Os dois retratos de Jesus opostos entre si – a desfiguração e a transfiguração – mostram duas realidades contrárias: o sofrimento e a glória do Messias.

A mais completa descrição de Jesus como o Servo Sofredor diz que a “sua aparência estava tão “desfigurada”, que ele se tornou irreconhecível como homem; não parecia um ser humano” (Is 52.14). A narrativa do que aconteceu com Jesus naquele alto monte diz que “ali ele foi “transfigurado” diante deles [Pedro, Tiago e João]. Sua face brilhou como o sol” (Mt 17.2).

Esses dois retratos de Jesus opostos entre si – a desfiguração e a transfiguração – mostram duas realidades contrárias: o sofrimento e a glória do Messias. A menos que se destrua por completo a história da redenção, ninguém poderá negar os dois eventos, nem mesmo fazer pouco caso deles. As Escrituras apontam para as vestes vermelhas de sangue, bem como para as vestes brancas como a luz, para a cruz e também para a coroa, para a Paixão e para a Páscoa, para a morte e também para a ressurreição, para a descida aos infernos e para a subida aos mais altos céus. A exaltação de Jesus é tão certa quanto a sua humilhação.

Há passagens que mostram tanto a desfiguração como a transfiguração de Jesus. Numa delas, o Messias descreve o drama do abandono (“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”, Sl 22.1), o drama da zombaria (“Caçoam de mim todos os que me vêem”, Sl 22.7) e o drama da cruz (“Perfuraram minhas mãos e meus pés”, Sl 22.16). Porém, a melancolia é bruscamente quebrada com a notícia de que “haverão de ajoelhar-se diante dele todos os que descem ao pó” (Sl 22.29). Em uma segunda passagem, o profeta fala sobre o drama da feiura de Jesus (“Ele não tinha nenhuma beleza que chamasse a nossa atenção ou que nos agradasse”, Is 53.2, NTLH) e o drama da cruz (“Ele derramou sua vida até a morte, e foi contado entre os transgressores”, Is 53.12). Mas, antes de abordar a dor de Jesus, o mesmo profeta garante que o Senhor “será engrandecido, elevado e muitíssimo exaltado” (Is 52.13).

A passagem mais conhecida e mais explícita sobre o assunto apresenta o drama do esvaziamento (“Embora sendo Deus, [Jesus] esvaziou-se a si mesmo”, Fp 2.7) e o drama da cruz (“E sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!”, Fp 2.8). A mesma passagem, logo em seguida, menciona a glória do crucificado: “Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).

Há passagens que focalizam apenas a transfiguração. É o caso daquele versículo dos Salmos várias vezes transcrito para o Novo Testamento: “O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés” (Sl 110.1). Outra passagem notável está no livro de Daniel, quando o profeta, exilado na Babilônia, em sua visão apocalíptica, no primeiro ano de Belsazar (548 a.C.), vê “todos os povos, nações e homens de todas as línguas” adorarem ao Senhor no momento em que ele descia com as nuvens dos céus (Dn 7.14). Não é possível omitir a passagem de Apocalipse que diz: “O sétimo anjo tocou a sua trombeta e houve fortes vozes nos céus que diziam: O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Ap 11.15).

É muito difícil enxergar o deslumbramento da glória presente e futura de Jesus. Se não podemos vislumbrar hoje toda a beleza de Jesus, podemos pedir a Deus que levante a cortina e nos deixe ver cada vez mais a sua glória, como aconteceu com as três testemunhas da transfiguração.

Texto originalmente publicado na edição 315 de Ultimato.

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