Por Gabriel Louback

 

Acredito que todo mundo tem o seu lugar no mundo. Pode parecer meio redundante (e talvez seja), mas o nosso lugar no mundo é aquele que já ocupamos hoje. Porém, na maioria das vezes, definimos nosso lugar no mundo a partir do que produzimos, do que fazemos, com o que trabalhamos, inclusive a área em que servimos na igreja.

Por exemplo, eu poderia dizer que meu lugar no mundo tem a ver com o fato de eu ser jornalista desde 2007. De ter entendido há sete anos que o que faço vai além do que escrevo. Poderia dizer que tem a ver com as histórias que conto e com ter entendido que eu sou (era?) um storyteller já em 2012 e me definia assim naquela época. Ou poderia falar de quando entendi que gostaria de fazer isso por causas sociais que acredito e, por isso, saí da mídia ‘tradicional’, das agências de publicidade e em 2014 fui fazer um curso de missiologia por um ano na Noruega. Poderia dizer que meu lugar no mundo tem a ver com o fato de ter descoberto meu estilo de me relacionar com outras culturas na Índia, que meu coração ardeu e arde pelas vozes que não são ouvidas ao trabalhar por quase quatro anos na Itália com refugiados que eram perseguidos por serem cristãos. Poderia ter a ver com o fato de no fim das contas perceber que meu coração está perto do materialmente pobre, pois acredito na quebra desse ciclo de pobreza, pois sei que sou tão pobre quanto qualquer outra pessoa e que, juntos, podemos ver vida florescer, riquezas interiores transbordarem e ver comunidades, vilas, cidades e nações transformadas pela esperança que há na vida.

Mas o nosso lugar no mundo é mais do que isso. Na verdade, creio que seja antes disso. Nosso lugar no mundo está baseado em quem somos, e não no que fazemos. Por isso, talvez, seja tão difícil descobrir o nosso lugar no mundo, pois geralmente não nos perguntamos quem nós somos. Essa talvez seja a pergunta mais importante dos nossos tempos.

Toda a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus, e todos carregamos essa centelha divina dentro de nós. Originados na infinita multiplicidade de Deus, como humanidade, antes de existirmos (de fazermos algo ou exercemos um papel), nós somos (temos uma identidade).

 

 

O nosso lugar no mundo é definido por quem somos e descobrir isso é “Conhecer-te a ti mesmo”, mas é também conhecer, descobrir e desvendar o Eterno que se manifesta através de nós; nossa identidade enraizada nele, nossa identidade originada na Fonte de Vida, quem somos nele e quem somos porque ele é.

 

Quem somos e nosso lugar no mundo vem daí, desse lugar de Deus no mundo, como enxergamos isso e como decidimos fazer parte disso. Antes de fazermos algo no mundo, nós somos alguém nele. Nosso lugar, nossa morada e onde habitamos refletirá nossa percepção de quem somos nele, de como vemos o Eterno se mover entre nós e em nós. Creio que, a partir disso, o que faremos, onde faremos e como faremos será um fluir natural, não mais definindo o nosso lugar no mundo, mas sendo uma manifestação desse nosso lugar. Quem somos.

 

  • Gabriel Louback é um mensageiro, fazendo o invisível tornar-se visível, e missionário na República Dominicana. Seu lugar no mundo é ser alguém que se incomoda com a injustiça; que ama a vida e as pessoas independentemente do passado ou do presente delas; que se inclina aos excluídos, às minorias e aos que a sociedade e as instituições religiosas não permitem se encaixar em seus padrões de comportamento e funcionamento; que tem um coração que queima por acolher a todos; que está mais interessado em conhecer como as pessoas são e deixar que o Espírito trabalhe para que elas sejam o que Ele sonhou para elas; que busca ver a imagem e semelhança do Eterno em toda a criação e criatura; alguém para quem as palavras afeto e acolhimento têm feito mais sentido do que qualquer outra coisa; e alguém que tem perdido o medo de ser quem é e de se expor como vê a si e o mundo.

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