Democracia e voto evangélico
Defender a democracia inclui não votar em candidatos e movimentos políticos que já atentaram contra a democracia
Por Paul Freston*
Há alguns meses, publiquei um livro Evangélicos e Democracia Brasileira. E quero agora pedir licença para reforçar a mensagem do livro. Porque temos um segundo turno em que uma chapa tem claro compromisso com a democracia e a outra chapa, infelizmente, não. E as pesquisas de opinião indicam claramente que é o voto evangélico que dá a vitória à chapa cuja história pessoal e familiar lança muitas dúvidas sobre o compromisso deles com a democracia.
Não quero entrar no porquê dessa diferença. Sei que as motivações para o voto são muito variadas. Mas é preocupante, por várias razões. Primeiro, porque a fé evangélica deveria ser esteio da democracia, por razões bíblicas e por razões da nossa história protestante e evangélica. A democracia é plenamente compatível com as Escrituras e o pensamento cristão desde o começo. Mais do que isso, reflete fielmente o que a Bíblia ensina sobre o caráter de Deus e a natureza do ser humano. E também, temos a história do protestantismo evangélico, como a corrente religiosa que mais apoio deu ao desenvolvimento da democracia.
Por tudo isso, amar ao próximo inclui defender o direito dele continuar a ter voz e voto no futuro do país. Mesmo que esse próximo não concorde comigo! Porque a democracia não existe para garantir a vitória do nosso lado nem da nossa visão da sociedade, mas existe para permitir a defesa continuada de projetos diversos para a sociedade, inclusive o nosso.
Isso significa que defender a democracia inclui não votar em candidatos e movimentos políticos que já atentaram contra a democracia… e que temos razões (baseado nas próprias declarações deles e no modelo de Donald Trump, que eles admiram) para temer que usem o poder para minar a democracia novamente. Porque não é mais com tanques na rua que as democracias morrem, mas com medidas que enfraquecem as principais instituições que sustentam o funcionamento do sistema democrático.
Além de tudo isso, poucos dias depois do nosso segundo turno, haverá eleições legislativas nos Estados Unidos, e tudo indica que Trump corre grande perigo de perder controle das duas casas do Congresso. Com isso, o poder dele estará seriamente enfraquecido. Seria trágico, então, que o Brasil apostasse no apoio dele e na imitação do modelo dele, justamente no ocaso da sua presidência. Nada mais ridículo do que se alinhar a um autocrata cujo poder está em franco declínio. Além de não fazer sentido moral, é um contrassenso estratégico. E tenho medo que as gerações futuras olhem para trás e digam que foi principalmente culpa dos evangélicos que o Brasil entrou novamente num regime antidemocrático, com todos os abusos que isso implica.

Video: A Democracia e o Voto Evangélico
Sei que, por várias razões, a resistência a Lula é grande no meio evangélico. Mas a chapa dele é uma aliança para salvar a democracia, entre uma figura tradicional da esquerda como Lula, e uma figura tradicional de centro-direita como Geraldo Alckmin. Se conseguir salvar a democracia brasileira e evitar a subserviência ao modelo trumpista falido, terá valido a pena.
O desafio, então, é para os evangélicos se firmarem numa consciência renovada de sua história e de sua teologia bíblica, se transformando em esteio do sistema democrático brasileiro. Precisamos de uma comunidade evangélica capaz de resistir ao canto da sereia das pretensas soluções antidemocráticas. Para o bem do país… e para o bem da própria igreja.
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*Paul Freston é sociólogo da religião e pesquisador especializado nas relações entre religião, política e democracia, com destaque para o estudo do protestantismo e do pentecostalismo na América Latina e no Sul Global. Atualmente é professor de Religião e Cultura na Wilfrid Laurier University (Canadá) e atuou também como professor e pesquisador em diversas instituições brasileiras, incluindo a Universidade Federal de São Carlos. Possui graduação pela Universidade de Cambridge, mestrado pela Universidade de Liverpool e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua produção acadêmica tornou-se referência internacional nos estudos sobre religião e política, pluralismo religioso, direitos humanos e cristianismo global. Entre suas principais obras estão Evangelicals and Politics in Asia, Africa and Latin America (2001), Protestant Political Parties: A Global Survey (2004) e Evangelical Christianity and Democracy in Latin America (2008). Ao longo de sua trajetória, manteve estreita relação com a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), movimento brasileiro ligado à International Fellowship of Evangelical Students (IFES), do qual foi membro da Secretaria Executiva. Sua atuação intelectual tem sido marcada pela interlocução entre a pesquisa acadêmica e os desafios contemporâneos da presença cristã na esfera pública, especialmente em temas relacionados à democracia, direitos humanos e cidadania. Siga também a página do Blog Dignidade, no Facebook. As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade exclusiva do autor.
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