Palavra do leitor
- 31 de maio de 2014
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Os analfabetos
O analfabeto
funcional
As próprias palavras são o detalhe essencial: repetir o que foi lido é fácil, mas o propósito do exercício é saber se somos capazes de traduzi-lo
//Por Braulio Tavares
Pesquisas recentes mostram que grande parte dos universitários brasileiros é de analfabetos funcionais, isto é, são capazes de ler corretamente um texto, inclusive em voz alta, mas não conseguem entender o significado. (Na melhor das hipóteses, saem pela tangente com aquele velho papo de estudante preguiçoso: “Eu sei, mas não sei como explicar”.) Quando eu era estudante havia certa insistência das professoras (nessa fase mais remota, eram sempre mulheres) em dizer: “Leia esse texto, e depois o explique com suas próprias palavras”. As “próprias palavras” são o detalhe essencial, porque repetir o que foi lido é fácil, mas o propósito do exercício é saber se somos capazes de traduzi-lo (sim, é um processo tradutório, tanto quanto o de passar uma frase do inglês para o português).
Todo mundo pode decorar um soneto de Camões: Sete anos de pastor Jacó servia/Labão, pai de Raquel, serrana bela... Eu gostaria que um hipotético aluno meu me reproduzisse esse soneto em algo como: “Eita, professor, parece que o sogro dele enrolou ele... Ele queria casar com uma moça e prometeu trabalhar de graça pro véi, aí o véi era trambiqueiro, deu a outra filha, aí ele disse, tem nada não, danado – eu faço tudim de novo, mas agora quero a minha noiva, e se não me der, aí o diabo se solta!” Alguns professores rejeitariam uma interpretação tão heterodoxa. Eu daria nota 10 ao moleque.
Richard Feynman, Prêmio Nobel de Física, ensinou numa universidade brasileira e admirou-se ao ver como seus alunos, que sabiam de cor uma lei sobre a polarização das ondas luminosas, eram incapazes de explicar um efeito qualquer da visão da Baía da Guanabara através das vidraças da sala de aula. Na cabeça deles, a lei da Física era um simples texto, e a passagem da luz pela vidraça não tinha nada a ver com ela.
Seria o caso de questionarmos o analfabetismo funcional de uma parte muito maior da sociedade. Algumas pessoas são capazes de ler a Bíblia, a Constituição ou a Declaração dos Direitos do Homem, jurar-lhes fidelidade, e desobedecer-lhes sem piscar o olho. São incapazes de ver alguma relação entre aquelas palavras impressas no papel e os atos que estão praticando. Claro que muitos fazem isso por mau-caratismo. Mas não duvido que outros agem assim por deficiência intelectual mesmo. Uma coisa é aquele texto que alguém os obrigou a decorar um dia, e outra coisa muito diferente são os fatos da sua vida. Acham-se pessoas de bem, e sua sinceridade poderia ser comprovada até num detetor de mentiras.
Envie comentário, sugestão ou crítica para fundamental@cartacapital.com.br
Publicado na edição 58, de maio de 2014
As próprias palavras são o detalhe essencial: repetir o que foi lido é fácil, mas o propósito do exercício é saber se somos capazes de traduzi-lo
//Por Braulio Tavares
Pesquisas recentes mostram que grande parte dos universitários brasileiros é de analfabetos funcionais, isto é, são capazes de ler corretamente um texto, inclusive em voz alta, mas não conseguem entender o significado. (Na melhor das hipóteses, saem pela tangente com aquele velho papo de estudante preguiçoso: “Eu sei, mas não sei como explicar”.) Quando eu era estudante havia certa insistência das professoras (nessa fase mais remota, eram sempre mulheres) em dizer: “Leia esse texto, e depois o explique com suas próprias palavras”. As “próprias palavras” são o detalhe essencial, porque repetir o que foi lido é fácil, mas o propósito do exercício é saber se somos capazes de traduzi-lo (sim, é um processo tradutório, tanto quanto o de passar uma frase do inglês para o português).
Todo mundo pode decorar um soneto de Camões: Sete anos de pastor Jacó servia/Labão, pai de Raquel, serrana bela... Eu gostaria que um hipotético aluno meu me reproduzisse esse soneto em algo como: “Eita, professor, parece que o sogro dele enrolou ele... Ele queria casar com uma moça e prometeu trabalhar de graça pro véi, aí o véi era trambiqueiro, deu a outra filha, aí ele disse, tem nada não, danado – eu faço tudim de novo, mas agora quero a minha noiva, e se não me der, aí o diabo se solta!” Alguns professores rejeitariam uma interpretação tão heterodoxa. Eu daria nota 10 ao moleque.
Richard Feynman, Prêmio Nobel de Física, ensinou numa universidade brasileira e admirou-se ao ver como seus alunos, que sabiam de cor uma lei sobre a polarização das ondas luminosas, eram incapazes de explicar um efeito qualquer da visão da Baía da Guanabara através das vidraças da sala de aula. Na cabeça deles, a lei da Física era um simples texto, e a passagem da luz pela vidraça não tinha nada a ver com ela.
Seria o caso de questionarmos o analfabetismo funcional de uma parte muito maior da sociedade. Algumas pessoas são capazes de ler a Bíblia, a Constituição ou a Declaração dos Direitos do Homem, jurar-lhes fidelidade, e desobedecer-lhes sem piscar o olho. São incapazes de ver alguma relação entre aquelas palavras impressas no papel e os atos que estão praticando. Claro que muitos fazem isso por mau-caratismo. Mas não duvido que outros agem assim por deficiência intelectual mesmo. Uma coisa é aquele texto que alguém os obrigou a decorar um dia, e outra coisa muito diferente são os fatos da sua vida. Acham-se pessoas de bem, e sua sinceridade poderia ser comprovada até num detetor de mentiras.
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Publicado na edição 58, de maio de 2014
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