Por Júlia Gomes

“Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça.”

Refleti, pensei e quebrei a cabeça sobre como começar este texto sobre um assunto tão urgente e pertinente. A Palavra venceu novamente, não poderia deixar de iniciar a reflexão com o trecho citado acima de Mateus 6.33, ordenança do Senhor Jesus para nós, seu povo. Falar sobre justiça é algo belo e empolgante de se ver, nos dá uma certa esperança, ainda que estejamos indignados. Na verdade, por estarmos indignados, o fato de pessoas compartilharem do mesmo sentimento que o nosso nos deixa entusiasmados.

Ao mesmo tempo, nós cristãos clamamos pela vinda de um reino cuja esperança escatológica pode acabar por nos tornar acomodados com as crises que nosso mundo caótico enfrenta. Creio firmemente que, fechar nossos olhos para as chagas da nossa sociedade com a desculpa de que a solução final ocorrerá somente no Dia do Grande, reflete um descaso e apatia para com o ser humano e, consequentemente, para com o Criador. Aquele que realmente compreendeu a mensagem do evangelho se importa com as necessidades do seu tempo – mais ainda, se importa com pessoas. E ao nos importarmos com pessoas, a sede por justiça inflama nossos corações.

Percebe onde quero chegar? Existe uma codependência entre o reino e a Justiça. A justiça não vem sem o reino, e o reino não existe sem a justiça. É por isso que Cristo nos ordena buscarmos ambos. Agora que apresentei minha linha de raciocínio, podemos conversar – racismo.

Em pleno século 21, o homem branco ainda teima sua superioridade racial, e o eco de três séculos e meio de escravidão aflige minhas irmãs e irmãos de cor, cujo processo incompleto de abolição não os inseriu na sociedade como cidadãos plenos. O que nós cristãos temos a ver com isso? Recorda-te do versículo que mencionei no começo e junte-o com os dois grandes mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo. Amas a Deus, mas não o teu próximo? Utopia. Amas o próximo, mas não o teu Deus? Idolatria. Se amamos o Criador, amamos tudo o que ele fez, especialmente os seres humanos; pois o Altíssimo escolheu espelhar sua imagem e semelhança exclusivamente em nós – permita-me expressar meu sentimento quanto a isso, glória!

A doutrina do Imago Dei (ser humano, imagem e semelhança de Deus) condena o racismo, porque remove a dignidade da pessoa, logo, é uma afronta à proximidade graciosa que todo homem e mulher tem; visto que cada etnia carrega traços singulares do Criador, e a multiplicidade étnica é una no Grande Eu Sou. Dessa forma, ao vivermos de acordo com as palavras de Jesus, o reino está sendo pulsado aqui e agora, ainda que não esteja completamente estabelecido; bem como a justiça a fluir, ainda que não integralmente.

O racismo deve ser abolido diariamente de nossas mentes. Sim, nós brancos devemos admitir que, pelo menos uma vez, banalizamos o Imago Dei ao sermos racistas; ou seja, pecamos contra nosso Senhor. É necessário reconhecer que, já nos colocamos na posição idólatra étnico-racial, ao inferiorizarmos nosso próximo julgando a multiforme graça que o Criador manifesta no ser humano acerca de si mesmo. Além disso, temos de nos empenhar para que haja reparação histórica, denunciando social, jurídica e profeticamente (chamado cristão) as injustiças, lutando pelo bem-estar, liberdade, a promover a virtude… isso é justiça e o reino vem!

Talvez alguns me vejam como comunista ao dissertar sobre este tema, mas sou apenas mais uma seguidora de Jesus tentando viver uma vida que condiz com os ensinamentos de meu amado mestre; ele foi o que mais se preocupou (e se preocupa) com os oprimidos, parava para lhes ouvir e conceder libertação. Ademais, sua obra não foi interrompida, seu Espírito se move dentro de nós, estamos aptos a dar espaço para ele agir através de nossas vidas? “Ora, o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor ali há liberdade.” – 2 Coríntios 3.17

Gostaria de concluir este texto trazendo uma mensagem de consolo, juntamente com convocação: o Grande Dia. A esperança escatológica, isto é, da volta de Cristo, não anula as batalhas que o evangelho nos chama para travar, ao contrário, ela nos dá a responsabilidade para com o presente e o combustível que precisamos para nos mantermos firmes – a esperança da glória que o apóstolo Paulo pregou. Haverá a solução final. Haverá a honra por nossa luta. Haverá um mundo cuja união dos santos, em sua diversidade, reunirá os fragmentos do espelho do Imago Dei que fora estilhaçado na Queda, e a imagem estará completa mais uma vez, para todo o sempre. Em Cristo, nada é perdido, tudo é restaurado e unido, para a glória eterna do Pai. Amém.

 

  • Julia Oliveira Gomes, 18 anos, estudante de ciências biológicas na UFSCar, leitora voraz. Ama C. S. Lewis e é fã de Star Wars. Gosta de música e fotografia.
  1. Eu há muito tempo não tenho esperado por mensagens cristológicas de tipo algum. O cristianismo praticado pela maioria (de conservadores e fundamentalistas), quando não só excludente é, deliberadamente, racista. Por isso me surpreendo por ler um texto tão lindo, mesmo conhecendo há anos a ‘Ultimato’ e reconhecendo o seu evangelho consciente e responsável. Este texto me faz acreditar em uma minoria não-fundamentalista, não-simpática ao projeto político-opressor vigente neste País. Mesmo eu, que sou comunista, sei que posso ser cristão.

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