Atentar-se para o que Raquel, Jorge, Karys e Daniel têm a dizer é encorajador. Eles foram os convidados da live realizada por Diálogos de Esperança no dia 20 de maio de 2025, cujo mote foi “O que um adolescente cristão gostaria de dizer sobre igreja, família e mídias sociais?”.

Eles têm entre 16 e 17 anos, congregam numa igreja evangélica, concordam que a afirmação de que a internet é hoje a principal fonte de influência e riscos para os adolescentes.

Logo depois da live, recebemos a seguinte mensagem de uma ex-diretora de escola: “Que bênção a live de hoje. Dormirei feliz sabendo que existem adolescentes tão comprometidos com o reino. Há esperança!”.

Ser adolescente é uma montanha-russa

  • Ser adolescente é entrar numa montanha-russa emocional. São muitas decisões a tomar sem sabermos o que fazer.
  • Durante a pandemia, o uso das mídias sociais era a minha forma de interagir com os meus amigos, com o resto do mundo. Reconheço que há muitas questões negativas com o uso excessivo. A falta de autoconhecimento interfere muito, como quando usamos as mídias sociais e não temos certeza de nossa identidade, de quem nós somos, de quem são os nossos amigos. Eu só fui entender mais no final da minha adolescência, nessa fase que eu estou.
  • A escola é um ambiente muito diversificado. Cada um tem seu próprio mundo, suas próprias crenças e lutas, seu próprio jeito. É muito desafiador para um crente estar nesse ambiente.
  • Encorajo os pais a procurarem ter a atenção dos filhos, a incentivarem os sonhos deles e perceberem suas necessidades, suas lutas, mas o mais importante de tudo: estarem lá para eles, porque isso absolutamente faz toda a diferença. A gente tem um Pai no céu que cuida de nós, mas para entender o amor desse Pai no céu precisamos ter uma relação de amor, de amizade com os nossos pais. A gente tem o amor do nosso Pai no céu, mas ele também deixou os nossos pais na terra para cuidarem de nós, para nos ajudarem a passar por essa fase.
  • Deus tem falado muito comigo por meio das palavras, dos louvores, dos acampamentos, e ele tem me mostrado de fato como é bom viver em comunhão com os irmãos que a gente ganha na fé. Isso tudo me mostra como ele é muito gracioso comigo. Ultimamente, ele tem me ensinado muito sobre confiança em meio às ansiedades da vida, principalmente em relação ao futuro. Ele tem me dado força, dia após dia, para vencer todos os desafios que aparecem e me ajudado a deixar, aos poucos, o medo para trás.

Raquel Simões Marotta, 17 anos, Belo Horizonte, MG. Igreja Batista da Redenção.

Foi na igreja que eu aprendi a me comunicar

• Precisamos de ajuda para enfrentar o acúmulo de informações e o sufoco psicológico dentro da realidade que nós, adolescentes, vivemos.

• Faço parte da Igreja Evangélica Congregacional Maanaim e estou muito envolvido em projetos sociais. A igreja é um pilar e a Bíblia é norteadora. Acredito que é fundamental o envolvimento do adolescente tanto na igreja quanto na sociedade.

• As pessoas na escola vêm para o embate, querem criar um debate político em cima da questão da religião, e muitas vezes a gente vê que ainda há uma intolerância religiosa nesse sentido por parte dos professores. Mas a gente segue na fé mesmo, na fé de multiplicar, de fazer grupo de oração, de convidar para um culto de jovens e levar a Palavra. Em meio a todas essas dificuldades na escola, eu acredito que a gente não pode parar, a gente tem que ter fé, persistir e estar firme no que a gente acredita.

  • Participo do Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPOP) e atualmente estamos trabalhando com o projeto “Amplificando nossas vozes digitalmente”. Hoje a internet é uma terra sem lei, não é regularizada, e os adolescentes muitas vezes estão vulneráveis, sim. Nós, adolescentes, criamos do zero uma plataforma só de adolescentes, com cursos de formação, com grupos de bate-papo, para que, ao entrar lá, ele saiba que tem uma rede social segura.
  • Acredito que as lideranças cristãs têm o papel de, além de ensinar a Palavra, falar de temas cotidianos também.
  • A igreja em que congrego, pra mim, é uma família. Desde criança fui instruído no caminho de Jesus. Aprendi a palavra de Deus, conheci seus ensinamentos e até hoje participo de várias doutrinas para cada vez mais aprender o conteúdo da Palavra de Deus. Foi na igreja que eu aprendi a me comunicar, aprendi a liderar.

 Jorge André de Araújo Paixão, 17 anos, Maracanaú, CE. Igreja Evangélica Congregacional Maanaim.

O papel da igreja é esperançar

  • Os pais precisam trocar as lentes dos óculos para [enxergar] seus filhos, eles não são mais crianças, eles conhecem muito mais do que os pais acreditam, eles têm habitado entre dois universos: o real, que cobra, determina; e o digital, que os aceita e os alimenta com todo o tipo de informação. O que geralmente acontece é que nessa fase eles são rotulados, cobrados, e se tornam “órfãos de pais vivos”.
  • O estado atual das relações exige dos adolescentes mais do que conhecimento. Diante da realidade, onde tudo é líquido e descartável, precisamos de boas referências de nossos pais e da igreja. Neste contexto, a igreja tem o papel de “esperançar”, de dizer que sim, é possível; de dizer que existe um caminho e ele é Jesus.
  • A escola é um campo de guerra.
  • A igreja é fundamental: é um abraço enorme e é muito recompensador ver como Cristo alcança até nos lugares mais difíceis, nas situações mais adversas.
  • Em vista do contexto do uso excessivo das mídias digitais, em nossa igreja desenvolvemos um projeto anual que chamamos de Desconectados. Os adolescentes passam um dia inteiro sem o celular. E a gente utiliza esse dia para refletir sobre muita coisa, sobre de que forma a gente tem utilizado o celular, o que fazer sem ele.
  • Quando a gente fala para nossa igreja, para nossa liderança, eu acho que a gente precisa ter espaços de conversa, espaços de discussão e, também, espaços de aprendizado, onde possam ser discutidos vários assuntos.
  • Estudo num colégio de referência aqui de Recife, o qual me ajuda muito a construir minha percepção crítica e política sobre a sociedade. Sou aluna do último ano do ensino médio e pretendo seguir a carreira social, das ciências sociais com foco nas relações públicas.

 Karys Kalley dos Santos Lacerda, 16 anos, Recife, PE. Igreja Batista em Coqueiral.

Essa não é uma geração perdida

• A adolescência é uma fase extremamente importante, porque estamos em constante mudança. Numa semana eu posso estar pensando algo, mas na semana seguinte eu penso totalmente o contrário do que eu pensava antes.

• Na Igreja, nós aprendemos a seguir o exemplo de Jesus, nós aprendemos a perdoar, a amar o nosso próximo, a resistir ao pecado, a confiar em Deus, e tudo isso mesmo quando nós passamos por momentos difíceis.

• No uso da mídia social é onde nós, adolescentes, estamos em maior vulnerabilidade, mas eu também vejo que pode ser uma benção para a nossa vida. Creio que a rede social hoje é o maior meio de propagação do evangelho que nós podemos utilizar.

  • Na escola, o grande desafio do adolescente não é se declarar cristão, mas sim agir coerentemente como cristão. No colégio temos um grupo de estudo bíblico chamado Todos Por Um (TPU). Ele acontece no segundo intervalo, às quartas-feiras. São apenas quinze minutos, mas a gente fala um pouco sobre Jesus e a importância dele em nossa vida.
  • O que mais precisa ficar no coração dos pais é: acreditem em seus filhos. Porque muito se fala que a geração de hoje é uma geração perdida. Eu não vejo dessa forma. Pelo contrário, eu vejo que é uma geração que ainda tem esperança, uma geração que vai mudar o cenário das igrejas, que vai mudar hoje o nosso mundo, a sociedade. Mas precisamos de alguém para pagar o preço por nós. Meu pai sempre fala em algumas pregações sobre a diferença entre um vendedor de mapas e um guia. O vendedor de mapas entrega o mapa e fala: “Vai e se vira”. Já o guia não, ele te leva, ele te mostra o caminho por onde se deve andar. Então, pais, por favor, nós precisamos que vocês paguem um preço por nós, para que nós possamos ser melhores filhos e cristãos!

Daniel Palhão Zemuner, 17 anos, Londrina, PR. Igreja Presbiteriana Independente.

 

Artigo publicado originalmente na edição 414 de Ultimato

 

Saiba mais:
>> Sou adolescente e agora?, Adelcio Ferreira
>> O Discípulo Radical, John Stott

 

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