Amanhar e o amanhã
Um discurso de despedida da Diretoria Nacional da ABUB
Por Marcus Vinicius Matos*
Essa é a última vez que eu falo com vocês como membro da Diretoria Nacional da ABUB. Pela graça de Deus, nesses últimos oito anos, posso dizer que vivi momentos intensos no movimento estudantil evangélico. Servir aos estudantes como Primeiro Secretário foi uma horna, uma alegria, e também um desafio. Na verdade, acho que foram três desafios. O primeiro desafio é o de ser liderança em um movimento que representou tanto na minha própria vida. Eu não seria professor universitário, se não fosse a enorme influência que a ABUB trouxe para minha vida, me ensinando a amar os estudantes e a universidade como campo missionário. Mais da metade das coisas que eu pesquiso hoje, como professor de direito, foram determinadas por pessoas e temas que conheci em eventos de formação da ABUB. Isso, por si só, tem um peso, gera uma reverência e um compromisso. É amor, e o amor compromete a gente, leva a gente ao sacrifício. Mas isso não é o mais difícil.
O segundo desafio, é o de tomar decisões que afetam a vida e a obra, o ministério das pessoas. Quando a gente senta na cadeira na diretoria nacional, a gente é responsável pela trabalho missionário de duas dezenas de obreiros – o que, com a benção de Deus, vai aumentar nos próximos anos. Eu saio da DN sem ver a ABUB chegar a ter um obreiro de campo por Estado, no Brasil, mas eu creio que a gente vai chegar lá. Na DN a gente tem o desafio de cuidar da Secretaria Executiva da ABUB, e de cada assessoria regional, das entradas e saídas de missionários, da melhoria das condições de trabalho e de vida para essas pessoas e suas famílias. Mas isso não é o mais difícil.
O terceiro desafio é o mais difícil. Na diretoria nacional, a gente discute qual é a visão que nós temos, do que somos e do que queremos ser como movimento. E nem sempre os estudantes, o secretário geral, e os membros da diretoria nacional, concordam sobre isso. As nossas ações de formação, de engajamento com a universidade e com as escrituras, são essenciais para a evangelização que fazemos, ou são opcionais em nosso ministério? Produzir conteúdo e literatura, ter assessores e estudantes escrevendo e produzindo livros e vídeos, é importante, ou é fundamental para o nosso movimento? O quanto a maneira como a gente mobiliza recursos determina ou amarra as nossas ações? Essas são perguntas que tem haver com a visão que temos do nosso movimento, da nossa missão. E achar essas respostas é o maior desafio que enfretamos juntos, nesses últimos oito anos que estive com vocês.
E por isso, quero compartilhar uma breve reflexão sobre visão, que ouvi recentemtente em uma pregação do Reverendo Andy Thompson sobre o texto de Ezequiel 37 e o vale de ossos secos. O Andy explicou esse texto, e essa visão, nos desafiando a imaginar como seria acordar, hoje, e encontrar-se cercado de morte por todos os lados. Imagine o desespero de descobrir que todas as pessoas que você conhecia, seus familiares, seus vizinhos, as pessoas do seu trabalho, os assessores regionais e auxiliares da ABU, seus colegas de sala de aula…imagine acordar e descobrir que todos haviam morrido. A visão de Ezequiel é essa: é encontrar-se cercado da morte por todos os lados.
E essa é a experiência real de vida de muitas pessoas. Pessoas que sobreviveram guerras, genocídios, bombardeios aéreos, tiroteios nas favelas; pessoas que viram outras pessoas serem assassinadas, pessoas ameaçadas de morte – como o personagem pricipal do filme O Agente Secreto; por vezes, essas pessoas carregam a vida toda o medo e o desespero da experiência de estar cercadas pela morte, por todos os lados.
Mas a visão de Ezequiel não para na constatação da morte. Ela também é uma profecia que prega esperança. A visão de Ezequiel também é dizer ao povo que, ainda que ocorra um genocídio, e que haja morte por todos os lados; ainda que todo mundo que a gente conhece tenha morrido; Deus pode fazer brotar vida a partir dos ossos secos. E a profecia que prega essa esperança é um discurso de rebelião contra a realidade imposta ao nosso redor. É uma profecia que afirma que mesmo que todos tenham morrido, a morte não triunfará. Essa é a nossa fé. Essa é a nossa visão. O último Congresso Missionário da ABUB tinha justamente essa visão como tema: Missão 2006, Esperança Viva em Jesus.

Title: The Vision of Ezekiel. Artist: Giorgio Ghisi (Italian, Mantua ca. 1520–1582 Mantua). Artist: After Giovanni Battista Bertano (Mantua 1516–1576 Mantua) Date: 1554
Isso é mais que um otimismo estratégico. A fé cristã é um discurso de esperança viva, uma esperança que, às vezes, nos coloca em franca rebelião contra a realidade de morte ao nosso redor. Porque ainda que estejamos cercados de ossos secos, ou no vale da sombra da morte, nosso Deus é o Senhor da vida, que faz nascer vida, que faz amanhar. Essa foi a esperança que me fez seguir, nesses últimos anos, quando a morte se abateu sobre minha família. E foi também essa esperança viva, o que me fez continuar, muitas vezes, ao longo desses últimos oito anos de serviço à Diretoria Nacional da ABUB.
E nesse último ano, em particular, eu tive a oportunidade de refletir sobre minha própria atuação na diretoria nacional. Exercer liderança, as vezes, é algo duro. Imagina dizer essas palavras do profeta para pessoas enlutadas. Muitas vezes a gente tem que decidir, avaliar, votar. É algo que acontece na diretoria nacional, e nas diretorias regionais da ABUB, e em qualquer igreja ou organização. E a gente cria justificativas para o exercício do poder. A gente diz “fiz o que era o melhor pra missão/ igreja/ organização”. Mas a verdade é que, no exercício da liderança, quando ela é vitoriosa, a gente muitas vezes derrota os adversários, quem discorda e vota contra a gente e, não raro, a gente machuca as pessoas. Mesmo que sem querer, mesmo que nas melhores hipóteses. Será q essas atitudes são justificadas ou meras desculpas vazias de amor?
Então, nesse final do ministério na ABUB, eu quero aproveitar para pedir perdão. A cada um e cada uma de vocês, por qualquer coisa que eu tenha feito, que tenha machucado alguém. O final de um ministério envolve abrir mão de poder, de influência. É um tanto melancólico, e um tando solitário. A gente entra em umas crises autocentradas: será que minha participação deixará mais ossos secos do que ramos, do que flores? Será que eles vão continuar me chamando para falar nos eventos? (Risos!) E aqui eu tenho também muito o que agradecer.
Preciso agradecer a cada um e cada uma que, antes de mim, junto comigo, e depois de mim, fez da ABUB o que ela é hoje, e o que ela será amanhã. O texto seguinte ao vale dos ossos secos em Ezequiel 37 é um texto sobre a unidade dos reinos de Judá e Israel no velho testamento. E a unidade foi na minha experiência na DN, o resultado do enfrentamento das dificuldades, com esperança. E foram muitas as dificuldades. Falta de obreiros, falta de recursos, falta de fé. A gente passou por tudo isso nos últimos oito anos. Mas esses foram os momentos que nos moldaram no que somos hoje.
O missionário indiano Sadhu Sundar Singh, escreveu uma reflexão sobre bichos-da-seda, que é mais ou menos assim:
“Um bicho da seda estava sofrendo para sair do casulo, e daí um homem ignorante viu sua luta, suas dores, e foi lá e ajudou o bicho a sair do casulo, mas logo depois ele saiu, voou baixo, caiu e morreu. As outras bicho-da-seda, que lutaram para sair sem ajuda, sofreram, mas saíram para a vida e beleza, com asas fortes para voar, através da sua batalha pelo frescor da existência” (Common Prayer for Ordinary Radicals).
Eu queria mais do que tudo estar aí, com vocês, nesse Amanhar. Mas infelizmente, não foi possível. Então, deixo aqui meus votos para que o Senhor nos molde e nos forme nas pessoas que Ele quer que sejamos. Que Ele tenha paciência quando a gente cai, e quando falhamos em exercer aquilo que o amor dEle demanda da gente. Que Ele nos dê paciência com nós mesmos, e uns com os outros. Que Ele nos abraçe com a Sua graça. Amanhar é sair do Vale dos ossos secos, quando todo o mundo ao redor parece ter sido tomado pela morte. É sair do casulo, com dificuldades, para voar alto. Voar com essa nova geração de estudantes da ABU que está aqui hoje. É brotar vida. Que Deus nos abençoe e muito obrigado.
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*Marcus Vinicius A. B. De Matos foi primeiro secretário da diretoria nacional da Aliança Bíblica do Brasil (ABUB) entre 2018 e 2026. Antes, foi Assessor de Projeto Especial (Rede FALE) da ABUB entre 2008 e 2010, e estagiário na Assessoria de Comunicação do Congresso Missionário Estudantil Missão 2006, da ABUB. É professor efetivo (Senior Lecturer) de Direito em Brunel University of London, no Reino Unido. É doutor em Direito pelo Birkbeck College, mestre e bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro honorário do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), e e membro fundador da Rede Cristã de Advocacia Popular, a RECAP. É casado com Priscila Vieira, com quem é autor do premiado livro Imagens da América Latina: Mídia, Cultura e Direitos Humanos, e pai de Aurora. Torcedor do Flamengo. Siga no Instagram, Bluesky e Twitter: @mvdematos. Siga também a página do Blog Dignidade, no Facebook. As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade exclusiva do autor.
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Leia também:
+ Colonialismo, Memória e Hospitalidade: Gonçalves Dias, C. S. Lewis e o Marco Temporal
Referências:
+ Leia os textos do Rev. Andrew Thompson no site Seen & Unseen.
+ Leia os devocionais do Common Prayer for Ordinary Radicals.
+ Leia este texto em inglês.