Seguindo em frente

Por Jeverton “Magrão” Ledo

Ult_Jovem_16_01_15_MagraoSentado aqui agora, horas que se vão ao relógio: tempo. Tempo que nos conduz para mais uma mudança rumo a um caminho que ainda reservará novos desafios, encontros e a inspiração que dará o tom, a continuidade de uma história e suas pinceladas em tons de cinza e cores vibrantes. As emoções e sentimentos vão e vem trazendo lembranças, reavivando sonhos e enchendo o coração pulsante de esperança.

O tempo tem se permitido abrir momentos onde experimentei alegrias de celebrações que uniram amigos queridos, encontros com uma juventude engajada no servir e desejando viver um Cristianismo de dentro para fora, visitas de pessoas queridas, amizades que apenas iniciaram uma construção duradoura e o mais importante palavras inspiradoras e cheias de uma força bem desenhadas em pequenos pedaços de papel.

A cada término e novo início é tempo de parar, se autoanalisar, reafirmar convicções, desconstruir e perceber que a obra em nossa vida continuará sendo edificada em uma base sólida: o amor. Amor que me guia, entende, respeita e impulsiona afinal de contas a vida continua. Continuar por continuar seria diminuir a vida a uma insignificante contagem de dias esperando o fim.

Não me permito dar um ponto final, no máximo umas interrogações frente às perguntas respondendo com coragem, humildade e significância.

Significado ao chamado que nos enxerga como peças importantes nesse tabuleiro onde caminhar e enfrentar adversários é alcançar não a outra extremidade e a vitória pessoal, mas sim o cumprir do resgate pessoal e coletivo.

Por fim, opa não seria recomeço? A vida tem me ensinado e me levado a me entender melhor a cada dia, a lutar contra meus próprios planos e construções, percebendo o quanto fraco sou. Não se intimide, não corra de você mesmo, a coragem está no ato de se desarmar, se reconhecer e se lançar a cada novo dia nesse tempo e nessa história, um mundo que precisa dos “fracos” para mostrar a fonte de todo poder.

Quero e buscarei isso todos os dias até que as cortinas sejam fechadas, as luzes se apaguem e o amanhã não me acorde com um novo desafio.

• Jeverton “Magrão” Ledo é missionário e pastor de jovens.

O dilema da “Geração Y”

Foto: http://www.freeimages.com/photo/1435240Por Thales Lima

Nesse ano de 2014 me deparei, inesperadamente, com um volume muito grande de decisões a tomar. Com o passar do ano, percebi que não conseguia apenas com minhas próprias reflexões e experiências me guiar sozinho pelo caminho que deveria abrir pela frente. Comecei então, com algum receio de que eu não possuía toda a segurança e independência intelectual que julgava ter, a pesquisar sobre o assunto.

A surpresa foi bem grande quando descobri que a minha geração sofre massivamente com esse dilema: tomar decisões e construir caminhos. Chamada por alguns especialistas de “Geração Y”, pela mídia mundial de “Geração Eu” e pelo New York Post de “A pior geração”, somos um grupo de jovens nascidos entre a década de 80 e 90 durante um período em que a mídia (mundial, nacional e local) promovia os excessos do lema “siga sua paixão”.

“Siga sua paixão” é um lema extremamente complicado. No senso comum, paixão é algo que nos atrai instantaneamente e sem medidas, de um certo modo passageiro e extremamente impactante. Porém, ao pesquisar mais profundamente, em especial no círculo de palestras TED, comecei a notar que esse chavão, além de ser mal interpretado, nunca foi uma verdade universal como os programas de televisão, os filmes hollywoodianos, meus professores da escola e da universidade e diversos outros modelos me diziam que eram.

O primeiro dos vídeos que me causou um grande impacto foi Don’t Just Follow Your Passion: A Talk for Generation Y em que Eunice Hii, uma jovem empreendedora formada pela UBC Sauder School of Business, fala sobre os desafios desse mote de vida e esclarece sobre as questões de que paixões são desenvolvidas com o tempo. A paixão pelo seu emprego, a paixão pela sua área de pesquisa, a paixão por uma pessoa, por um esporte, por um hobby, a paixão por Deus é desenvolvida pelo tempo gasto com essas coisas. Para nossa geração, gastar tempo com algo específico é muito difícil, concentrar-se em uma única tarefa por vez é um “modus operandi” que não nos atrai. Porém, é uma tarefa de casa que devemos aprender. Devemos vencer nossa insegurança de nos concentrarmos totalmente em algo, sem ter planos B, C ou D. Ter um plano B, C ou D é ter a expectativa de que seu plano A irá falhar.

Esse vídeo me direcionou para uma matéria da Harvard Business Review chamada Solving Gen Y’s Passion Problem. Nele, Carl Newport, um professor assistente de ciências da computação pela Georgetown University, fala sobre como “seguir a sua paixão” trouxe diversos problemas para nossa geração, desde com respeito à nossa educação dentro de casa até à ocupação de empregos quando adultos, mostrando que a taxa de evasão de empregos nos primeiros seis meses de trabalho nos Estados Unidos entre jovens dessa “geração Y” é altíssima. Esta realidade não é muito diferente no Brasil, a julgar por tantos casos que conheço e o meu próprio. Por exemplo, há sete anos larguei um curso superior com apenas quatro meses de estudo “porque não era a minha paixão”.

Depois disso, comecei a pensar que, se paixões precisam ser desenvolvidas ao longo do tempo e não são simplesmente inerentes a mim, como eu acho minhas paixões? Depois de alugar ouvidos alheios por um bom tempo e muitas horas de andanças virtuais, encontrei a palestra de Eugene Hennie, chamada How to Find Your Passion and Inner Awesomeness. Hennie conta sua experiência da infância. Ele era uma criança que fazia desenhos “irados” e possuía talentos que achava serem acima da média. Ele lembrou também do seu tempo na universidade e quando eles fizeram apresentações de dança com temas “nerds”, numa época que isso ainda não era moda. Quão confiante e feliz consigo mesmo ele era nessas épocas! Hennie redescobriu sua “inner awesomeness” ou sua capacidade interior de ser incrível. Ser incrível é uma questão de acreditar em si mesmo e nos dons dados a você. Lembrei-me de como em minha infância queria ser um lixeiro-detetive-arqueólogo e como cada uma dessas coisas representava um dom específico que eu viria a desenvolver mais tarde.

Deus nos deu dons incríveis que foram exercitados por nossa vida inteira, com mais criatividade provavelmente na infância e com menos ou mais força, conforme os estímulos externos. No meu caso, lixeiro-detetive-arqueólogo, veio a se tornar uma grande busca por organização, investigação e pesquisa que eu sequer reparei que estavam lá por um bom tempo e que foram a base para a maioria de minhas decisões de 2014.

É muito importante não nos esquecermos de que devemos, sim, desenvolver nossas paixões, tanto na área profissional quanto pessoal ao longo do tempo. Devemos gastar nossa vida com qualidade, escolhendo assuntos relevantes e convivendo com pessoas interessantes. Sim, é muito bacana ter uma história bonita ou um belo caminho a seguir, mas você não precisa ficar de olho no caminho alheio o tempo todo. Vença suas próprias metas! É necessário, sim, buscar coisas novas, sempre, mas se você não crescer em coisas conhecidas, você não estará criando um caminho, apenas um emaranhado de ruas.

 

— Thales Lima tem 25 anos, é mestrando em Teoria Literária pela Universidade Federal de Viçosa e diácono da Igreja Presbiteriana de Viçosa.

 

Estão abertas as inscrições para o Treinamento Compacta da Steiger Brasil

Ult_Jovem_24_12_14_compactaCada geração precisa ouvir de novo este convite: olha, vocês são chamados para a santidade porque o Deus de vocês é santo”, afirmou Ziel Machado, historiador e professor seminarista, quando questionado sobre a importância da Conferência Steiger. Ziel havia acabado de falar sobre relevância sem comprometimento ao abrir as pregações da manhã de sábado, 1 de novembro. “Um evento como esse faz com que a gente volte à Escritura para definir estes conceitos de maneira apropriada e traduzi-los para esta geração”, explica.

Foi durante a segunda edição da Conferência Steiger, na Igreja Casa da Rocha, no bairro do Cambuci no centro de São Paulo, que foram abertas oficialmente as inscrições para o Treinamento Compacta que acontecerá em janeiro de 2015. Com vagas limitadas, o treinamento oferecido pela Missão Steiger é uma oportunidade de aprofundar em temas abordados durante a Conferência Steiger e conta, inclusive, com a participação de alguns dos mesmos palestrantes do evento.

Com o tema “Relevância e Reverência”, a Conferência, que aconteceu 31 de outubro e 1º de novembro, iniciou-se com, além do momento de louvor, a ministração de David Pierce, fundador da Missão Steiger International, organização que visa alcançar a juventude global secularizada. A palavra que trouxe sobre santidade foi uma mostra das reflexões que ainda viriam pela frente. David perguntou qual Jesus a Igreja quer servir. “O Jesus legal?”, questionou, “só se quiser ser irreverente”, disse.

Quem é de fora e observa a aparência e o perfil moderno de quem organizou a Conferência e de quem foi ouvir estas provocações, pode se perguntar o que motiva cerca de 400 pessoas, em sua maioria jovem, se reunirem para ouvirem sobre a busca pela santidade, pela relevância e pela reverência a Deus. “Que Deus?”, podem até perguntar alguns. Sem querer querendo, Ziel explicou porque era importante falar sobre estas coisas ao final de sua pregação. Baseado nas cartas do Apóstolo Paulo ele disse que é “para fugir da ignorância”.

“Durante muito tempo a gente entendeu a santidade de uma forma negativa, como se Deus fosse alguém que estraga o prazer das pessoas, como se a santidade Cristã fosse uma negação à vida. E é todo o contrário, ela é a afirmação da verdadeira vida”, afirmou Ziel que acredita que a Igreja só pode ser relevante se for santa segundo os valores do Evangelho e vice-versa.

Logo em seguida, Guilherme Carvalho, mestre em Teologia e em Ciências da Religião, falou sobre reverência e como manter-se firme em atuais tempos de relativismos. “A soberania de Deus é absoluta e todas as coisas são relativas a Ele”, afirmou explicando que “as ideias mudam na medida em que o homem se aproxima de Cristo, a verdade absoluta”. Guilherme baseou seu sermão nos três primeiros mandamentos de Deus ao povo de Israel, descritos no livro de Êxodo: não terás outros deuses; não fará imagens de esculturas e; não tomarás o nome de Deus em vão. Ao final, resumiu que a forma de manter a reverência é “não matando a sede existencial em qualquer outro lugar a não ser em Deus”. Jonas Madureira, bacharel em Teologia, mestre e doutor em Filosofia, completou este raciocínio após, explicando que ao invés do homem ter uma alma, o homem é alma e feita insatisfeita pelo próprio Criador.

Além de crer, é necessário confessar a fé e mantê-la pública, mesmo em uma sociedade mundana. Jonas abordou que o secularismo não é a forma como as pessoas se apresentam e que a divisão entre o secular e o não secular surgiu na própria Igreja. “Manchamos a soberania de Deus quando não admitimos que Ele existe em toda a esfera humana”, afirmou. A partir disso, a reflexão foi focada no quanto Cristãos se recusam a levar o Evangelho em determinados lugares porque os consideram mundanos e o quanto é possível apresentar de maneira relevante a palavra de Deus. Basta entender que o mais importante é o que se pensa e não as aparências.

Ult_Jovem_24_12_14_compacta_2Muita informação e muitas dúvidas a serem discutidas. Após uma manhã cheia de meditações e uma pausa para o almoço, começou o M15, palestras de 15 minutos em um bate-papo com especialistas sobre temas específicos. Com mediação de Luke Greenwood, os palestrantes Sandro Baggio, Caio Peres, Pipe, Philip John Greenwood e Zé Bruno abordaram assuntos que foram desde justiça social cristã ao rock ativismo e o punk apologeta, entre outros. Depois o público pode fazer perguntas diretas sobre cada abordagem. Zé Bruno, vocalista da Banda Resgate e pastor da Igreja Casa da Rocha, achou incrível a participação dos jovens. “O legal é que tem uma gente nova, gente que está começando a dar os passos ministeriais, mas já arejando a cabeça com reflexões profundas da fé e da missão. Isto é fantástico”, afirmou.

A Conferência Steiger fechou a noite de sábado com louvores e com mais uma ministração de David Pierce que, após uma encenação, contou alguns testemunhos e explicou porque às vezes algumas coisas dão errado na hora de cumprir o Ide de Jesus. “Estamos dando respostas para perguntas que as pessoas não estão fazendo. O que as pessoas pensam sobre Deus precisa ser considerado antes de falar sobre Deus a elas”, disse.

Ana Paula Peralva, 20, é da PIB Gólgota em Curitiba (PR) e Cristã há sete anos. Ela acha que os temas trabalhados no evento são poucos conversados na Igreja. “As pessoas querem saber muito da igreja para dentro e não da igreja para fora. Ninguém quer ir onde estão as pessoas e sim querem esperar que elas venham até elas”, falou.

“Aprendi que o mundo precisa ouvir e não preciso falar de maneira tão direta assim, mas que podemos nos expressar com arte e com música, algo que atrai de um jeito diferente”, explicou Daniela Sena, 26, que faz parte do Projeto 242 e nunca havia participado de um encontro como este. “Aprendi que o que faz a gente ser secular, ou não, não é a forma como nos vestimos, mas a forma como pensamos”, concluiu.

Luke Greenwood, membro da Missão Steiger e da Banda Alegórica, foi quem dirigiu toda a Conferência e ao final estava muito cansado, porém feliz. “Sinto que o objetivo foi cumprido. Para mim, o marco principal disso é o número de pessoas vindo e conversando interessados em missões, querendo se envolver oferecendo talentos e dons”, afirmou. O desejo é de que em 2015 possa acontecer a terceira edição do evento. “Vamos pensar em novos aspectos que precisamos falar e perceber as necessidades e as dúvidas que estão nas igrejas em termos de entendimento e treinamento. Espero que haja mais oportunidades das pessoas se envolverem”, disse.

É possível que o envolvimento aumente se o que foi entendido por Marcus Vinícius Vicente, 24, do Projeto 242, for colocado em prática. “Eu tinha receio de trazer coisas do mundo para a Igreja e hoje eu entendi que a gente é quem tem que ir para fora”, comentou antes de ir embora após o término da Conferência Steiger 2014.

Para participar do Treinamento Compacta e mergulhar nos temas missões urbanas, globalização, arte e secularismo é necessário se inscrever pelo site. O treinamento acontece de 19 a 30 de janeiro de 2015 com palestras, louvor, orações e práticas de evangelismo. As vagas são limitadas.

 

Karol Coelho, 23, jornalista

 

Por que sou cristão protestante?

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Ser um cristão protestante consiste, sobre todas as coisas, em identificar equívocos inegavelmente absurdos e, dialogavelmente, fixar estacas públicas de discordâncias contra estas anomalias. Quando falamos em protestar, necessariamente, pressupõe-se a existência de uma fonte anterior que, na cosmovisão de quem protesta, produziu incoerências intoleráveis. Portanto, neste caso, o movimento protestante ao qual nos referimos, milita a favor de um conjunto de mudanças na idiossincrasia teológica da instituição cristã denominada Igreja Católica Apostólica Romana.

Embora este movimento de inconformidade com os postulados católicos tenha o seu nascimento oficial no ano de 1517, ficando, a partir daí, conhecido como Reforma Protestante, já havia propostas semelhantes de reformulação que datam de períodos bem anteriores ao século XVI. Exemplos? Pedro Valdo, no século XII, rompeu definitivamente com a Igreja Católica, e passou a ensinar que todo fiel era depositário do Espírito Santo, e que cada um podia interpretar livremente as Escrituras, sem a necessidade desta igreja. Na mesma época, Pedro de Bruys, que era um padre instruído e bom orador, começou a ensinar contra o batismo infantil e que era preciso rebatizar os adultos; que só houve uma vez a transubstanciação do pão e do vinho, isto é, na Santa Ceia; que os mortos não se beneficiavam de nossas orações, esmolas e indulgências, e que as igrejas, imagens e cruzes não tinham valor salvífico.

Outro caso mais antigo ainda foi o do monge Ghothescalch, que, no século IX, dizia que Cristo não havia morrido por toda a humanidade (uma espécie medieval de Expiação Limitada calvinista). Enfim, a história está abarrotada de exemplos de indivíduos que discordaram das ideologias do catolicismo. Em síntese, a Reforma Protestante e o protestantismo contemporâneo têm o seu sustentáculo em três arrimos biblicamente consistentes e historicamente eficientes. A consciência deste tripé, de forma sistemática ou não, foi o fator que desencadeou no espírito dos reformadores o faraônico protesto que eles se dispuseram a pleitear. Assim sendo, estes três princípios resumem os motivos que, depois de me tornar cristão, levaram-me a optar coerentemente por ser um cristão protestante. Vejamos um por um:

A igreja não pode monopolizar o sagrado
A Igreja, enquanto conjunto não geográfico e atemporal de todos os crentes em Jesus Cristo como formulação de um corpo do qual Ele é o cabeça, pela necessidade do encontro e da comunhão perene, necessita se dividir em grupos geográfica e transitoriamente reconhecíveis. Chamamos estes grupos também de igreja. O grupo ou, melhor, a igreja, seja ela qual for ou qual nome tenha, em hipótese alguma, pode asseverar que o sagrado, isto é, a relação com Deus e o seu Reino, é de exclusivo e privado pertencimento do seu patrimônio. Isto é sectarismo, ou seja, é comportamento e opinião de seitas restauracionistas. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, ratificou um axioma religioso que esteve presente em sua história desde sua concepção nas entranhas do imperador Constantino: “extra Ecclesiam nulla salus”, que significa “fora da Igreja [Católica] não há salvação”. Isto tudo me faz lembrar um comentário atribuído a Cipriano: “Ninguém pode ter a Deus por pai, se não tem a Igreja [Católica] por mãe”. A história, entretanto, demonstra claramente que, de fato, Deus tem muitos a quem nenhuma igreja tem, assim como as igrejas têm muitos a quem Deus não tem.

A igreja não pode desconsiderar a divergência
É um macro-princípio da democracia uma afirmação popularmente atribuída a Voltaire, embora não seja localizada em nenhum de seus escritos: “Eu posso não concordar com nada do que você diz, mas lutarei até a morte a fim de que você tenha o direito de dizer”. As igrejas cristãs devem se ancorar no mesmo fundamento, ou seja, a liberdade de expressão é o direito fio condutor que rege qualquer progresso de interpretação da realidade. Como as doutrinas, liturgias e práticas teológicas que as igrejas assumem como corretas são produtos da interpretação imperfeita da Bíblia por parte do homem, então, deve-se considerar qualquer leitura discrepante do texto bíblico como plausível de avaliação.

O que a Igreja Católica fez durante toda a sua existência, foi oficializar os seus posicionamentos eclesiásticos e teológicos como inerrantes e inexoráveis, desconsiderando, censurando e, não poucas vezes, punindo opiniões divergentes. Veja o que teólogo católico Prof. Felipe Aquino escreveu em seu livro “Para Entender a Inquisição”:

“Nunca um papa revogou uma verdade de fé ensinada por um anterior, e nunca um dos 21 Concílios universais que a Igreja realizou, cancelou um ensinamento doutrinário de outro realizado antes. O Espírito Santo não se contradiz, e não deixa a Igreja errar no essencial da fé. A história confirma isso.” (pag. 16).

Será mesmo que a história confirma este suposto fato ou demonstra o inverso dele? O Papa Eugênio IV condenou Joana d’Arc a ser queimada como uma bruxa, e depois o Papa Benedito XV decretou que essa mesma mulher fosse canonizada (1920). No mesmo livro supracitado, há o relato de que “quando em 1231, o Papa Gregório IX oficializou o tribunal do Santo Ofício, proibiu o uso da tortura, como era tradição na Igreja. Mas, 20 a 30 anos mais tarde, o Papa Inocêncio IV julgou legítima a sua aplicação”. (pag. 147). Onde está a infalibilidade papal nestas decisões? Se nem a própria Igreja que se considera inerrante e absoluta, desconsiderando, para tanto, pensamentos diferentes de suas crenças, consegue entrar em consenso dentro de si mesma, qual será a sua credibilidade opinativa?

A igreja não pode legislar sobre si mesma
É fato que a igreja, enquanto manifestação visível da Igreja-Corpo, necessita, inevitavelmente, da condução Daquele que se autoproclama como seu cabeça, seu órgão pensante e decisório, ou seja, o Senhor Jesus Cristo. Esta condução, embora possa se apresentar historicamente por meio de avivamentos, reformas, expansões, dentre outros eventos visivelmente espirituais, não pode ser dirigida através de invencionices da imaginação humana, que destoem do padrão bíblico de doutrinas, organização eclesiástica, liturgia do culto, práticas de proselitismo etc. Não cabe à igreja a liberdade criativa sobre sua própria essência, propósito e comportamento. Todo o direcionamento já está posto e estabelecido nas Sagradas Escrituras.

É óbvio, no entanto, que há certas características inéditas que poderão surgir no espaço-tempo de alguma geração, que, sem nenhuma objeção bíblica, poderão ser introjetados na rotina da igreja a título de instrumentação e funcionalidade contextual, como novas tecnologias, arquiteturas diferenciadas, demandas iminentes de outros profissionais, técnicas inovadoras de evangelização e discipulado, sensatez para com horários, lugares e formatos de reuniões, dentre uma pluralidade de outras adaptações. Tudo isto, porém, consiste em formas razoavelmente comuns de qualquer instituição se posicionar em determinadas microssociedades ou nações inteiras. Contudo, o que o catolicismo romano sempre fez foi adicionar ao escopo eclesiástico, símbolos de fé, práticas litúrgicas e dogmas integralmente não bíblicos. Podemos mencionar o terço, o sinal da cruz, a confissão com o padre, a adoração [ou veneração] aos santos, a beatificação, a canonização, a intermediação mariana, a intercessão dos santos, a existência de um representante de Jesus na Terra (o Papa), a diferença entre pecados mortais e veniais, as rezas por repetições, as procissões, a infalibilidade papal, as promessas, as penitências e uma série inumerável de outras invenções.

 

– Marlon Teixeira, 21 anos, é de Ipatinga, MG.