Por Rafaela Senfft

A leiteira
Johannes Veermer

A arte é o reflexo do social. Essa frase é crucial para entender a escola artística dominante de cada tempo. A temática sempre representa aquilo a que se dá importância em cada época. Na arte renascentista, por exemplo, é comum vermos muitos corpos anatomizados, músculos e veias que saltam à pele e homens nus que tomam o conteúdo das narrativas bíblicas e mitológicas. Isso já era uma ideia recorrente na Grécia Antiga, mas no Renascimento o corpo toma uma ênfase bastante peculiar na exibição e tensionamento de músculos, refletindo o movimento do humanismo, a importância que o homem estava tomando na história.

A arquitetura greco-romana toma o cenário das telas. Mesmo que as cenas sejam passadas no Oriente Médio, são os arqueamentos romanos, pilares coríntios e as abóbodas que formam cenários, porque eram elementos considerados importantes para aquela cultura. Assim, segundos os próprios italianos, demonstravam a afirmação de uma cultura que renasceu depois da feroz estética medieval.

O que poderia ser o tema de uma pintura ou escultura em toda história da arte na Europa, desde a Grécia até o século 18? Existia uma hierarquia que transitava entre Maria, Jesus, santos mártires, divindades greco-romanas, membros da família Médici e da aristocracia. Em meio ao que era produzido em toda a Europa nesse período, a arte holandesa e de alguns países protestantes do norte da Europa do século 16 e 17 é impar.

Ao olharmos para a arte holandesa, o que vemos é algo muito diferente: pessoas comuns protagonizam as telas dos pintores, em seus afazeres mais corriqueiros. Uma mulher derramando leite na tigela; um casamento de camponeses (classe que antes não era tema de uma obra de arte); o cotidiano da rua, crianças brincando; naturezas mortas feitas com um primor nunca visto antes. Continue lendo →

Stephen Camilo

Eu já morei em muitos lugares, e acho que a partir da terceira mudança comecei a gradativamente parar de sentir saudade.

Hoje, sem nenhum motivo, me perguntei como fui reduzindo essa saudade a quase zero. E a resposta a qual cheguei é que fui deixando de estar presente onde estava e passei a estar em lugar nenhum. Sim, é extremamente absurdo. Isso até parece impossível, afinal como estar em um lugar sem estar nele?

Isso é paradoxal, e parece maluquice, mas essa “técnica emocional” não é só dos nômades urbanos. Até mesmo pessoas que nasceram e cresceram na mesma casa fazem isso tanto quanto eu fiz. O segredo para estar sem estar é não se envolver, não participar, não contribuir e jamais, jamais se doar.

Para sentir saudade é preciso deixar saudade

Num relacionamento saudável a saudade que sentimos é do tamanho da saudade que deixamos. Pra dar falta de um pedaço de você é preciso deixá-lo para trás.

É da natureza dos encontros deixar um tanto de si e receber um tanto dos outros. A troca é inevitável, e não é possível deixar de estar e sentir. Só é possível estar com menos qualidade, estar mal e causar mal-estar. E talvez esse “mal estar” não deixe saudade, mas somente lembranças.

Não sentimos falta do que está com a gente. Por isso você não vai sentir falta do pedaço de você que você não deixou.

Pode parecer muito esperto não deixar um pedaço de si, não se doar. E acho que nunca houve uma geração de homens e mulheres tão espertos, que tanto se poupa. Mas também temos visto uma onda sem precedentes de jovens infelizes.

Deixe um pedaço seu

Jesus disse “Tomai, comei; isto é o meu corpo” (Mt 26:16b). Ele deixou um pedaço dele, se partiu por inteiro pelos seus discípulos. Ele lavou os pés, Ele curou, Ele ensinou.

De Jesus saia virtude! As únicas pessoas que ficaram sem um pedaço de Jesus foram as que o rejeitaram, isso é muito triste.

Na cruz ele se entregou 100%. E podemos ter 100% dele se o buscarmos 100%.

Acho que um dos maiores medo que temos, junto com a Traição é de sentir falta de alguém. Temos que lidar com a saudade, um dia nossos caminhos se desencontrarão e vida termina.

Ao pensar nisso fico constrangido pelos abraços que não dei, os amigos que não vi, o tempo e o carinho que não dei só pra não sentir saudade.

Deus mesmo diz que tem saudade do seu povo, no Antigo Testamento e no Novo temos a grande festa de reencontro de Jesus com a Igreja.

Deus deixou um pedacinho dele na gente já no momento da nossa criação, quando ele nos fez a imagem e semelhança dEle mesmo.

Pecamos, ofendemos o pedaço divino em nós, Jesus chorou.

Eu não me engano e nem quero mentir para você, amar vai doer, vai arrancar pedaços sim, vamos sentir saudade. Mas parece que na lógica de Deus só vai chegar inteiro quem se compartilhar no caminho.

Stephen Camilo, 28 anos. É formado em Marketing, mora em Curitiba e congrega na Primeira Igreja do Evangelho Quadrangular.

Por Daniel Theodoro

O marido chega à mesa do café da manhã. Um corpo que apresenta os primeiros sinais de uma tímida velhice.

A esposa mexe a colher no bule para espalhar o açúcar. O ponto de doçura é atingido sem necessidade de experimentação. Trinta anos de casamento revelam o conhecimento exato das vontades da companhia.

Amor que nasceu ainda inseguro, maturidade que chegou. Hoje, dois filhos criados e o sonho de morar no interior.

Ela inicia o diálogo para afugentar o sono que persiste. Ele concorda enquanto leva a xícara de café à boca, em seguida: – Lembra do Edson? Se aposentou. Saiu de lá, está todo mundo parando.

Ela murmura um som de concordância: – Só você ainda não parou, diz.

– É. Não parei, segue ele, com um sorriso.

A breve recordação se inicia. O início da vida de casados, a chegada do primogênito, as horas extras na empresa, as horas na sala de aula, o retorno aos estudos, o segundo filho, as dívidas, a conclusão da faculdade, o carro velho, mais dívidas, a pós-graduação. Continue lendo →

Por Lucas Peterson Magalhães

Você já viu essa série nova que lançou na Netflix?

E a última temporada de Game of Thrones? (Pode substituir por qualquer outro título de sua preferência, em inglês fica mais legal: E a nova temporada de The Walking Dead, de House of Cards, de How to Get Away with Murder, de Dear White People?)

Não acredito que você não assistiu a este filme. Foi indicado ao Oscar, levou Globo de Ouro e o kikito no Festival de Gramado!

É sério, você tem que ir nessa hamburgueria. Tá na lista das 14 melhores de São Paulo. É o melhor hambúrguer do mundo!

O quê? Você nunca ouviu Belchior? Nem Liniker? Nem aquele álbum de bossa nova do Miles Davis, lançado em 1963? Em que mundo você vive? Já pro Spotify!

E aí, quando é que sai esse casório? E os filhos? Os cachorrinhos? E a pós? A casa?

Eu poderia criar mil outras frases como estas, mas acho que já é o suficiente para demonstrar as diversas exigências cotidianas.

Esse é o mundo no qual a gente vive. Todo dia são milhões de notícias, tweets, posts, snaps, que parecem ser imprescindíveis hoje e para os quais ninguém liga mais amanhã ou depois. Continue lendo →

Por Jeferson Cristianini

Uma das marcas da sociedade contemporânea é a individualidade. A pós-modernidade imprimiu nas pessoas o desejo de olharem somente para si mesmas, reproduzindo assim uma sociedade individualizada e narcisista. “Tudo é meu”. O pronome possessivo tem sido usado por várias vezes e soa como música aos ouvidos dos moderninhos de plantão.

Essa sociedade individualista ao extremo enaltece as pessoas que pensam e agem somente a partir de si mesmas, e nega o conceito do coletivo. Tudo é compartimentado, tudo é feito sob encomenda a gosto do freguês, tudo é personalizado, tudo é com a “minha cara”. Tudo deve ser personalizado. A ideia de coletividade vai se perdendo e se diluindo diante de tanto egoísmo concentrado.

Os fones de ouvidos são um dos símbolos de nossa geração individualizada. A grande maioria das pessoas ao nosso redor está conectada à internet em seus smartphones, vidrados na tela e ouvindo um som nos fones. Especialistas dizem que ao colocar o fone, o cérebro entende que automaticamente estamos nos desligando de tudo que nos cerca. É curioso como muitas vezes as pessoas estão no mesmo ambiente, mas cada uma ligada no seu som.

Os fones de ouvidos se tornaram uma barreira para os relacionamentos, pois limitam as conversas e as interações sociais. Mas para quem vive conectado, para quê conversar pessoalmente? Os fones de ouvido tapam os ouvidos para os ruídos do contexto e levam a um “outro mundo”. Um “mundinho” regado a muita música. Um som que desliga as pessoas do mundo real.

Um dos pontos positivos dos fones de ouvidos é que com eles não precisamos, às vezes, ouvir uma música de má qualidade, ou estilos musicais com os quais não nos identificamos. Os fones são de todos os tamanhos, cores e modelos. As pessoas saem de casa ouvindo música, trabalham ouvindo música, e voltam para casa ouvindo música. Assim como o celular se tornou uma “extensão” das pessoas, é como se os fones fossem parte da orelha. Orelhas sem fones ficam esquisitas nessa percepção moderna e urbana. Continue lendo →