O sofrimento humano nunca tem uma única explicação

Por Isabella Araújo

Há alguns anos, uma família e uma escola procuraram o Instituto Transformar, onde atuo, em busca de ajuda para uma criança. As reclamações eram muitas: agressividade, dificuldade em obedecer às regras e constantes conflitos. Para todos ao seu redor, aquela criança era o problema.

Mas bastou olhar um pouco mais de perto para perceber que a história era muito mais complexa. Ela nasceu em um lar como tantos outros lares brasileiros – onde a agressividade era a principal forma de controlar comportamentos. Cresceu em um território onde a violência parecia ser a resposta mais rápida para resolver conflitos. Foi vítima de abuso sexual. Suas primeiras experiências de cuidado e amor nasceram em meio à dor.

Diante dessa realidade, uma pergunta se tornou inevitável: como esperar que essa criança apresentasse um desenvolvimento diferente?

Um dia, diante de um comportamento considerado “impossível”, chamamos sua mãe ao Instituto. Acreditávamos que sua presença ajudaria a contornar a situação. Ela chegou com um fio nas mãos. Naquele instante, compreendi que a agressão não seria vencida por mais agressão. Não bastava intervir no comportamento da criança; era preciso compreender o mundo que a havia ensinado a viver daquela forma.

Foi ali que comecei a perceber que, em territórios vulneráveis, o sofrimento humano nunca tem uma única explicação.

O atendimento psicológico é indispensável, mas nenhuma sessão de terapia garante alimento, moradia ou segurança. Da mesma forma, a fé não pode ignorar dores produzidas pela violência, pela pobreza e pela exclusão. Quando reduzimos essas realidades a questões individuais, oferecemos respostas incompletas. Foi nesse ponto que entrei em crise: percebi que eu não conseguia mais sustentar uma leitura simplista do sofrimento humano nem da minha própria atuação profissional.

Essa inquietação me levou a uma pergunta que ainda hoje me acompanha: como posso, enquanto psicóloga e cristã, participar da restauração deste território?

Durante muito tempo, compreendi missão como anunciar o Evangelho. Mas, guiada pela reflexão do meu pastor e pai, fui levada a perguntar: como essa boa notícia alcança uma criança que nunca foi protegida? Como alcançar uma mãe que não sabe se haverá comida no fim do dia? Como alcança uma comunidade que aprendeu a sobreviver por meio da violência?

Enquanto buscava responder a essas perguntas, percebi que Deus não queria transformar apenas minha forma de pensar, mas minha própria vida. O chamado tornou-se claro: não bastava compreender; era preciso agir. Embora ainda não soubesse exatamente como isso aconteceria, já não conseguia continuar vivendo da mesma forma.

Passei a entender que o Evangelho anuncia a restauração de tudo que foi quebrado: nossa relação com Deus, com o próximo e com a nossa própria dignidade. Foi então que compreendi que Psicologia e missão cristã não competem entre si; elas se encontram no compromisso do cuidado integral.

Essa compreensão não transformou apenas minhas ideias, mas também minhas escolhas. Deixei um trabalho estável para reorganizar minha rotina e dedicar mais tempo à clínica e ao Instituto Transformar. Não porque tivesse todas as respostas, mas porque já não conseguia separar aquilo em que acreditava da maneira como escolhia viver.

Hoje entendo que Deus não estava apenas mudando minha compreensão sobre o cuidado; Ele estava me chamando a vivê-lo. Depois de enxergar isso tão concretamente, voltar atrás deixou de ser uma opção.

Se eu não faço parte da restauração que tanto espero encontrar, será que não faço parte do problema?

 

  • Isabella Araújo é psicóloga e integra o Instituto Transformar, projeto social da Igreja Batista do Caçote, em Recife (PE). Atua com crianças, adolescentes e famílias em contextos de vulnerabilidade social, buscando integrar Psicologia, fé e compromisso com o cuidado integral.

 

Leia mais:
» Muitas Andorinhas Fazem Verão – Renovo – Unindo Pessoas na Transformação Social da Cidade, Cilas Fiuza Gavioli
» A Igreja do Futuro e o Futuro da Igreja, Vários autores
» Conhecimento bíblico não transforma. A prática do evangelho, sim, Paulo Roberto (Bebeto) Araújo

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *