A maior aventura de todas

Por Matheus Loures

UltJovem_14_04_14_MochilaDurante minha adolescência muitas coisas marcaram minha vida. Foram esses acontecimentos que definiram o modo como expresso minha fé. A segunda-feira na escola era um momento tenso pra mim. É impressionante como o dia mais preguiçoso da semana é, surpreendentemente, o mais exibicionista. No colégio todo mundo tinha casos de fim de semana, cheios de adrenalina, pra contar. Todos, menos eu.

Era uma cena cômica, repetida todo início de semana. Meus amigos escolares e eu nos reuníamos no recreio e todos começavam a contar as aventuras vividas durante o fim de semana. Eram, de fato, casos e causos que fugiam do cotidiano previsível. Eu achava impressionante como aquele bando de jovens, de tendência contraculturais, tinham histórias para compartilhar. Claro que contavam experiências recheadas de aventuras sexuais, uso de alucinógenos, transgressão a leis e toda sorte de imoralidade, leviandade, iniquidades e borrachices. Todos sabiam que eu era cristão, muitos até respeitavam, mas mesmo assim é difícil expressar meu constrangimento por não ter histórias para contar. Eu procurava alguma coisa para falar e lembrava que no sábado eu tinha ido ao culto de jovens da igreja, no domingo eu tinha ido à igreja de manhã, na casa da vovó de tarde e na igreja à noite. Ahh, mas que decepção com meu previsível fim de semana de crente! Que insatisfação com minha vida de “crente-coxinha”! Será que era por causa disso que às vezes eu ouvia um “ Ah, vai se F*%$#!” quando convidava meus colegas pra ir nas programações da igreja?

Graças a Deus, eu não me transformei em um “desigrejado” frustrado, pois o Espírito, além de purificar minha vivência cristã, dando-me experiências únicas, me ofereceu uma grande inspiração: o apóstolo Paulo. Poderia ter sido outro personagem bíblico, mas Deus quis que fosse ele. Um dia refletindo sobre o livro de Atos, eu imaginei a seguinte cena: Paulo chegando numa feira de comerciantes e trocando causos com aquele povo. O apóstolo dos gentios contaria suas historias de: cegueira e conversão, viagens por boa parte do mundo conhecido, sobrevivência a naufrágio, imunidade (“wolwerinica”) a picadas de pseudo-cobra, lidar com helênicos malucos que achavam que ele era Deus, receber tanta porrada a ponto de ser dado por morto. Com toda certeza do mundo, ninguém poderia acusar Paulo de ter uma vida entediante. A essa compreensão foram somada as fortes experiências missionárias que vivi na Caverna de Adulão e a inspiração na vida de pessoas que passei a caminhar junto. Logo as coisas mudaram pra mim. Com o passar do tempo eram esses mesmo colegas que paravam do meu lado muito curiosos para ouvir causos de uma vida que só existe quando guiada pelo Espírito.

Fato é que, geralmente, eliminamos toda noção de adrenalina de nossa vivência cristã no dia-a-dia. Até a dimensão da perseguição ao cristão (Mt 5.10 a 12) é abafada e seguimos preferindo criar cursos para “liderança-almofadinha”. Não estou defendendo que devemos seguir nossos impulsos joviais e nos esquecer da perseverança quando nossos dias ficam difíceis e previsíveis. Entretanto, tenho certeza de que vida com uma missão sempre será objeto de admiração, em meio a uma geração oca que não tem sentido em seu viver.

Mas como viveremos tudo isso? Tudo acontecerá naturalmente quando entendermos e vivermos a natureza da missão e do reino de Cristo. A ousadia para evangelizar, a disponibilidade para servir, a bondade da hospitalidade, a fome e sede de justiça social de mãos dadas com a doçura do amor; viver tudo isso em um sistema egoísta, humanista, materialista e anti-Deus será, com certeza, a maior das aventuras. Portanto, arregacemos as mangas e nos deixemos encher pelo Espírito a fim de manifestar o doce aroma de Cristo, que subverte a lógica dos nossos dias.

• Matheus Loures, 27 anos, é formado em Comunicação Social (UFMG 2009) e casado com Chrys. Desde 2010, e missionário da Igreja Caverna de Adulão e pastor da Comunidade Seiva em Alto Paraíso, a esotérica cidade do interior de Goiás. Escreve para o blog maloures.wordpress.com.

Nota
Artigo publicado originalmente no blog do autor.