Por Lucas Gonçalves

Há algum tempo, escrevi sobre o vício do orgulho e a virtude da fé. Hoje pretendo mostrar na prática como esse vício e essa virtude influenciam a nossa experiência com a morte — tão presente em nossos dias pandêmicos.

Basicamente, eu disse naquele texto que o orgulho surge do nosso distanciamento em relação à palavra e à pessoa de Deus, de forma que passamos a agir como se as nossas vidas fossem realmente nossas e dependentes de nós. Mesmo nós, que professamos a fé no senhorio amoroso de Jesus sobre todas as coisas, experimentamos a tentação constante — às vezes sucumbimos a ela, inclusive — de vivermos como autônomos.

Conhecemos desde quarks até buracos negros com 34 bilhões de vezes a massa do Sol; descobrimos a cura para boa parte das piores doenças que assolam a humanidade; os nossos computadores conversam com a gente e já existem carros que nem precisam mais serem dirigidos; possivelmente estaremos colonizando outros planetas nas próximas décadas, e quem pode imaginar qual é o limite das nossas capacidades?

Bem, na verdade, essa pergunta é bastante fácil de se responder. O limite de nossas capacidades é o preço que pagamos por buscá-lo com tanta gana. O limite é a nossa própria vida — ou, mais precisamente, o fim dela. E é este o ponto que quero levantar nessa curta reflexão:  a morte é o ultimato (e o “prêmio”) de Deus contra o nosso orgulho. Podemos fazer e refazer universos à vontade; porém, no fim, a dura verdade vem à tona como uma avalanche, nos lembrando que não temos o mínimo controle sobre nós mesmos. Nem mesmo as nossas vidas, em última instância, dependem de nós.

Assim, creio que fica clara a razão pela qual este é um assunto que buscamos evitar. Ninguém deseja flertar com o nosso testificado cósmico de incapacidade. Por isso, algumas pessoas reagem a esse fato buscando tecnologia para vencer a morte. Outras, preferem simplesmente ignorá-la. Colocando de forma mais simples, todos tentam tapar as sombras da morte com uma peneira; todavia, sua foice inevitavelmente nos espera no fim do caminho. Podemos nos frustrar, podemos ficar ansiosos e até mesmo apáticos. Não interessa a nossa resposta, todos morreremos no fim, e isso grita na nossa cara que o nosso orgulho não passa de uma crise birrenta de uma criança mimada.

Graças a Deus, a história não acaba por aqui. Eu cresci ouvindo meu pai dizer que “para tudo nesta vida há uma solução”. O interessante é que alguns de seus interlocutores, entendendo as implicações dessa fala, respondem: “menos para a morte…”. Meu pai, com toda a sua sabedoria, retruca: “até para a morte, pois Jesus Cristo a venceu”. Não é interessante pensarmos que a solução para o maior golpe contra o nosso orgulho se dá justamente na dependência de alguém maior que nós mesmos? É aqui que entra a fé.

Enquanto Efésios 2.1-3 nos mostra que o orgulho nos conduz à ira (à morte plena), os versículos 4 a 6 nos mostram que uma vida muito maior e melhor que a que desejamos já se encontra disponível em Cristo. Se por um lado a autonomia orgulhosa realmente nos mata, a nossa humilde dependência de Jesus nos traz vida em abundância, uma vida que é digna de ser vivida. Olhando para essa questão deste modo, conseguimos entender melhor o que o Senhor nos diz em Mateus 16.24-26:

Então Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue- se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?  Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?”

Que morreremos é um fato. Agora como morreremos é uma questão aberta. Podemos morrer tentando agarrar a nossa vida a todo custo, buscando meios de ampliar a nossa existência ou fingindo que viveremos para sempre; ou, o que considero ser a melhor opção, podemos morrer (para nós mesmos) agora em Cristo e ressuscitar com ele depois do último dia.

Isso é um ato de fé, como eu disse, porque exige de nós conhecermos a Deus a tal ponto que nos confiamos plenamente nele, abrindo mão do controle de nossas vidas. É um ato de fé, oposto ao antigo orgulho, porque nos cobra vivermos com a convicção de que as suas promessas serão plenamente cumpridas em nossas vidas. A morte só assombra aqueles que não querem ver no espelho as próprias limitações. Entretanto, nós, que estamos em Cristo, amamos ver a imagem de nosso Senhor, que derrotou totalmente a morte, refletida em nós.

Assim, livres do peso da morte, podemos viver como mortos que aguardam a ressurreição. Seguindo a continuação de Efésios, entre os versículos 7 a 10, enquanto trilhamos esta nova jornada, podemos (e devemos) refletir esta esperança sobre os nossos conhecidos vivos para si mesmos, mas mortos para Cristo. Neste mundo tão escuro, essa luz brilha extremamente forte. Que morreremos é um fato.  Como morreremos é uma questão aberta. A minha sugestão? Bem, conforme ouvi certa vez de um pregador bem poético: “morra enquanto você ainda tem tempo”.

 

A edição de Setembro/Outubro é uma conversa sobre a morte e quem somos nós diante dela. Como disse Salomão, há mais sabedoria na casa onde há luto do que na casa onde há festa. No final das contas, falar sobre a morte é ensino para a vida, sobre si, sobre Deus.

 

 

  • Lucas Gonçalves, 30 anos. Formado em Publicidade e Propaganda e em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Se dedica ao estudo de cosmovisão cristã aplicada à literatura fantástica.

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