Por Anna Gabriella Moreira

Todos nós temos sonhos, de todos os tipos, cores, tamanhos e jeitos. Para muitos jovens, um curso superior é um grande sonho e o trajeto para alcançá-lo é longo. Requer esforço e dedicação. Ele também chega a ser torturante. O jovem deve ser capaz de entender sua vocação, decidir dentre tantas opções atraentes um curso como opção A, um outro como opção B, e por aí vai. Sem contar a falta de compreensão da realidade do mercado, assim como das áreas de interesse. E não se esquecendo da pressão e/ou sugestões dos pais “Ah, você poderia fazer isso, porque dá dinheiro. Não faça aquilo, é complicado”. Mas ainda sim, muitos conseguem alcançar esse objetivo.

Em minha vida, desde pequena eu tinha o sonho de ser dentista, mas foi a partir do 1º ano do Ensino Médio que comecei a sonhar em cursar Letras. O amor pela linguagem, pela literatura e principalmente pelo ensino sempre me moveu nessa escolha. Diferente da maioria das pessoas, escolhi uma profissão bem desafiadora e infelizmente, pouquíssimo valorizada. Algumas confirmações me revelavam (talvez) uma aptidão para o ensino. Um exemplo foi quando expliquei uma matéria para uma colega de classe e ela compreendeu, se sentindo satisfeita e dizendo que eu poderia ser professora. Se eu fiquei feliz? Essa e mais outras confirmações me deram um gás necessário para correr atrás daquele sonho que crescia cada vez mais no meu coração.

Mas se engana quem pensa que passei de primeira. Foi na segunda tentativa, em 2012 que consegui passar como primeira excedente no curso na UFMG, mas comecei a cursar a faculdade mesmo no segundo período de 2013. Isso porque em 2012 eu ainda morava em Caratinga e cursava técnico em Rede de Computadores e trabalhava como auxiliar de escritório e com isso, decidi trancar um ano.

Lembro-me muito bem do conflito que vivi assim que recebi a chamada pra fazer a matrícula. Meu sonho de passar em Letras havia se realizado! Eu não sabia se seguia o conselho do meu pai, de que um curso técnico era mais garantia de um emprego e dinheiro rápido ou se ouvia meu coração e todas as confirmações e incentivos que tive para lecionar. Talento para lidar com computadores eu já sabia que não tinha.

O fato é que orei e chorei muito diante dessa encruzilhada, até que veio a solução: fazer a matrícula e trancar dois semestres para continuar o curso técnico nesse meio tempo e pedir transferência do técnico para BH no segundo semestre de 2013. E foi isso que fiz, exceto na parte de pedir transferência do técnico, porque em BH não tinha o módulo que eu precisava para concluir o curso. Não fiquei nada feliz, né?

E enquanto muitos jovens com 20 anos já estavam na metade do curso superior, eu estava iniciando o meu. Pra mim significava que seria um desafio ser sustentada por meus pais durante quatro ou cinco anos para realizar um curso em uma universidade federal, o que já é puxado. O desafio também consistia em enfrentar sozinha uma nova rotina em uma cidade grande.

Ao iniciar o curso, uma das primeiras coisas que fiz questão foi participar da Aliança Bíblica Universitária, mais conhecida como ABU. Era uma das formas de expressar a gratidão a Deus pelo fato de estar ali na faculdade. Eu já havia ouvido falar da ABU através da minha mãe e de outros conhecidos que haviam participado. Durante o primeiro ano, eu apenas ia aos núcleos. Aos poucos fui me envolvendo, servindo mais com o grupo e compreendendo a dimensão do trabalho desse movimento estudantil. Envolver-me com a ABU me ajudou a crescer mais com Deus e entender que é possível fazer missões sem viajar pra fora, e que a missão deve ser em todo tempo e em qualquer lugar. Este é o chamado de Cristo (Mc 16.15). Além de tudo, hoje também compreendo que até mesmo a profissão que escolhi seguir será uma forma de servir ao Senhor.

Antes disso tudo, aos 13 anos, tive um despertamento missionário. A partir dali, o amor por missões (urbanas, nacionais, transculturais, etc) cresceu em meu coração. Dentro da universidade, a oportunidade de se envolver com isso se torna um pouco delimitada. Com a ABU pude ver um outro contexto: a missão estudantil. Eis um assunto que precisa ser trabalhado com os adolescentes e jovens nas igrejas. E trabalhar isso vai além de incentivá-los a servirem na missão estudantil, mas de promover atividades que visem ajudar a estruturá-los sua fé em Cristo para servir na faculdade (que, no caso, é seu campo missionário) em nome Dele.

É curioso pensar que o amor por missões veio antes do amor pela educação, e me sinto muito feliz em ver que ambas as áreas são completas. Mais engraçado ainda é notar que em qualquer área profissional é possível falar do amor de Jesus. Qualquer um pode ser usado, em qualquer tempo e lugar. Eis aí o evangelho integral. Se você anda em dúvida sobre o que fazer depois que passar na universidade, tenha em mente que não vai ser nada fácil.

Uma rotina puxada, professores difíceis, colegas de classe de todos os tipos. Mas eis que te digo “não temas, coleguinha!”. É importante passar por tudo isso para que você se fortaleça, e possa honrar o nome Dele em meio às dificuldades e fraquezas da sua vida. O melhor de tudo é quando você passa esse trajeto acadêmico ao lado de queridos amigos que compartilham da mesma fé que você, tendo o mesmo objetivo no coração: “estudante alcançando estudante” (o lema da ABU).

Não que eu seja parâmetro pra alguém, mas que, assim como procurei fazer, espero mesmo que cada jovem cristão mantenha seus sonhos aos pés de Jesus e Sua plena vontade.  Estamos confiantes na vontade Dele ou nos nossos desejos tortuosos? Às vezes, além de sondar quais são nossos desejos e como eles devem ser alcançados, devemos dar ouvidos ao mundo: o que ele diz sobre você e suas aptidões? O que o mundo necessita e onde você é claramente útil, de modo que também possa servir a Cristo?

É refletindo assim, que continuo caminhando e tendo mais certeza do lugar ao qual pertenço aqui na terra. Nós também precisamos ter discernimento para dar o próximo passo, o que por vezes custa alto (no meu caso, ainda não ter emprego por causa da faculdade). Antes eu não imaginava como e pra onde o Senhor queria me levar (na verdade, até agora não faço ideia, sinto informar), mas a paz em topar esse desafio tem me dado ânimo pra continuar.

Pois bem, você se pergunta “Passei no vestibular, mas e agora?”. Lembre-se que desafios são tão necessários assim como os abraços que nos confortam. E que nossas escolhas, antes de qualquer coisa, estejam firmadas sob a vontade do Pai. Sem temer, continuemos a marchar, ouvindo Sua voz, nos guiando e dando coragem e paz durante a caminhada. O “depois” é só um resultado de como realizamos o hoje.

  • Anna Gabriella Moreira, 24 anos. Uma carioca de sangue mas mineira de alma. Amante do bom e velho rock e dos dramas da sétima arte. Ama o sossego, uma boa conversa e sorrir com os queridos amigos.

Foto: Juan Ramos/Unsplash

  1. Obrigada por compartilhar sua história Anna, não te conheço mas fui muito abençoada! Tenho participado dos encontros da ABU onde estudo e posso dizer que ela é um grande instrumento de Deus na vida universitária tão desafiadora!
    Que Deus te abençoe e continue te usando para Tua glória!

  2. Texto bastante edificante e estimulador para os jovens que ainda não definiram sua carreira profissinal e vão em breve adentrar o mundo multifacetado e pluralista da universidade. Att. Joel Santos. João Pessoa/Pb.

  3. Oi Ana gostei do seu artigo. trabalho com jovens do Ens. MEDIO no colégio Getsemani em BH. Quem sabe vc vem um dia dar esse depoimento pessoalmente pra eles? Ainda esta em BH? Ja formou? Se desejar, mande seu curriculo pra nos. Oportunamente podemos chama la para processo seletivo. Abraco

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