Uma reflexão cristã para este tempo

Por Cléber Américo de Castro e Souza*

Pesquisa e Urna Eleitoral

“pesquisa e urna eleitoral” by Jeso Carneiro, CC BY-NC 2.0 – https://www.flickr.com/photos/125816678@N05/29702946277

Sei que estamos vivendo dias que trazem uma sensação pesada no peito para muitos de nós. Olhar para os rumos do nosso país e ver tantas pessoas caminhando em direção a discursos e projetos que parecem tão distantes do amor, da empatia e da justiça gera perplexidade, cansaço e até desilusão. Isso é humano e compreensível.

Mas quero fazer um convite: dar um passo atrás e olhar para este momento com as lentes da História e do Evangelho. E peço que leiam até o fim, qualquer que tenha sido o seu voto, porque esta reflexão fala com todos nós.

Onde Jesus escolheu estar

Jesus não nasceu entre os poderosos. Nasceu em Belém, na Judeia, uma província periférica do Império Romano, e cresceu em Nazaré, uma aldeia de camponeses na Galileia. Viveu na periferia da periferia. Quando começou sua missão, voltou à sua cidade e leu, na sinagoga, uma antiga profecia de Isaías (Lucas 4:18-19) que ele aplicou a si mesmo: foi enviado para anunciar boas notícias aos pobres, proclamar libertação aos cativos, devolver a visão aos cegos e pôr em liberdade os oprimidos. Esse foi o seu “manifesto” do Reino de Deus.

Esse Reino, apresentado e representado por Jesus, não se resume a uma promessa futura para o céu. Jesus levou a presença de Deus até as pessoas, as famílias, as relações e as estruturas do seu tempo, por meio da partilha, da justiça, do acolhimento aos vulneráveis e da denúncia das opressões. Isso incomodou tanto os poderes políticos e religiosos da época que decidiram matá-lo e o entregaram à cruz. Mesmo tendo pregado e vivido o amor, uma multidão pediu sua condenação.

A história nos adverte, e nos consola

Ao longo dos séculos, houve pessoas e movimentos que entenderam e pagaram o preço desse chamado:

  • Os anabatistas, no século XVI, que defendiam uma fé livre e pacífica, separada do poder do Estado, e por isso foram perseguidos tanto por católicos quanto por protestantes.
  • Sojourner Truth, mulher que nasceu escravizada nos Estados Unidos e vinculava a sua fé em Cristo diretamente à luta pelo fim da escravidão e pelos direitos das mulheres.
  • Dietrich Bonhoeffer, pastor alemão que enfrentou o nazismo enquanto a maioria das igrejas na Alemanha apoiou o regime ou se calou. Foi executado pouco antes do fim da guerra.
  • Martin Luther King Jr., pastor que liderou a luta contra a segregação racial nos Estados Unidos e que, em sua carta escrita na prisão de Birmingham, se dirigiu, com dor, a pastores brancos, cristãos como ele, mais devotados à “ordem” do que à justiça.

Reparem em algo fundamental: em todas essas histórias, havia cristãos dos dois lados. Muita gente defendeu a escravidão, o nazismo e a segregação citando textos bíblicos. Por isso, ser maioria, ou declarar-se cristão, nunca foi garantia de estar do lado certo. O que revela a autenticidade da fé é se a nossa vida se parece com a de Jesus (Mateus 7:16; Tiago 2:17), e esse critério vale para todos.

O Reino julga a todos, e denuncia o que mata

O Reino de Deus é maior que partidos, ideologias e sistemas humanos, e por isso julga todos eles. E esse julgamento não é silencioso nem abstrato: os profetas nunca se calaram diante da opressão. Isaías lança um “ai” sobre os que juntam casa a casa e campo a campo até não sobrar lugar para ninguém (Isaías 5:8); Miqueias denuncia os que cobiçam terras e as tomam (Miqueias 2:1-2); Amós condena quem trata o pobre como mercadoria que se compra e se vende (Amós 8:4-6); Tiago ouve o clamor dos trabalhadores cujo salário foi retido e diz que ele chegou aos ouvidos de Deus (Tiago 5:1-6). Jesus foi claro ao dizer que não podemos servir a Deus e ao dinheiro (Mateus 6:24), e declarou sua missão em uma frase: veio para que todos tenham vida, e vida em abundância, enquanto o ladrão vem para roubar, matar e destruir (João 10:10).

À luz disso, na minha leitura, vivemos sob um sistema de morte: uma lógica econômica em que o lucro vale mais do que a vida; em que as pessoas se tornam descartáveis quando deixam de produzir ou de consumir; em que a riqueza se concentra em poucas mãos enquanto muitos sobrevivem sem trabalho digno, moradia, saúde e educação; e em que a própria criação de Deus é devastada em nome do ganho. Essa lógica produz pobreza, violência e desamparo. E, quando o desespero cresce, é fácil que discursos de ódio prosperem, procurando culpados. Muitas vezes apontam-se os mais vulneráveis (os pobres, os migrantes, as minorias), ou se inventam e exageram ameaças por meio de boatos e pânicos morais. Assim, o medo se alimenta e o olhar se desvia das causas reais. É a velha tática de acusar quem sofre pelo sofrimento que o sistema causa. Quem está na base da pirâmide não é o responsável pela crise: é quem mais paga por ela.

Chamo isso de sistema de morte porque ele cobra vidas reais. E não me vejo “de fora”: participo dele naquilo que consumo, e participamos quando o toleramos, ainda mais quando o defendemos. Por isso, denunciá-lo começa por reconhecer a nossa própria cumplicidade.

Sei que há cristãos que entendem isso de outra forma, e a conversa é bem-vinda. Mas o Evangelho não me permite ficar neutro. E, se amanhã outro sistema, mesmo que se proponha a ser melhor, também se torne injusto e opressor, o mesmo Evangelho me constrangerá a denunciá-lo, porque o compromisso da fé é com o Reino de Deus, que se expressa na dignidade de cada ser humano, criado à imagem de Deus (Gênesis 1:27). E essa dignidade é a mesma em quem concorda comigo e em quem pensa diferente.

Uma palavra a quem votou/pensa diferente

Agora quero me dirigir, com respeito, a quem pensa diferente de mim, em especial a você que, nesta eleição, votou de forma diferente da minha.

Não presumo que você seja alguém sem coração, muito pelo contrário. Sei que muitas pessoas escolheram o voto movidas por medos reais (de violência, de crise econômica, de perda de valores) e também por convicções sinceras, como a defesa da vida, da família e da liberdade de fé. Não duvido que você ame a sua família e valorize a vida, a fé e a ordem, e que tenha visto seus valores ignorados, desprezados ou atacados. O sistema que acabei de denunciar atinge a todos, independentemente de crenças, posicionamentos e lados políticos. Tenho vizinhos, parentes e amigos que, como você, votaram de forma diferente de mim. Eu os amo sinceramente, e Jesus nos chamou a amar até quem discorda de nós (Mateus 5:44). 

É motivado por esse amor que preciso dizer algumas coisas, como um irmão que fala a outro, e não como um juiz.

O Reino não vem pelo poder. No deserto, o diabo ofereceu a Jesus todos os reinos do mundo em troca de adoração, e Jesus recusou (Mateus 4:8-10). Diante de Pilatos, ele disse que o seu Reino não é deste mundo (João 18:36). Quando a igreja se alia ao poder para impor a fé, ela costuma perder a própria fé. Essa tentação existe em todos os lados, e a história mostra isso. Por isso devemos recusar qualquer teologia que transforme a fé em projeto de domínio sobre a sociedade.

O critério do juízo é o cuidado com os pequenos. Em Mateus 25:31-46, Jesus diz que será julgado o que fizemos pelo faminto, pelo estrangeiro, pelo doente e pelo preso: “a mim o fizestes”. Em Ezequiel 16:49, a falta de Sodoma é descrita como soberba, fartura e indiferença ao pobre e ao necessitado. E Provérbios 31:8-9 nos pede para abrir a boca em favor de quem não tem voz. Qualquer projeto político que dê o seu apoio ao desprezo, à violência ou à indiferença diante dos vulneráveis precisa ser examinado à luz dessas palavras, mesmo quando promete defender outros valores que amamos. Jesus não nos autorizou a desprezar ninguém, nem a quem vive de modo diferente do que cremos. Ele denunciou a indiferença diante de quem sofre e a hipocrisia de quem se acha justo.

As palavras também têm peso. Tiago nos lembra que não é coerente com a mesma boca bendizer a Deus e amaldiçoar pessoas feitas à sua imagem (Tiago 3:9-10). E 1 João 4:20 é direto: quem diz amar a Deus e odeia o seu irmão é mentiroso. O ódio, o escárnio e a desumanização do adversário não são “defesa da fé”. Nossa luta, diz Paulo, não é contra carne e sangue (Efésios 6:12), e o que nos cabe é vencer o mal com o bem (Romanos 12:21).

Digo tudo isso também a mim mesmo, e com frequência. Jesus contou a parábola do fariseu que agradecia a Deus por não ser como os outros (Lucas 18:9-14), e nenhum de nós está livre desse risco: nem quem se sente moralmente superior por ter votado de uma forma, nem quem se sente assim por ter votado de outra. Antes de tirar o cisco do olho do irmão, preciso olhar a trave no meu (Mateus 7:3-5).

De volta a quem chora e se cansou

E volto agora a quem começou esta leitura com o peito pesado e coração entristecido.

O seu luto é legítimo. A Bíblia está cheia de lamento (Salmo 13; Lamentações), e Jesus chorou sobre Jerusalém (Lucas 19:41). Não precisa disfarçar o que sente, nem se envergonhar dele. Mas é preciso separar a indignação do desprezo, e a dor, da amargura. Se transformarmos o luto em ódio, passaremos a parecer com aquilo que lamentamos.

Também não é hora de nos retirarmos. Aos exilados na Babilônia, Deus disse por Jeremias que buscassem a paz da cidade onde estavam, porque da paz dela dependia a deles (Jeremias 29:7). E o jejum que Deus deseja, diz Isaías, é soltar as correntes da injustiça, repartir o pão com quem tem fome, abrigar o desabrigado e não se esconder do próximo (Isaías 58:6-10). Em termos práticos, isso começa perto: ouvir antes de rebater, cuidar de quem está ao nosso lado, apoiar quem trabalha com os mais vulneráveis, participar de uma comunidade, orar, e não transformar vizinhos em inimigos. E não nos cansemos de fazer o bem, porque no tempo certo colheremos, se não desanimarmos (Gálatas 6:9).

A nossa vocação é a fidelidade

Jesus chamou de bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça (Mateus 5:10-12), e não os que simplesmente se sentem incompreendidos, nem os que são desta ou daquela ideologia. A história mostra que quem encarna a ética do Reino e enfrenta os poderes do seu tempo costuma encontrar incompreensão e, às vezes, perseguição, como aconteceu com os anabatistas, Sojourner Truth, Bonhoeffer e Martin Luther King Jr. A missão de buscar a justiça é árdua, e a nossa vocação nunca foi medida por maiorias, aprovação popular ou vitórias eleitorais.

A nossa vocação é a fidelidade.

Uma esperança que não é ingênua

Não deixemos que o desânimo roube a nossa esperança. Existe a dor do presente, que não deve ser ignorada. Mas a esperança cristã não é otimismo ingênuo: ela se apoia num acontecimento. A cruz não foi a última palavra. Jesus ressuscitou. É essa vitória que nos garante que as trevas e os projetos de morte não têm a palavra final na História.

Por isso, lutamos para viver e anunciar, desde já, sinais do Reino (justiça, paz, dignidade, amor), certos de que, no futuro, Deus trará o Reino à sua plenitude. O Reino é obra de Deus; nosso papel é refleti-lo e vivê-lo. Isso nos liberta tanto da arrogância de achar que somos os únicos responsáveis por ele quanto do desespero, quando as dificuldades parecerem intransponíveis. O nosso trabalho no Senhor não é em vão (1 Coríntios 15:58).

Lembremos do profeta Elias, que, exausto, achou que estava sozinho. Deus não começou com um discurso: deixou-o dormir e lhe deu pão e água. Somente depois lhe mostrou que havia outros sete mil que permaneciam fiéis (1 Reis 19:18). O remanescente é obra de Deus, que sabe quem são os seus e os mantém firmes. Jesus também comparou o Reino a uma semente de mostarda (Mateus 13:31-32): pequena e imperceptível no início, mas que cresce e abriga a vida. Em cada gesto de afeto, em cada busca por justiça, em cada pão repartido e em cada resistência ao ódio, há um sinal do Reino de Deus. Como resumiu o profeta Miqueias (6:8), o que Deus pede de nós é praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele.

A igreja, entre a luz e a sombra

A história da igreja é feita de luz e de sombra. No passado, parte dela se rendeu ao poder, defendeu a escravidão e calou as mulheres. Hoje, em muitos lugares, ainda há quem busque o poder, e muito juízo ocupa o lugar da misericórdia e do perdão. Esse alerta vale também para nós: ninguém está imune a trocar a graça pela condenação.

Ao mesmo tempo, a fé e os valores do Evangelho não cabem dentro de paredes nem se reduzem a estruturas. Eles florescem onde há amor prático, acolhimento e compromisso verdadeiro com o próximo, e crescem quando são vividos junto de outras pessoas (Hebreus 10:24-25).

Que o Senhor nos conserve em pé, firmes na fé e abertos ao abraço, e renove as nossas forças para sermos o sal que tempera a vida e a luz que clareia a noite (Mateus 5:13-16). Que sejamos abrigo para os feridos, descanso para os cansados e refúgio para quem se esgotou nesta caminhada. Que o nosso coração continue aquecido e pulsando de esperança. As maiorias passam, os impérios caem e a glória deste mundo se desfaz como poeira no vento (Isaías 40:6-8). Mas o amor de Deus — este amor que cura e liberta — permanece e nunca falhará (1 Coríntios 13:8).

Se esta reflexão fez sentido para você, ou se você discorda e quer conversar, a porta está aberta.

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*Cléber Américo Castro e Souza é casado com Renata e pai de um casal de filhos. Bacharel em Direito e mestre em Controladoria e Finanças Empresariais pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, carrega o legado da fé reformada como filho e neto de pastor presbiteriano. Atuou no movimento estudantil cristão como líder e assessor-auxiliar da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) em Ponta Grossa (PR) e participou do Projeto Grão de Mostarda (PGM). Escreve como irmão em Cristo, aberto à conversa com quem concorda ou discorda. Siga também a página do Blog Dignidade, no Facebook. As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade exclusiva do autor.

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