Vocês atuam apenas no Brasil?

Mais ou menos. Temos uma forte parceria com a Sinapis, uma aceleradora que é referência global e já acelerou mais de mil negócios em países em desenvolvimento. Estão em países na África como Quênia, Gana e Uganda. Nós adaptamos o método da Sinapis para a realidade brasileira e utilizamos em boa parte dos nossos programas com as startups.

Fora a Bluefields, temos outras organizações atuantes no Brasil que estão criando juntos e de forma complementar esse ecossistema brasileiro de startups do Reino: Lightup Movement (é um startup weekend mas com foco no Reino, para criação de negócios de tecnologia a impacto), GoldStreet Venture Capital (fundo de investimento para startups do Reino) e Bendito Coworking (espaço no coração empreendedor de São Paulo que tem atuado fortemente no fomento e colaboração entre os projetos de impacto e empreendedores do Reino).

Também apoiamos a startup Open Taste, que atua com negócios de refugiados e imigrantes de diversas nacionalidades em São Paulo, atualmente no setor de gastronomia.

Como e quando você começou a se interessar por empreendedorismo?

Desde quando jogava Championship Manager e ficava 99% do tempo negociando jogadores ao invés de me interessar pelos campeonatos em si. Depois disso, assim que entrei na faculdade, em 2005, e participei por três anos de uma empresa júnior que colaborava com as primeiras startups de tecnologia da incubadora da universidade (UEL).

Depois fui contratado por uma startup de tecnologia onde fiquei por quase 2 anos, mas depois me especializei em estratégia e finanças e acho que algumas características empreendedoras esfriaram. Mas elas queriam voltar com tudo enquanto atuava com o mercado de biocombustíveis, e voltaram mesmo no início da Bluefields.

Na sua opinião o Brasil tem uma cultura empreendedora? Por que empreender onde a “melhor saída” é sempre um concurso público?  

Na minha opinião o Brasil está longe ainda de estar uma cultura empreendedora e de inovação. Pelos dados da Heritage Foundation, nós não vivemos em um país livre, economicamente falando. Toda essa interferência do governo prejudica muito quem empreende. Se houver mais liberdade econômica, teremos mais gente empreendendo, o que significa mais empregos, mais renda e consumo, e a economia pode girar melhor.

O Brasil tem um baita potencial empreendedor ainda não-explorado. Precisamos de mais incentivos para quem quer arriscar. Hoje em dia a pessoa precisa ser muito louca para empreender no Brasil e pouquíssimas pessoas têm essa coragem.

Como empresas cristãs podem colaborar com o fortalecimento do Reino de Deus?

Bom, eu não acredito em empresas cristãs (CNPJs), mas sim em empreendedores cristãos (CPFs) em missão com o nosso Mestre. Mas as empresas podem ser sim estratégias para expansão do Reino.

Quando o empreendedor cristão realmente entende que tudo é de Deus, inclusive o negócio, e que ele é um empreendedor em missão, a sua motivação muda e suas ações também. É o que chamamos de Kingdom Business (Negócio do Reino), e a partir daí muita coisa pode acontecer.

Atualmente temos empresas grandes no Brasil com essa estratégia e que estão fazendo uma diferença incrível, mudando cidades e apresentando o Evangelho aos menos alcançados, por exemplo até com projetos de plantação de igrejas e ministérios no sertão brasileiro.

Como um empreendedor cristão pode aumentar o impacto social e transformador de sua empresa?

Essa é uma pergunta muito simples, mas que exige um pouco de contexto. Muitas pessoas esperam que aumentar o impacto seja um conjunto de ações, como se fosse um checklist de atividades, mas não é bem assim.

Nos programas da Bluefields, além de toda parte técnica e desenvolvimento das startups, temos um modelo que chamamos de Kingdom Business framework. Isso começa com a nossa definição de um Kingdom Business como “uma empresa que traz impacto positivo para o mundo, gerida por um líder espiritualmente preparado que usa o seu tempo, talento e dinheiro para satisfazer as necessidades espirituais e físicas das pessoas”.

Dividimos o framework em sete partes e gradualmente o empreendedor vai desenvolvendo o seu Kingdom Business plan ao longo do programa, ou seja, um plano prático de como ele vai usar o seu negócio para glória de Deus, inclusive em como vai impactar socialmente e ambientalmente a comunidade.

Os planos ficam muito bons e o framework ajuda muito, principalmente como direcionamento e discipulado. Mas, no fim do dia, o que vale mesmo é a disposição sacrificial, coragem e obediência do empreendedor em realmente aplicar tudo aquilo seguindo os princípios bíblicos e a voz de Deus.

Qual é o conceito de “Business as Mission”?

Business as Mission é um conceito bastante difundido hoje no mundo, especialmente pelo Movimento Lausanne. Missões globais avançaram muito nos últimos séculos, mas os países que “sobraram” estão muito fechados aos modelos de missão predominantes nos últimos 300 anos. Portanto, negócios é uma das formas mais efetivas atualmente para entrar, permanecer em longo prazo e alcançar pessoas nesses países menos-alcançados.

Uma empresa BaM é um Kingdom Business, mas que atua em um ambiente transcultural, com a intencionalidade de alcançar os menos alcançados, especialmente muçulmanos, hindus e budistas. Atualmente já existem redes de centenas de negócios espalhados em países fechados ao Evangelho, onde empreendedores estão expressando sua fé a partir de relacionamentos feitos através dos seus negócios.

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