POV: fugindo do perdão
“Se alguém te decepcionou, é só cortar a amizade”, “bloqueia”, “dá unfollow”, “não aceite menos”
Por Layla Fischer
Desde que me casei, meu algoritmo foi rapidamente tomado por vídeos sobre relacionamentos. Esses dias, em um vídeo despretensioso em que uma mulher reclamava de alguma atitude desagradável do marido (como deixar a toalha molhada em cima da cama), surgiram centenas de comentários: “eu terminava”, “foge”, “você merece mais do que isso”. O mais curioso é que ninguém estava falando sobre traição, violência ou abandono. Era apenas algo como uma toalha molhada. Ainda assim, a solução sugerida era romper o relacionamento.
Se dermos um zoom nas conversas de hoje, é exatamente isso que refletem. Algo como: “se alguém te decepcionou, é só cortar a amizade”, “bloqueia”, “dá unfollow”, “não aceite menos”. É a cultura do cancelamento e da substituição rápida de tudo – principalmente dos relacionamentos. Fruto de um pensamento que transformou a autenticidade no bem supremo: se algo não me faz feliz, devo deixá-lo para trás.
Porém, se não cuidarmos, a cultura também nos discipula. Pois não é difícil encontrarmos esse padrão de comportamento de intolerância em nosso meio, como cristãos. Justo nós, os que nascemos em pecado, mas fomos aceitos.
Quando vemos, deixamos de cumprimentar aquela pessoa que nos contrariou. Respondemos com frieza a alguém que demorou para responder no WhatsApp ou esqueceu o aniversário. Ficamos dias sem falar com o cônjuge por causa de uma toalha deixada em cima da cama ou de uma louça que nunca foi lavada. E, em vez de buscarmos a reconciliação, fugimos dela.
De repente, aquilo que começou com algo pequeno, se torna um grande pecado – amargura, ressentimento, impaciência, ódio. Pecados que nos tornam incapazes de viver relacionamentos reais. Porque toda relação duradoura, cedo ou tarde, exigirá perdão.
Nesse sentido, um versículo conhecido nos lembra: “se possível, no que depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.18). Mas Paulo não está falando de uma paz superficial, construída à custa da indiferença ou do afastamento. Pelo contrário. Logo em seguida, ele acrescenta: “não vos vingueis a vós mesmos… porque está escrito: a mim pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12:19).
Talvez seja justamente aí que mais tropeçamos. Alimentamos o ressentimento porque, no fundo, ainda queremos que o outro “pague” pelo que fez. Mas perdoar é confiar que Deus continua sendo o único detentor da justiça. Não porque a ofensa foi pequena, mas porque a cruz nos lembra que nós também éramos devedores e fomos alcançados por uma graça que não merecíamos.
No fim, fugir do perdão parece um caminho de autoproteção, mas é uma forma silenciosa de incredulidade. É agir como se Deus não fosse justo o bastante para julgar ou gracioso o bastante para restaurar.
E nisso, resgatamos a verdade de que o evangelho não nos manda apenas perdoar. Ele cria em nós uma nova identidade, da qual o perdão passa a fazer parte.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não é convencer as pessoas de que o perdão faz bem. É lembrar que o perdão não nasce de quem perdoa, mas da identidade de quem foi perdoado. É reconhecer que não desistimos das pessoas, porque Jesus não desistiu de nós.
Afinal, caminhamos para um reino onde toda reconciliação será completa. Por isso, cada pedido sincero de perdão, cada conversa difícil e cada passo em direção ao outro são pequenos ensaios da eternidade. Assim, não faz sentido passar esta vida fugindo do perdão, quando o fim da história é uma mesa onde pessoas reconciliadas se assentarão juntas. E viverão com aquele que viu o pior de nós, e resolveu ficar.
- Layla Fischer, 27 anos, é assessora jurídica, congrega na Igreja Presbiteriana da Silva Jardim, em Curitiba, PR, e escreve para o blog Ultimato Jovem desde 2021.
