Por Daniel Theodoro

Sarah Glidden é uma jovem jornalista e talentosa quadrinista nascida em Boston (EUA). Descendente de judeus, ela sempre se sentiu atraída pelo histórico conflito envolvendo israelenses e palestinos. Em seu primeiro livro “How to Understand Israel in 60 days or less” (“Como entender Israel em 60 dias ou menos”, em tradução livre), lançado em 2010, Sarah utiliza-se do jornalismo em quadrinhos para compartilhar com o público sua experiência de participar de uma viagem exploratória à Terra Santa.

A aventura começa pelo aeroporto de Tel Aviv. Lá ela se junta a um grupo de cerca de trinta jovens judeus de diferentes nacionalidades que também tiveram a viagem exploratória financiada por entidades vinculadas à preservação da memória e da soberania israelense. Orientada por Gil, guia turístico da excursão, durante todo tempo Glidden logo percebe que a visita é, na verdade, um bem organizado tour persuasivo cujo objetivo é incutir na mente do público a necessidade da existência de um Estado Judeu no Oriente Médio.

Em alguns momentos da longa narrativa em quadrinhos, fica evidente a frustração de Glidden diante do discurso pró-Israel. Por exemplo, em visita a Massada, um refúgio montanhoso para judeus no século 1, Sarah lembra ao leitor que o cerco do exército romano durou três meses, segundo texto do historiador Flávio Josefo. Contudo, para Gil e para o novo Estado de Israel, a ofensiva militar que resultou no suicídio em massa de 900 judeus durou três anos. Uma discrepância temporal significativa que revela, segundo Glidden, o desejo de que a história soe mais “impressionante” a favor de Israel, ampliando o sentimento de heroísmo tão presente no movimento sionista, iniciado por Theodor Herzl em 1895.

Com o avançar da viagem, Glidden encontra equilíbrio no discurso hebreu e parece entender a importância da fundação do Estado de Israel quando visita Yad Vashem, o memorial israelense às vítimas do Holocausto. Lá ela conclui que a criação de uma nação para o povo judeu em 1948 foi a resposta possível (talvez não a melhor) que o mundo encontrou para combater o extermínio de judeus promovido pelo partido nazista.

Glidden também participa de uma reunião do Fórum de Famílias, grupo formado por israelenses e palestinos que perderam parentes no conflito árabe-israelense. No encontro, ela descobre um movimento apartidário que busca achar uma saída equilibrada para o conflito. Assim a autora sugere ao leitor que a solução não está em propaganda de guerra pró-israel ou pró-palestina, mas em um “movimento pró-paz”, uma iniciativa que exige diálogo e altruísmo.

No final, “Como entender Israel em 60 dias ou menos” impressiona por dois motivos. Primeiro porque consolida o gênero Jornalismo em Quadrinhos – estilo fundado pelo jornalista e quadrinista Joe Sacco em 1996 – como uma preciosa ferramenta e boa fonte de informação para quem busca compreender conflitos bélicos históricos, sem filtros midiáticos. Em segundo lugar, porque convida o leitor a aventurar-se no difícil caminho da busca pela verdade em temas que envolvem religião e política.

Em tempo, a grande-reportagem ilustrada de Glidden chama atenção para o fato de que o conflito árabe-israelense se transformou também numa batalha de lobby religioso. Glidden é severa crítica aos evangélicos fundamentalistas que pouco contribuem para o processo de paz no Oriente Médio. Segundo Glidden, “grupos evangélicos fundamentalistas são hoje os principais doadores a organizações sionistas e a lobbies de judeus americanos”.

A jornalista revela ainda que, após a primeira Intifada em 1987, o conflito assumiu um caráter de guerra midiática, sendo que países do Ocidente absorvem mais facilmente a propaganda a favor de Israel – país cuja tecnologia militar-bélica é muito superior ao aparato Palestino. Assim grande parte das nações do Ocidente concluem equivocadamente que o povo árabe é um entrave para o desenvolvimento judeu na Palestina, e que países a favor da formação de um Estado Palestino são inimigos de Israel.

“Como entender Israel em 60 dias ou menos” é uma boa sugestão de literatura para quem procura elevar o nível do complexo diálogo envolvendo árabes e israelenses. Trata-se de boa fonte de informação para quem busca olhar para o conflito de maneira isenta e equilibrada, sem viés geopolítico unilateral, sem o equívoco de uma leitura teológica que exclui os árabes, um povo também alvo da graça de Deus na nova dispensação em Jesus Cristo.

  • Daniel Theodoro, 33 anos. Cristão em reforma, casado com a Fernanda. Formado em Jornalismo e Letras.

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